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Familia e escola
A relação da escola com as famílias mais pobres é de culpabilização

Ana abandonou os estudos quando cursava a 6ª série. Aos 14 anos, ela deixou a Paraíba para viver na capital paulista, onde se casou e teve dois filhos. André, de 14 anos, cursa o 1º ano do Ensino Médio em uma escola estadual, e Alícia, de 11, está matriculada na 6º ano de uma escola municipal da mesma região.


Na mesa de jantar, as crianças fazem as atividades escolares sob a supervisão da mãe. Ana também faz questão de participar das reuniões de pais na escola, mas se entristece quando ouve que os pais são culpados pela dificuldade dos filhos porque não os ajudam. “A gente não sabe, como vai ajudar?”

O caso de Ana é comum entre as famílias analisadas pelo estudo Família, Escola, Território Vulnerável, coordenado pelo Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec). O trabalho investigou como as famílias que residem em territórios vulneráveis de grandes centros urbanos se relacionam com a escola e a escolarização de seus filhos.

Segundo Antônio Augusto Gomes Batista, coordenador de desenvolvimento de pesquisas do Cenpec, o discurso de que há omissão ou indiferença das famílias nas camadas populares em relação à escola não é verdadeiro. Pelo contrário, ele diz que essas famílias depositam grandes expectativas e esforços na escolarização dos filhos, que, entretanto, se tornam invisíveis.

“Vemos uma grande dedicação das mães para que seus filhos frequentem as aulas, o que nesses meios não é fácil, pois a escola é distante, chove e alaga, os filhos adoecem com frequência, entre outros motivos. No entanto, como a escola acha normal que o aluno vá todos os dias, não há a percepção do esforço”, explica.

O estudo também evidenciou a preocupação dessas famílias em acompanhar o que acontece no ambiente escolar. “Tinha uma mãe que achava que a escola era condescendente com os filhos. Ela via pelos cadernos que eles não sabiam nem ler nem escrever e só tiravam notas boas”, conta Batista. “Outra mãe reclamou que a escola dava pouco dever. E a professora respondeu: ‘Vocês querem lição de casa? Então vocês vão ver’.

Para o pesquisador, há uma resistência da escola em aceitar o acompanhamento dessas famílias. Em outras palavras, a relação é repleta de tensões. “A escola vê a família como a grande razão de seu fracasso, e a família vê na escola uma acusadora. Não é uma relação de apoio e de colaboração, mas, pelo contrário, de culpabilização”, diz Antônio.

Segundo o pesquisador, isso acontece porque a instituição escolar não foi pensada para essas populações, e sim para a classe média. “A escola espera que as famílias complementem seu trabalho, mas elas não podem fazer isso. As mães fazem o acompanhamento até uma certa altura, enquanto elas dominam um pouco do que a escola está ensinando. Mas, depois do Fundamental II, fica mais difícil e o apoio vai diminuindo.”

As matrículas setorizadas adotadas pelas grandes cidades contribuem para o problema. Ao matricular seus filhos perto do local de moradia, contribui-se para a segregação. “Nestas comunidades, surgem subculturas, cujos valores se afastam dos valores da escola. São modos de ser e de se comportar diferentes e que, muitas vezes, insultam os professores e a escola, contribuindo para o aparecimento de tensões”, explica Batista.