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Protesto estudantes
Estudantes protestam na avenida Paulista contra a reorganização da rede estadual de ensino promovida pelo governo Geraldo Alckmin, na manhã desta sexta feira (4)

Duas escolas, sete, 18, 43, 67, 174, mais de 200. O movimento estudantil contrário à reorganização do ensino público paulista imposta por Geraldo Alckmin cresce desde 9 de novembro.


Se a progressão no número de ocupações impressiona, a resistência dos jovens ante as adversidades é seu maior trunfo. Nada parece abalá-los. “Pode mandar a polícia entrar quantas vezes quiser, Alckmin. Faremos ela sair de novo”, bradou Mateus, um dos alunos da Escola Estadual Maria José, no centro de São Paulo, em um protesto realizado na terça-feira 1º, após a unidade ser alvo de uma truculenta ação policial.

Após uma semana de protestos nas ruas, o governador recuou e decidiu suspender a reorganização na sexta-feira (4). Divulgada horas antes, uma pesquisa Datafolha realizada em 25 e 26 de novembro apontou que 61% da população é contra o fechamento de escolas e o remanejamento de alunos e 55% apoiam as ocupações.

O levantamento, anterior às cenas de violência policial contra os estudantes, indica ainda que a popularidade do governador nunca foi tão baixa: apenas 28% do eleitorado paulista considera sua gestão boa ou ótima.

Alckmim anunciou no Palácio dos Bandeirantes que os alunos continuarão em suas escolas atuais e as negociações com cada uma delas se estenderão por 2016. “Recebi e respeito a mensagem dos estudantes e seus familiares.”

O recuo momentâneo do governo, sem exigir a desocupação das escolas, dá uma vantagem importante aos estudantes. Uma vitória parcial dos jovens que resistem há quase um mês.

A tenacidade do movimento foi posta à prova em diversas oportunidades. Quando as ocupações se restringiam à Escola Estadual de Diadema e à Fernão Dias Paes, o governo buscou a reintegração de posse. A Justiça autorizou diversos mandados, mas logo recuou diante do risco à integridade dos jovens. Em meio ao crescimento das ocupações, Herman Voorwald, secretário estadual de Educação, cogitou suspender temporariamente o plano de fechar 92 escolas e remanejar 311 mil alunos se os estudantes desocupassem as unidades. Não funcionou.

Após vazamento de gravação sobre reorganização, alunos levam protestos às ruas nesta segunda feira
Protesto após vazamento de gravação sobre reorganização, na segunda-feira

No domingo 29, Fernando Padula Novaes, chefe de gabinete da Secretaria de Educação,conclamou diretores regionais de ensino a travarem “uma guerra” contra o movimento e afirmou nem passar “pela cabeça de Alckmin voltar atrás”. Na terça 1°, Padula, acompanhado por policiais, foi à Maria José pedir a saída dos estudantes, que protestam contra o fim das turmas de ensino fundamental II e médio. Após a recusa, a unidade foi invadida pelo diretor Vladimir Fragnan e pela PM, que usou spray de pimenta contra os alunos.

Na tarde do mesmo dia, uma privada entupida com réguas e extensões elétricas era o último resquício da ação. O equipamento depredado era utilizado para conectar caixas de som usadas em debates, assembleias e atividades como palestras com refugiados africanos, aulas sobre a Revolução Curda e saraus culturais. Ao contrário de outras escolas, as aulas estão interrompidas desde 24 de novembro, quando teve início a ocupação. A oposição de boa parte dos professores e da direção ao movimento seria o principal motivo, relatam os alunos.  Na Escola Estadual de Diadema, onde há apoio dos docentes, as aulas seguem normalmente.

Na noite da segunda 30, pais contrários à ocupação no Mazé, professores e a direção regional de ensino reuniram-se na igreja Achiropita, próxima à escola, para discutir a retomada do controle da unidade. O principal motivo seria a ameaça de que os alunos do 3º ano, parte deles contrária ao movimento, não obteria diploma sem a conclusão das aulas de fim de ano.

“Na reunião, os pais propuseram realizar uma assembleia no dia seguinte com todos os alunos, contrários ou não ao movimento, para deliberarem sobre o futuro da ocupação”, afirma Maria Isabel Faria, diretora de ensino da região. No dia seguinte, Padula chegou às 8h10 da manhã no colégio para tentar negociar o fim da ocupação. Segundo Maria Isabel, ninguém o chamou. “Ele costuma passar na frente do colégio antes de ir à secretaria.”

Após os ocupantes negarem o pedido de Padula, o diretor Fragnan entrou com um grupo de policiais e pais pelo fundo da escola e violou o cadeado. Uma das estudantes mais ativas, Lilith, 13 anos, afirma que os manifestantes ergueram barricadas de carteiras e mesas no pátio da escola.

Após romper a barreira, o diretor da escola, diz a estudante, passou a arremessar os objetos na direção dos alunos. Com um microfone nas mãos, a jovem passou a gritar as palavras de ordem “não tem arrego”. Lilith teria levado então um tapa no rosto de Fragnan. “Fiquei sem reação.” Um colega teria tentado defendê-la, mas também foi agredido. Quando percebemos a agressividade da polícia, nos reunimos no pátio e demos as mãos até eles irem embora.” Após a agressão, a estudante fez um Boletim de Ocorrência contra o diretor no 5º Distrito Policial.

