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Briga, agressão física, palavrão, desrespeito, discriminação social. Todas são formas visíveis de violência, presentes no dia a dia da maioria das escolas. Mas não são as únicas. Outras formas implícitas também acontecem com frequência no ambiente escolar como negligenciar o conhecimento sobre a realidade econômica, social, familiar, cultural e emocional dos alunos, negar-lhes o protagonismo e desacreditar de suas reais capacidades para aprender ou aprová-los sem garantir-lhes a aprendizagem.


A violência também se dá quando a direção e a coordenação da escola desconhecem a angústia e a solidão que muitos professores enfrentam ao tentar lidar com esses problemas.

Essas questões, tão significativas e complexas, permeiam um tema que é de extrema relevância para os educadores, a disciplina escolar. Isso nos remete a um dos mais agudos paradoxos vividos na educação: como justificar a existência da escola quando alunos desistem de aprender e professores desistem de ensinar?

Sabemos bem que as formas de violência vividas no interior das escolas são reflexos do que ocorre na sociedade brasileira, gerada por vários problemas de ordem estrutural. Como aponta a pedagoga e socióloga Flavia Shilling em um de seus artigos, estamos vendo cair por terra o mito de que o povo brasileiro não é violento e, portanto, temos de reconhecer que violência e disciplina são pautas atuais, que “permeiam discursos políticos, aparecem de forma espetacular na mídia, produzem pesquisas e debates, exigem tomadas de posições”.

A busca de soluções para enfrentar tal violência faz com que a maioria dos olhares voltem-se para a escola e para o professor, como se apenas a estes coubessem a tarefa de tentar resolver os problemas apontados. Mas a responsabilidade de disciplinar não cabe apenas a eles.

Em uma pesquisa realizada pelo Cenpec em 2014, foram analisadas 2.555 anotações feitas em livros de ocorrência de uma escola em um território vulnerável, entre 2007 e 2013. O estudo constatou que a maior parte das ocorrências registradas refere-se a episódios de violência de ordem física e moral entre alunos na escola, com 35,67% dos casos, e de indisciplina, com 18,10%. Ao analisar os resultados, verifica-se que a quase totalidade dos registros é feita a partir da perspectiva de professores, funcionários e equipe de gestão, e não de alunos e de outros atores da comunidade escolar.

Para superar esta lacuna, é preciso firmar um compromisso coletivo entre estudantes, familiares, docentes e gestores para tentar identificar as formas de violência invisíveis praticadas na própria escola, que muitas vezes não constam no livro de ocorrências.

Na literatura sobre o tema, autores como Dubet (2011) afirmam que a violência e indisciplina podem ser uma reação possível de alunos que não conseguem bons resultados escolares e desejam afirmar sua existência em um ambiente que faz uso da justiça meritocrática. Concidentemente, os alunos com idade acima da compatível com o ano escolar que frequentam, os que acumulam retenções e os rotulados como “problemáticos” são frequentemente considerados pela escola como os “piores” em disciplina e aprendizagem. No entanto, estes alunos muitas vezes são detentores de performances bastante positivas nas atividades que empreendem fora da escola.

Por isso, cabe perguntar: quantos destes candidatos ao fracasso escolar estão na escola onde atuo como professor? Minha escola oferece alguma oportunidade para que eles não carreguem para sempre a marca desse fracasso? Como podemos incluir na escola atividades condizentes com seus reais interesses, necessidades e capacidades? Estamos tratando a violência e a indisciplina pautados por normas centradas na punição e na desconfiança, ou buscamos soluções baseadas na resolução dos descompassos entre alunos, professores e a gestão?

É fundamental instaurar um diálogo verdadeiro entre professores, pais, alunos, equipe técnica e líderes comunitários. Só assim, alunos, educadores e famílias poderão encontrar formas justas e amigáveis de resolver pontos de divergências e construírem de modo coletivo regras de conduta e redes de apoio.

Maria Amábile Mansutti é coordenadora técnica do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária).