COMPARTILHE
Para a professora Luana Tolentino, o círculo apoia a inclusão dos estudantes

A professora Liliane Bernardes Ribeiro segue uma estratégia para dar suas aulas de Língua Portuguesa na Escola Estadual Celestina Valente Lengenfelder, no município de Francisco Morato, em São Paulo: organiza os estudantes em círculo, em U ou em grupos, rompendo com as tradicionais fileiras. A organização não é a toa, como ela explica: “dessa maneira eles podem me ver, olhar uns para os outros e trocar mais experiências”, conta.


A docente conta com o aval dos alunos do Ensino Médio. “Eu sempre pergunto a eles como podemos melhorar a sala de aula e o pedido pela organização aparece. Eles são adolescentes né, não gostam do tradicional”, afirma. As salas numerosas, com média de 40 alunos, não é empecilho para a prática.

“Uma aula diferenciada dá trabalho, mas temos que tomar cuidado para não cair na mesmice, porque ela não surte efeito. Eu prefiro que eles participem, interajam, porque é uma forma do conhecimento circular melhor. E quando escuto professores dizendo que não conseguem colocar em prática eu pergunto: você já tentou?”

Desconstruir é preciso

A consultora pedagógica Célia Senna é uma das entusiastas para que as escolas abandonem o formato tradicional das salas de aula, sobretudo pela história que embasa a concepção. “A escola como conhecemos hoje, universal, foi criada para atender a uma demanda de mercado. Com a Revolução Industrial, a indústria crescia e não se tinha pessoas minimamente capazes de trabalhar nelas. Então, o padrão que temos na escola é o mesmo da indústria à época – pessoas enfileiradas frente às suas máquinas. Só que a indústria mudou e a escola não”, relata.

Para a especialista a “pedagogia da nuca”, que conforma os alunos em fileiras olhando para a nuca do colega da frente é uma das responsáveis pelo grau de dispersão e indisciplina dos estudantes. “A escola mantêm as turmas nesse formato por horas, com pequenos intervalos…Qualquer um de nós dispersaria sob essa condição”, alerta.

No entanto, ainda que o professor possa lançar mão de formas de organização da sala de aula, Célia reconhece que a necessidade da mudança não deve recair apenas sobre a figura docente. “O professor não foi ensinado na faculdade a fazer de forma diferente, e as escolas, de maneira geral, não incentivam esse trabalho. Por isso, para além da ação, é necessário pensar em formação”, atesta.

Os benefícios passam por uma maior interação entre os estudantes, deles com o professor e com a construção coletiva de conhecimento.

Em artigo publicado no Carta Educação, a professora de História da rede estadual de educação de Minas Gerais, Luana Tolentino, relata a experiência de organizar os seus estudantes em círculo, dentro de um processo de questionar a maneira que as salas de aula se apresentam há tempos.

“Inicialmente, não foi muito fácil. Meu coração gelava ao pensar que as mesas e cadeiras sairiam do lugar para a formação de um círculo”, relata a educadora. No entanto, ela diz que à medida que avançou com a tentativa, o temor acabou e deu lugar a uma relação de confianças com os estudantes.

Leia Também:
“O círculo em sala de aula impede que os estudantes fiquem invisíveis”

“Eles sabem que ao organizar um círculo não estou ali para impor minha opinião, mas para orientar, ouvir, refletir. Eles sabem que estou ali para dividir o que sei e o que vivi”, comenta. Outro ponto percebido pela docente é que o círculo estimula a participação de todos, “impede que os alunos fiquem invisíveis”, e facilita a inclusão.

Luana narra que um de seus estudantes que tem deficiência intelectual se apropriou do debate em sala com o novo formato. “Durante o debate, Miguel, que tem deficiência intelectual, pediu para conduzir a leitura. Foi uma surpresa para todos nós. Em três anos, ele jamais havia participado da aula”, conta.

Como organizar a sala de aula?