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, os policiais acompanhavam um “grupo de funcionários da Secretaria de Educação que tentava negociar a saída dos alunos”. Em seguida, um “baderneiro” teria agredido o diretor da escola. “Por isso foi necessária a ação policial.” A nota diz ainda que o spray de pimenta foi utilizado para “conter o tumulto formado por estudantes que ocupam a escola”. A Ouvidoria da Polícia do Estado de São Paulo pediu ao Ministério Público Estadual e à Corregedoria da Polícia Militar a instauração de uma investigação sobre a ação no colégio.

Tumulto e manifestação parecem ser sinônimos para o governo paulista. No domingo 29, Padula reuniu-se com dezenas de diretores regionais de ensino. O áudio da reunião, obtido pela jornalista Laura Capriglione, foi divulgado no mesmo dia.

No encontro, o chefe de gabinete fala em “desmoralizar” o movimento. Para tanto, seria importante isolar as instituições onde os estudantes estavam mais organizados e mostrar que o “dialogômetro” do governo está em alta, enquanto a radicalização “está do lado de lá”.

Na reunião, Padula antecipou a assinatura do decreto da reorganização por Alckmin na terça-feira 1º, o que de fato ocorreu. O chefe de gabinete aconselhou-se até com dom Odilo Scherer, da Arquidiocese de São Paulo. Segundo Padula, o cardeal teria dito que as ocupações procuram “desviar o foco de Brasília”.

O decreto assinado por Alckmin autoriza a Secretaria de Educação a transferir os funcionários “nos casos em que as escolas da rede estadual deixarem de atender um ou mais segmentos”. A reorganização baseia-se na tese da performance superior de escolas com apenas um ciclo de ensino: Fundamental I, Fundamental II ou Médio. O levantamento que embasou a decisão de impor o segmento único em 754 escolas não considera, porém, variáveis como o número de alunos por sala e a formação dos professores. A reorganização é criticada por pedagogos das principais universidades paulistas, entre elas USP, Unicamp, Unifesp, FUABC e Unesp.

Cada vez mais isolado, Voorwald sequer assinou o decreto. Na quinta-feira 3, Alckmin propôs a realização de uma audiência com os manifestantes e determinou que Edson Aparecido, secretário da Casa Civil, assuma as negociações.

O vazamento do áudio da reunião de Padula com diretores de ensino motivou diversos protestos de rua ao longo da semana, com forte presença de movimentos sociais e entidades estudantis. Na segunda-feira 30, estudantes da Escola Estadual Professor Silvio Xavier Antunes, na zona norte de São Paulo, fecharam uma das pistas da Marginal do Tietê, enquanto alunos da Fernão Dias Paes ocuparam com cadeiras e mesas a Avenida Faria Lima, duas das principais vias da cidade. No dia seguinte, um protesto na Avenida 9 de Julho foi dispersado pela polícia com o uso de bombas de gás e a prisão de quatro manifestantes. Na quinta-feira 3, 11 vias de grande circulação foram fechadas por estudantes e movimentos sociais. Uma bomba disparada pela polícia na Avenida Angélica acertou o tanque de uma moto, que explodiu.

Eleita presidenta da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas há duas semanas, a paranaense Camila Lanes, 19 anos, foi detida na terça-feira 1º em um protesto na Radial Leste, organizado pelos alunos do Mazé, mas logo foi liberada pela PM. A entidade passou a dar assistência aos alunos paulistas tardiamente, pois o Congresso da Ubes ocorreu simultaneamente às primeiras ocupações. A dirigente estudantil tem se impressionado com a organização espontânea dos adolescentes. “O fato de o aluno acordar cedo, tomar café na escola, seguir uma programação à risca e organizar uma comissão para resistir à PM mostra um nível maior de conscientização que imaginávamos.”

Os estudantes não tem sido o único obstáculo de Alckmin para levar à frente seu plano. Na terça-feira 1º, o Ministério Público de São Paulo pediu a suspensão da reorganização das escolas na região de Presidente Prudente, no interior de São Paulo.

Autor da ação, o promotor Luiz Antônio Miguel Ferreira justificou a medida por entender que o decreto não tem como principal objetivo a melhora da educação, mas a redução de gastos. Em Agudos, também no interior paulista, o MP entrou com uma ação semelhante.

Na quinta-feira 3, o órgão e a Defensoria pediram a suspensão da reorganização na capital. O recrudescimento da violência policial e a falta de diálogo da gestão embasam o pedido das autoridades.

Os estudantes acumulam aliados. Além de diversos voluntários que atuam como guardiões das escolas ocupadas, artistas e músicos têm organizado oficinas culturais nas unidades. No domingo 6 e na segunda 7, ocorrerá a Virada Ocupação, que contará com a participação dos músicos Criolo, Paulo Miklos, Edgard Scandurra e Maria Gadú, entre outros.

Embora muitos considerem que o período de férias escolares possa esvaziar o movimento, não é bom duvidar da resistência dos alunos. O estudante Tiago, 15 anos, parece viver os melhores dias de sua vida no Mazé. Fã de pingue-pongue, o aluno consertou a mesa do colégio e agora organiza um campeonato com os colegas. “Antes, eu tinha poucos amigos. Agora, me sinto parte de algo maior.”

* Colaborou Tory Oliveira

  • Sensível ao apelo de pais e alunos, o governador Geraldo
    Alckmin decidiu suspender a reorganização das escolas para discutir durante o
    próximo ano com cada escola a melhor forma de fazer as mudanças. Um governante
    democrático age assim, revoga ou adia suas decisões para ouvir e esclarecer a
    população. Tenho certeza que esta medida fará que o apoio da comunidade escolar
    seja maciço às mudanças propostas pelo governo