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Engajamento familiar
A escola deve procurar ouvir os pais e representantes da comunidade

A família e a escola devem caminhar juntas para apoiar o desenvolvimento dos alunos. Embora essa afirmação seja quase um consenso entre os profissionais da educação, a aproximação entre ambos os lados ainda é um desafio. Enquanto diretores e professores se queixam da falta de envolvimento da família na educação, pais ou responsáveis dizem não encontrar espaços de participação dentro da escola.


Para romper essas barreiras, especialistas defendem que é necessário investir no diálogo, seja para acordar os horários da reunião de pais ou até mesmo criar estratégias efetivas de participação. Os desafios e caminhos para concretizar a integração família e escola são tema de uma série de reportagens do Porvir que se inicia hoje.

“Não existe uma regra geral de como se aproximar das famílias. Cada escola precisa descobrir junto com as famílias um jeito de trazer essa participação”, defende a professora e pesquisadora Heloisa Szymanski, doutora em educação pela PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) e pós-doutora pela Universidade de Oxford, na Inglaterra.

Sem uma receita para dar conta da aproximação entre escolas e famílias, a pesquisadora menciona que os casos mais bem-sucedidos reforçam a importância de ouvir os pais e representantes da comunidade. Durante as reuniões, por exemplo, que são um dos momentos mais comuns de interação entre ambos, a falta de escuta resulta na convocação de encontros em dias ou horários que as famílias não podem comparecer. Se de um lado a reclamação é de que ninguém vai às reuniões, do outro, a justificativa é de que não é possível faltar em um dia de trabalho ou desmarcar um compromisso.

O formato de boa parte dos encontros também não contribui para essa aproximação, principalmente quando dificuldades de crianças são expostas na frente de todos os pais. “Já está mais do que comprovado que esse tipo de reunião não funciona. Tem que inovar, mas inovar junto com representantes de famílias e alunos”, aponta.

Em muitos casos, a participação da família na escola ainda fica restrita à ações pontuais. “Os pais são chamados na escola só para pegar o boletim dos alunos ou para uma festa para arrecadar fundos. E, ultimamente, não conseguem nem mais participar da elaboração da festa”, conta Kezia Santos, coordenadora geral do CRECE (Conselho dos Representantes dos Conselhos de Escola do Estado de São Paulo). Mãe de um menino no terceiro ano do Ensino Médio e de uma menina no quinto ano do Ensino Fundamental, há mais de 15 anos ela representa o segmento de pais no município e no estado de São Paulo.

Por meio do Conselho Escolar, que garante a participação de pais, representantes de alunos, professores, funcionários e membros da comunidade nas decisões de escolas públicas, Kezia acompanha de perto os desafios dessa relação. Ela diz que a ausência de diálogo entre ambos os lados e a falta de uma cultura de participação são algumas das maiores dificuldades observadas no dia a dia. “Eu costumo falar que a escola não deve formar só o aluno. Ela tem que formar os pais”, aponta Kezia, quando diz que a relação com as famílias também deve estar entre as prioridades das escolas.

Por outro lado, ela observa que diretores e professores precisam entender que a presença da família na escola não pode ser vista como uma ameaça ou espécie de intromissão. “Quando eu entrei na EMEI (Escola Municipal de Educação Infantil) e comecei a participar do conselho, pedi para ver o regimento da escola. A escola disse que não poderia me fornecer porque eu não saberia interpretar”, lembra Kezia.

Para Priscila Cruz, diretora executiva do Todos Pela Educação, o que faz diferença na hora de aproximar famílias e escolas é a percepção de ambos de que essa parceria pode trazer resultados para o aluno. “Tem um acúmulo de desafios que as escolas enfrentam todos os dias e muitas acabam vendo as famílias como mais uma coisa a ser feita, mais uma tarefa que elas precisam dar conta. Até que elas percebem que com a parceria da família vão ter o seu trabalho facilitado”, menciona.

Nos Estados Unidos, no centro de estudos Harvard Family Research Project, as pesquisadoras Heather Weiss e Elena Lopez têm acompanhado algumas estratégias que podem trazer resultados mais efetivos para essa aproximação, como visitas do professor à casa das famílias para apresentar o projeto pedagógico antes do ano letivo começar ou o uso de metodologias design thinking para envolver os pais em desafios e trazem suas ideias para dentro da escola. “Isso é um jeito de dizer: as famílias têm ideias, então vamos trabalhar com elas para desenvolvê-las”, conta Heather Weiss, que é diretora do projeto.

De acordo com Heather, não existe um limite claro entre o que é responsabilidade da família e o que é responsabilidade da escola, mas é importante que os dois lados trabalhem juntos para fazer com que o aluno aprenda e seja bem-sucedido. Ela ainda chama atenção para o fato de que as estratégias de aproximação devem passar por mudanças organizacionais, que envolvem desde o apoio aos diretores escolares até a inclusão desse tópico na formação inicial e continuada de professores.

