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Menina escrevendo

É preciso alfabetizar todas as crianças, no máximo, até o final do 3° ano do Ensino Fundamental, diz a meta 5 do Plano Nacional de Educação (PNE), aprovado em 2014. O prazo, apesar de exequível e apropriado, parece aquém da expectativa de alguns pais para seus filhos em termos de aquisição da escrita.


Na ânsia de instruir, algumas famílias tornaram-se adeptas de cartilhas e guias que têm por finalidade treinar a alfabetização das crianças, mesmo que à revelia da proposta pedagógica da instituição de ensino na qual estão matriculadas. Por trás dessa prática, a falsa ideia de que os filhos se tornarão mais inteligentes o quanto antes forem alfabetizados.

Segundo um estudo realizado pelo Instituto Ayrton Senna em 5.226 municípios brasileiros, cruzando os resultados da Avaliação Nacional da Alfabetização (ANA) de 2014 com a Prova Brasil 2013, existe uma relação direta entre alfabetização adequada e o sucesso escolar nos anos seguintes.

Quanto maior o desempenho do aluno em leitura e escrita na ANA, mostra o levantamento, melhor será sua performance em Língua Portuguesa e Matemática no 5° ano do Ensino Fundamental. É importante frisar, entretanto, que alfabetização adequada não é sinônimo de alfabetização precoce.

“Acredito que as escolas estão tão sucateadas que os pais ficam mesmo desesperados e acabam recorrendo a esse tipo de material para tomar uma atitude”, analisa Silvia Colello, professora de Psicologia da Educação da Faculdade de Educação da USP.

Exemplo dessa oferta de material de apoio é o recém-publicado As 5 etapas para alfabetizar seus filhos em casa – O guia definitivo, de Carlos Nadalim. A obra traz uma espécie de passo a passo para formar um leitor hábil, dividindo-se da seguinte forma: leitura partilhada, memória auditiva de curto prazo, consciência de frases e palavras, consciência silábica e consciência fonêmica. “Embora não sejam especialistas em educação, os pais podem, em casa, fazer alguns exercícios para remediar esse problema [da alfabetização precária]”, escreve o autor na introdução do livro.

Outras referências são as tradicionais cartilhas de alfabetização Caminho Suave, da educadora Branca Alves de Lima, que se tornou um fenômeno editorial e hoje está na 132ª edição (a primeira é 1948), e a Cartilha Sodré, elaborada por Benedicta Sthal Sodré, que vendeu mais de 6 milhões de exemplares em suas 273 edições.

Para Claudemir Belintane, da Faculdade de Educação da USP, existem pais que exageram como consequência da falta de confiança que depositam na escola. “Quando os pais percebem que o processo está à deriva, que o plano escolar não prevê um trabalho a partir das dificuldades da criança, então tentam fazer alguma coisa – em geral, fazem isso muito mal. Baseiam-se em suas lembranças de quando se alfabetizaram e correm comprar a cartilha Sodré ou a Caminho Suave”.

Claudia Vóvio, professora de Pedagogia da Unifesp, lembra que é normal que os pais mobilizem recursos para ajudar na alfabetização de seus filhos. Mas um ponto de atrito comum é que nem sempre as famílias estão habituadas às novas abordagens pedagógicas incorporadas ao processo de aquisição da escrita, o que pode gerar choques entre pais e escolas.

“As famílias têm essa compreensão da alfabetização pautada na própria experiência. Então pensam que se foram alfabetizadas daquela forma, porque seu filho seria de outra?”, diz. Dentro dessa perspectiva, os pais podem ter seus filhos matriculados em uma escola que, por exemplo, respeita as hipóteses de escrita e os desvios, mas acabam cobrando resultados que não seguem a metodologia na qual a criança está inserida.

“A mãe vê que o filho está cometendo uma série de erros ortográficos, o que é normal, e isso lhe causa aflição. Então corre para comprar materiais para treinar, corrigir isso logo. Materiais que não condizem com a proposta da escola”.

Silvia também posiciona-se contra o ensino da alfabetização por meio de programas formatados em passo a passo. “Do ponto de vista pedagógico, não se justifica. É reduzir muito o processo complexo de aquisição. Do ponto de vista familiar, também não. Os pais devem ajudar de outra forma, o papel deles é cobrar um bom ensino e incentivar a leitura em uma perspectiva lúdica e prazerosa, de estimular o encantamento pelo mundo da escrita”, diz.

