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A cada dois meses, os alunos do Up Centro Educacional, localizado em Vitória, saem da instituição com destino à Vale. Lá os estudantes do Ensino Fundamental têm a possibilidade de vivenciar na prática os conhecimentos que adquirem nas áreas de Ciências e Geografia.


“A ideia é fazer com que o conhecimento saia da sala de aula e volte a ela depois de cumprida a etapa de experimentação”, explica a diretora pedagógica do Ensino Fundamental, Teresa Augusta Spinassé.

A gestora conta que com o apoio de dinâmicas, vídeos e metodologias de participação é possível promover um outro tipo de interação dos alunos com o conteúdo.

“Tiramos eles do aspecto contemplativo, promovemos uma consciência acerca do que é estudado. Desenvolvemos a criatividade, o senso crítico, os orientamos a empreender, ou seja, a se verem como agentes de mudança e a se prepararem para resolver situações problema”, reflete Teresa.

Desenvolvimento de competências

A vivência é possível através de uma parceria da escola com o programa Vale na Escola, que tem como principal objetivo contribuir com o ensino de Geociências a partir de uma experiência diferenciada, como explica o gerente de Relações com Comunidades da Vale, Daniel Rocha Pereira.

“Ao todo, são 14 oficinas desenvolvidas para as diferentes faixas etárias para que os alunos possam ter acesso a ferramentas lúdicas e tecnológicas que permitam uma releitura do objeto de estudo”.

Programa Vale na Escola oferece 14 oficinas que preveem conhecimento na prática

Segundo Pereira, além de permitirem a experimentação, a interação e a troca de experiências visam o desenvolvimento de habilidades e competências nas dimensões cognitivas como: compreensão, aplicação, análise, avaliação e criatividade; afetivas como cooperação, autoconfiança, trabalho em equipe, administração de conflitos, respeito às diferenças, negociação, apresentação, discussão, comportamento, prontidão, sintetizar valores; e psicomotoras como reflexos, percepções, motricidade, linguagem do corpo, manipulação e execução.

Novas aprendizagens em sala de aula

A busca pelo desenvolvimento de competências ainda não é uma realidade de todas as escolas brasileiras. No entanto, isso não afasta a necessidade das unidades educacionais repensarem sua base de atuação, como avalia o presidente do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores (IBFE), Marcelo Veras.

“A espinha dorsal das escolas ainda é a mesma do século XIX, ou seja, mantem-se o ideário do professor que sabe tudo e dos estudantes como um grupo de pessoas que vai até o espaço para consumir conteúdos, guardá-los, para então serem avaliados”, coloca o especialista referindo-se ao modelo conteudista das escolas, marcado por filas indianas e salas fechadas.

Marcelo Veras

Para Veras, a educação precisa encontrar meios de dialogar com as linguagens e recursos da chamada “quinta Revolução Industrial”, como realidade aumentada, impressão 3D e conectividade. “Na contramão disso, ainda vemos escolas focadas em conteúdos técnicos para vestibulares”, atesta.

Prever novas aprendizagens em sala de aula também seria uma maneira das escolas melhor se adaptarem às demandas do mercado de trabalho, na visão de Veras. Ele cita o relatório The Future of Jobs, do Fórum Econômico Mundial, que lista as dez competências que serão mais demandadas pelas empresas na década 2020-2030.

Solução de problemas complexos, pensamento crítico e criatividade despontam no topo da lista. Elas são seguidas por gestão de pessoas, empatia, inteligência emocional, bom senso e tomada de decisão, orientação para os serviços, negociação e flexibilidade cognitiva.

“Das dez, nove são comportamentais, ou seja, o mundo do trabalho está muito mais aberto a receber profissionais com competências comportamentais corretas do que técnicas, porque essas podem ser ensinadas”, avalia.

O cenário, em sua visão, deve provocar as escolas e toda a sua forma de funcionamento. “O professor, por exemplo, deve conseguir atuar como um bom diagnosticador cognitivo, chegar na sala de aula e, através do uso de ferramentas, ser capaz de descobrir como cada aluno aprende. Além disso, ser um bom curador de conteúdo, para que a sala de aula se transforme em um lugar onde todos aprendem com todos”, avalia, reconhecendo que essa nova postura também deve se refletir no currículo, na infraestrutura e nas demais dinâmicas escolares.

O especialista, no entanto, frisa uma questão importante. “Não dá para esperar que as competências  sejam adquiridas lendo livros ou assistindo palestras, é preciso praticá-las”, assegura. O mesmo deve acontecer com as avaliações. “Não existe avaliar competências em provas. É necessário dispor de metodologias ativas, tais como sala de aula invertida, avaliação 360º e outros métodos que tirem o aluno da posição de mero coadjuvante e o façam protagonista”, finaliza.