Célia afirma que o que deve pautar o formato escolhido é a intencionalidade pedagógica de cada professor. “É fundamental que desde o ensino fundamental formemos os alunos para atuarem em coletivo na escola, mesmo em situações individuais de aprendizagem como no caso das avaliações”, afirma, ao entender que essa é uma maneira de aproximar a escola da realidade. “No mundo do trabalho esses formatos são muito comuns”, lembra.

A consultora ainda lembra que o chão também pode ser considerado um recurso pedagógico para promover rodas de conversa ou atividades de cartografia, por exemplo.

  • Círculo: formato favorece a mediação do professor, que perde o seu lugar de destaque frente à sala de aula, e as trocas entre os estudantes. No chão, a roda ainda pode permitir outras dinâmicas corporais aos estudantes.
  • Meia lua ou U: também atende às trocas entre os estudantes e deles com o professor. Pode ser uma alternativa para a aplicação de atividades individuais, dentro de um contexto coletivo.
  • Grupos: estratégia responde às atividades centradas no debate e na produção coletiva de conhecimento.

E quando a sala de aula sai de cena?

Na escola, as salas de aula deram lugar a salões de estudo. Créditos: reprodução Facebook

Na escola municipal de ensino fundamental Campos Salles, localizada em Heliópolis, zona sul de São Paulo, a desconstrução foi bem além do repensar a organização das salas de aula. Lá, elas deixaram de existir, dando lugar a salões de estudo.

A iniciativa veio colada ao repensar do projeto político pedagógico da escola iniciado em 2008. “Nós acreditamos que a aprendizagem se dá nas relações e começamos a nos questionar quais eram as relações mantidas entre os estudantes, entre eles e os professores e como a escola se colocava diante do conhecimento”, conta a coordenadora pedagógica Amélia Arrabal Fernandez. Ela conta que uma das percepções à época era que a arquitetura da escola não ia ao encontro da concepção.

A alternativa foi transformar as 12 salas de aulas, derrubando suas paredes, em cinco salões. Hoje, cada um atende estudantes de anos específicos do Ensino Fundamental I e II e do EJA noturno. “Temos cinco pela manhã, quatro a tarde e três a noite”, conta Amélia.

Leia Também:
“As escolas precisam deixar de ser apenas executoras de propostas pedagógicas”

Nos salões, a aprendizagem dos estudantes é conduzida por roteiros de estudo, recurso pedagógico que orienta o conhecimento coletivo acerca de um tema de interesse da própria turma. “Os alunos escolhem a temática em assembleias, depois os professores trabalham na concepção desse roteiro de maneira interdisciplinar, contemplando as diversas disciplinas e os objetivos de aprendizagem do currículo da cidade”, explica a coordenadora.

No dia a dia, os alunos trabalham em grupos de quatro integrantes para finalizar o roteiro proposto. No processo, eles são estimulados a pesquisar, debater e utilizar livros de referência. Tudo é acompanhado por professores que ficam o tempo todo nos salões, ao menos três em cada, para orientar e sanar possíveis dúvidas.

Estudantes da Campos Salles são estimulados a aprender em conjunto. Créditos: divulgação Facebook

Outra diferenciação é que cada aluno tem o seu tempo particular para finalizar o roteiro de estudo. “O que conta é a avaliação contínua feita pelos professores [a escola também aboliu as provas tradicionais]”, explica Amélia.

O processo, segundo a coordenadora, teve alguns entraves na implantação. Alguns professores chegaram a deixar a escola por não aderirem às mudanças. “Mas a maioria ficou conosco por acreditar na proposta”, conta Amélia, que entende que ela [a proposta] se relaciona com os princípios da autonomia, solidariedade e responsabilidade mantidos pela escola. “Um PPP é um projeto de sociedade, por isso precisamos nos questionar que sociedade é essa que queremos, que indivíduos queremos formar, e estar abertos a discutir as nossas contradições”, finaliza.