Há valores na sociedade, no entanto, que levam à uma aceleração equivocada desse processo. “Valoriza-se hoje a concorrência, a competição, o ser o melhor. Mas é preciso respeitar o ritmo da criança. Se você acelera o processo queima etapas”, diz Silvia.

O ideal seria a escola ter, de fato, um plano para mostrar para a família o progresso da alfabetização de cada aluno, apresentar diagnósticos e resultados, além de evidenciar que o plano será focado nessa ou naquela dificuldade. E, ainda, informar aos pais sobre as melhores maneiras de ajudar nesse processo.

Entre essas contribuições, está a leitura compartilhada e ocupar-se com atividades lúdicas, como contar histórias, brincar com palavras, praticar leitura em voz alta, diversificar o lazer. “Em vez do tedioso domingo diante de programa de auditórios, sugerimos passeios em parques, museus, teatros. Tudo isso é muito mais interessante do que ficar em cima das questões escolares”, aconselha Belintane.

Criar em casa um cantinho aconchegante de leitura ou convidar a criança para ajudar a decifrar uma receita que se concretizará em um gostoso bolo são métodos também eficientes para aproximar os pequenos da escrita. “Em vez de comprar uma cartilha, compre um gibi. Jogos são outras opções fantásticas para a alfabetização, pois levantam dúvidas e desafios”, aconselha Claudia. Jogando forca, por exemplo, trabalha-se a construção das palavras, a familiaridade com a letras.

Assim, pais que brincam com seus filhos, que sentam no chão e ajudam a construir um mundo imaginário, levam uma dupla vantagem em relação aos pais que põem intencionadamente a ensinar a criança a ler. “Primeiro, estão revivendo sua infância e isso é absolutamente saudável para o psiquismo da família. Segundo, não estão correndo o risco de tornar a infância do filho um martírio perigoso. É preciso saber que a infância não é o lugar do pragmatismo”, alerta Belintane.

ABC

Para o professor, o estímulo da oralidade e criatividade são essenciais para uma alfabetização de qualidade. “Às vezes isso acontece em casa, com famílias que gostam de brincar com a palavra esperta, de contar histórias, de propor adivinhas. Ter a oralidade como ponto de partida é buscar a cultura oral das crianças e ampliá-la. Esse é o verdadeiro universo de letramento do aluno e não o texto prosaico do cotidiano, o texto que não traz entusiasmo”, diz.

No âmbito da escola, é importante que haja metas para perseguir, mas isso não pode virar uma camisa de força. “O aluno chega ao 4° com uma alfabetização mais ou menos e a professora não quer se responsabilizar porque sua alfabetização já deveria estar feita. Mas é um processo longo, que começa antes de entrar na escola e não se encerra quando ele domina as regras da escrita”, explica Silvia.

Segundo Belintane, é aconselhável que a criança esteja dominando os elementos de codificação da escrita no final do primeiro ano para que na passagem do primeiro para o segundo se tenha uma boa “dobradiça” para diagnosticar e, até mesmo, constituir reagrupamentos de turmas para trabalhar mais intensamente com as crianças que não estão conseguindo compreender as correlações entre oralidade e escrita.

“Quando vejo que a meta exige que a criança se alfabetize apenas e isso pode se reduzir a ler uma palavra isolada, uma frase, um parágrafo, penso que ela é pouco exigente, pois uma coisa é ser alfabetizado precariamente, e outra coisa é ser leitor. Ler, por exemplo, um livrinho para sua idade, com autonomia”, diz.

A heterogeneidade intrínseca às turmas, entretanto, não significa que a alfabetização tenha que ser individualizada. “Sempre que avaliamos as crianças de uma turma de 1° ano, percebemos nitidamente que há de três a cinco agrupamentos com níveis semelhantes, mas dentro de cada um as singularidades estão bem vivas”.

O fato que dificulta esse trabalho é que boa parte das escolas trabalha de maneira padronizada o tempo todo. Uma solução é fazer diagnósticos desde os primeiros dias de aula. Se a escola tem três turmas de alfabetização, essas podem se recombinar durante o ano de acordo com os níveis apresentados pelos alunos nas avaliações.

“Uma turma desafio, na qual os alunos avançarão mais ainda; outra para solucionar algumas questões pontuais como, por exemplo, dominar melhor as sílabas complexas; e outra composta por alunos que apresentam dificuldades mais elementares”, explica o professor.