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Henriques foi secretário nacional de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC

Em meio a problemas estruturais gigantescos na área de educação, o Brasil tem uma tarefa ainda mais hercúlea: fazer o professor ser valorizado. A profissão é sabidamente importante, mas seu status repousa no plano das ideias. Longe de terem o reconhecimento que merecem, os professores da rede pública penam com parcos salários e, muitas vezes, são obrigados a trabalhar em turnos triplos, combinando aulas em escolas públicas e particulares. “Não enfrentamos à altura o problema de qualificação dos professores”, observa o economista Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco, que foi secretário nacional de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade do MEC e secretário executivo do Ministério de Desenvolvimento Social.


Ciente de que a remuneração é apenas um dos elementos no processo de valorização do professor, Henriques defende em entrevista ao Carta Educação que a carreira ganhe reconhecimento e até mesmo “glamour”. “É muito difícil tornar uma carreira almejada se a remuneração dela é praticamente o piso frente a todas as outras. Então eu preciso mexer na remuneração, mas também na questão associada à valorização do professor”, explica.

Leia a seguir a entrevista:

Carta Educação: Na sua visão quais são os piores gargalos a serem superados no Ensino Médio?

Ricardo Henriques: Talvez antes do gargalo, a fotografia seja importante. O que temos estruturalmente? A gente tem cerca de 90% dos jovens que não têm a aprendizagem adequada, o que é assustador. Além de um abandono gigantesco, com mais de 50% fora do Ensino Médio, resiste também uma cultura de repetência maluca. Quando a gente compara com qualquer cenário internacional, a defasagem, a distorção idade-série, é gigantesca. No Chile a defasagem no final do Ensino Médio é de 15% da população e no Brasil bate os 50%. Obviamente é um gargalo estrutural gigantesco.

E o que está associado a isso? Uma estrutura curricular excêntrica, com uma quantidade enorme de matérias, de 13 a 16 obrigatórias. E o problema não é a quantidade. O problema é serem as mesmas 15 para todos os estudantes. Eu acho até que a carga horária devia aumentar. Mas essa amarra, essa trilha única, que ainda por cima possuem uma abordagem pedagógica extremamente conteudística e enciclopédica. São dois fenômenos que todos citam juntos, mas são autônomos. Eu poderia ter um olhar conteudístico com matérias flexíveis.

O outro problema grave que temos é a formação de professores. Não enfrentamos à altura o problema de qualificação dos professores. O terceiro ponto no recorte dos professores é que você tem poucas escolas que você tenha professores dedicados a ela. Alguns lugares não permitem, mas em geral os bons professores têm uma estadual, uma municipal e uma privada. Tem lugares que o cara consegue ter duas municipais.

CE: Durante as ocupações de 2015 houve uma ideia chamada “Doe Uma Aula”, onde os alunos propunham a aula que desejavam. E quando se via essa grade tinha aula de teatro, dança, feminismo, contra racismo e etc. Existe um descompasso entre o que o aluno quer e o que lhe é oferecido na escola?

RH: Sim. A educação formal no Brasil se desenvolveu de tal forma que quando você chega no Ensino Médio o distanciamento entre realidade e expectativa é muito grande. A questão é como você compatibiliza uma quantidade de conteúdos e competências que deveriam ser aprendidos com as expectativas dos jovens no mundo contemporâneo. A reversão radical desse processo em geral deu errado. Acontece em algumas escolas privadas, que desenvolvem uma agenda progressista, de enorme engajamento, que diluem completamente a relação professor-aluno, e no final das contas os alunos aprendem muito pouco ali, quase nada. E aí por que eles sobrevivem? Porque eles possuem capital social, com os quais vão dar conta de se ajustar.

Acredito que o repertório ligado ao mundo da cultura e do esporte é pessimamente usado na educação brasileira, no limite até de haver separação entre educação e cultura. A priori, o MEC estar separado do Ministério da Cultura não faz nenhum sentido, ele poderia estar junto dando conta das duas agendas, porque cultura é, do ponto de vista do processo de criação de cidadania, de uma enorme potência pedagógica e de aprendizado, então o professor deveria utilizar isso em sala também como uma porta de entrada.

CE: A Base Nacional Comum Curricular causou bastante polêmica. Como você avalia o documento?

RH: Precisamos reconhecer primeiro que na nossa história de pós-democratização foi um enorme avanço o MEC ter tido a ousadia de colocar na mesa uma Base Nacional Curricular para debate. Acredito que ela facilita enormemente, se o cara for bem formado, a construir um plano de aula, com coisas estimulantes, interessantes, pois saberá claramente o que se espera dele. Além disso, permite melhorar muito a qualidade do livro didático. Temos, então, uma janela de oportunidade que, apesar dos vários problemas existentes com o processo, procedimentos, conteúdos, desenhos, linguagens, mostra a sociedade diante da necessidade de debater isso para chegar a um documento comum, que é a Base.

CE: Quais as limitações que você enxerga no processo de construção de um melhor sistema de gestão escolar e da base propriamente dita?

RH: Primeiro tem uma limitação grande pelo processo ter sido largado, o desenho inicial de construção da base ter sido feito sem uma matriz sobre as competências esperadas. Isso produziu uma desconexão, a falta de padronização no documento. No fim, o conjunto de especialistas que trabalhou ali praticamente se autogeriu por área de conhecimento e construiu sua visão com base em experiências passadas e não com base em uma matriz.

CE: Você falou bastante sobre a questão da formação do professor, mas como valorizá-lo? O que é preciso para motivar esse professor a dar uma boa aula?

RH: São várias frentes. Uma delas é de remuneração, sem a menor dúvida. Mas também temos de alimentar o debate, hoje empobrecido. Não se trata apenas da questão de remuneração. São várias coisas associadas ao campo da valorização, como o reconhecimento mesmo, a carreira ganhar glamour. As coisas estão ligadas, é óbvio. É muito difícil tornar uma carreira almejada se a remuneração dela é praticamente o piso frente a todas as outras. Então eu preciso mexer na remuneração, mas também na questão associada à valorização do professor. A sociedade brasileira ainda valoriza muito pouco a educação, e isso é categórico em todos os espaços sociais.