Naquele país, estratégias voltadas para o engajamento familiar têm ocupado espaço entre as políticas públicas desde a década de 1960 e existem leis que destinam uma parte da receita dos distritos para ações que incentivam a participação.

“As pesquisas mostram que é importante para as famílias entenderem que elas têm um papel na vida de seus filhos, em seu aprendizado, desenvolvimento e perceber que suas práticas podem fazer a diferença. Os pais conseguem fazer isso quando a escola chega até eles por meio de convites feitos pelos professores ou quando oferecem um ambiente acolhedor para interagir”, explica Elena Lopez, vice-diretora do Harvard Family Research Project.

Como uma forma de estimular o engajamento de famílias e escolas pela mudança da educação brasileira, há dois anos o movimento Todos Pela Educação lançou a campanha “5 Atitudes pela Educação”, que propõe ações cotidianas para acelerar avanços educacionais.

“Valorizar a educação e fazer a sua parte não é necessariamente fazer um acompanhamento acadêmico”, diz Priscila, ao destacar outras ações podem ser efetivas, como promover a valorização do professor, ajudar a desenvolver habilidades importantes para vida, incentivar que as crianças e jovens entendam a educação como um valor importante, apoiar o projeto de vida dos alunos e ampliar o repertório cultural e esportivo deles.

Muito além do domínio de conteúdos escolares, a diretora executiva do Todos Pela Educação afirma que a família tem um papel fundamental de apoiar os alunos durante diferentes etapas. Se na educação infantil a criança precisa de afeto e referências para se desenvolver, quando ela chega na primeira etapa do ensino fundamental os pais ou responsáveis precisam valorizar a leitura para apoiar a sua alfabetização. Na adolescência, quando o estudante passa para os anos finais do Ensino Fundamental, a escola assume um papel muito importante de ajudar a família a compreender e se reconectar com o universo dos adolescentes. Já no Ensino Médio, as preocupações devem ser voltadas para ajudar os jovens no seu projeto de vida.

“Tem inúmeras maneiras da família ajudar a escola no crescimento do aluno. A própria presença da família já é a coisa mais importante”, defende o diretor Eliseu Paiva, da Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio Dr. César Cals, em Fortaleza (CE). De acordo com ele, os pais querem ver os filhos crescerem e querem saber de que maneira a escola pode ajudá-los a atingirem seus objetivos.

Em 2009, quando o diretor assumiu a gestão da escola, as reuniões chegavam a juntar apenas 24 pais ou responsáveis. Hoje, os encontros acontecem aos sábados e já dão conta de reunir mais de 400 famílias para apresentar a prestação de contas do trabalho realizado pela escola, refletir sobre temas importantes para a educação dos alunos e também tratar do acompanhamento escolar dos adolescentes. Segundo ele, a presença de quase um terço das famílias é resultado de diferentes estratégias. Entre elas, o uso de redes sociais para facilitar a comunicação e a designação de um professor por classe para assumir a posição de diretor de turma, que fica responsável por mediar o contato com as famílias.

De acordo com os resultados da pesquisa Cultivando a Aprendizagem Diária, realizada pela Fundação Lemann, a empresa de investimento em filantropia Omidyar Network e a consultoria de inovação IDEO, as competências socioemocionais e a concepção de aprendizagem como uma habilidade para a vida podem formar a ponte que aproxima o trabalho da família e da escola. “O elemento comum que une esses dois atores é justamente o objetivo final de que a educação prepare as crianças para a vida”, comenta Camila Pereira, diretora de projetos da Fundação Lemann.

Ao pesquisar o que motiva o envolvimento da família na educação, a publicação identificou que os pais ou responsáveis não se sentem qualificados para ajudar os filhos nos conteúdos escolares, mas acreditam ser responsáveis por apoiar no desenvolvimento de habilidades para a vida. “Em casa, você está mais preocupado se o seu filho será uma pessoa feliz e se ele conseguirá alcançar seus objetivos”, explica Camila.

Embora muitas famílias tenham o desejo de se envolver mais, muitas não sabem por onde começar. Além disso, a pesquisa também identificou que existem diferentes níveis de engajamento. Antes que os pais estejam mobilizados para influenciar mudanças políticas educacionais, eles devem estar engajados com a educação dos filhos dentro de casa. A partir daí, eles conseguiriam se conectar mais com a escola e, em um terceiro estágio, poderiam criar um compromisso com a educação em uma esfera maior. “Seria muito difícil você ser um pai engajado por uma educação pública de qualidade se você não tivesse uma conexão muito forte com o seu filho e muito forte com a escola dele. ”

*Colaborou: Vinícius de Oliveira, do Porvir

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