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EE Diadema
Os alunos da E.E. Diadema protestam contra o fim da oferta de Ensino Médio previsto no plano de "reorganização" da rede estadual

Desde 10 de novembro, o roteiro se repete às 12h20 em frente à Escola Estadual Diadema, antigo Cefam. Na saída dos alunos, um batuque improvisado com latas velhas de tinta acrílica embala uma versão atualizada do Rap da Felicidade, recriado pelos estudantes contrários ao projeto de Geraldo Alckmin de reorganizar o sistema estadual de ensino. “Eu só quero é ser feliz, estudar tranquilamente na escola que eu escolhi”, cantam os alunos, sob o incentivo de um megafone.


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Na terça-feira 17, o portão de entrada do Cefam ainda estava coberto pela faixa “A escola é nossa, ocupamos!”, fixada uma semana antes. No mesmo dia, mais de 50 escolas paulistas estampavam cartazes iguais ou semelhantes.

Um grupo de 15 alunos de Diadema, na região metropolitana de São Paulo, tornou-se pioneiro de um movimento espontâneo que se multiplica em São Paulo. Na segunda-feira 9, eles decidiram passar a noite na escola e ocupá-la.

Aluno protesta na E E Diadema
Com mega-fone e batuque de latas de tinta, alunos protestam: “Eu só quero é ser feliz, estudar tranquilamente na escola que escolhi”

A decisão vinha sendo cogitada desde setembro, quando o governo estadual anunciou medidas para reorganizar as escolas paulistas. O projeto de Herman Voorwald, secretário de Educação, prevê o fechamento de 92 unidades e o remanejamento de alunos de outras 754.

A partir de 2016, as escolas passarão a abrigar apenas um ciclo: fundamental I, fundamental II ou médio. Após serem informados em outubro de que o ensino secundário noturno do Cefam seria suspenso, os estudantes passaram a organizar manifestações semanais em Diadema.

À época, previam em um grupo de mensagens de celular. “Se os protestos não derem em nada, vamos ocupar a escola.” A promessa cumprida serviu de inspiração para diversos outros alunos do estado, responsáveis pela ocupação de 56 escolas, segundo a Associação dos Professores de São Paulo.

Na tarde de quinta-feira, 19, Voorwald recuou e anunciou a suspensão do fechamento de escolas e  do plano de reorganização escolar. A suspensão ocorrerá 48 horas após a desocupação das escolas.

O argumento oficial para a reorganização é o suposto desempenho superior de escolas com gestão especializada, mas a metodologia da pesquisa utilizada para justificar a mudança é criticada por pedagogos e pesquisadores.

A reorganização foi baseada em um documento de 19 páginas elaborado pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, divulgado somente após o jornal O Estado de S.Paulo entrar com um pedido por meio da Lei de Acesso à Informação.

O levantamento aponta para o desempenho superior de escolas com apenas um ciclo. Ignora, porém, fatores como o nível socioeconômico dos estudantes e de suas famílias e a formação dos professores.

Luiz Carlos de Freitas, professor da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, é um dos críticos da reorganização. Na avaliação do especialista em políticas públicas para o setor, os autores da pesquisa entenderam que haveria uma relação de causa e efeito entre a especialização em apenas um ciclo e a aprendizagem.

Segundo Freitas, o fenômeno educativo possui muitas variáveis a serem consideradas. “Isso é muito comum em estudos que advogam em defesa de ideias predefinidas, quando é necessário algum manto científico para divulgá-las.”

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Os estudantes também não compram a versão do governo: acham que se trata de simples redução de custos. “Parece que o Alckmin estava entediado e decidiu mexer na nossa escola”, protesta uma das alunas do Cefam. Liane Bayer, diretora regional de ensino de Diadema, afirma entender o vínculo dos alunos com a escola, mas defende que a reorganização vai melhorar o ensino

Poucas horas após a ocupação da escola de Diadema, a Fernão Dias Paes, na zona oeste da capital paulista, também foi invadida pelos estudantes na terça-feira 10.

Abriu-se então um diálogo entre alunos da rede pública e movimentos sociais, principalmente o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que passou a auxiliar na ocupação de outras escolas do estado.

A Justiça chegou a autorizar a reintegração de posse do Cefam e da Fernão Dias, mas recuou e tem buscado o caminho da conciliação. Uma audiência entre o governo paulista e a Apeoesp foi marcada para a quinta-feira 19.

O projeto da Secretaria de Educação prevê ainda que os estudantes serão realocados para uma unidade cuja distância seja igual ou inferior a 1,5 quilômetro da escola antiga. Segundo Anna Helena Altenfelder, superintendente da ONG Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), a distância pode alterar arranjos estabelecidos pelas famílias, como delegarem aos irmãos mais velhos ou aos vizinhos o acompanhamento das crianças até o colégio. “Um trabalho de discussão e construção coletiva com a comunidade escolar precisaria ter sido feito.”

A distância não é o único problema. Embora alguns lances de escada separem o Cefam da Escola Estadual Filinto Müller, focada apenas no ensino médio, o possível destino dos manifestantes não agrada. Há uma rixa entre os alunos das escolas vizinhas que ecoa velhos confrontos adolescentes.

A possível superlotação da Filinto em 2016 é, porém, o que mais preocupa. “Se mudarmos, teremos de dividir carteira com outros três”, diz um dos ativistas.

Na terça-feira 17, alunos do Cefam participaram de uma reunião de conciliação no Fórum de Diadema que determinou uma nova reintegração em 24 horas.

Por intermédio da Defensoria Pública, os alunos apresentaram uma pauta de reivindicações e exigiram uma resposta de Voorwald para desocuparem a escola. Sem uma resposta do secretário, os estudantes foram pressionados pela direção do colégio a desocuparem o Cefam, mas não cederam.

A Justiça decidiu adiar mais uma vez a reintegração e marcou nova reunião de conciliação para quinta 19.

Apesar das pressões, os alunos estão dispostos a resistir. Uma demonstração de carinho pela escola onde a maioria estuda desde os primeiros anos do ensino fundamental. “Hoje, se o pai não acha o filho em casa, liga para o Cefam”, diz um dos estudantes, aos risos. “Antes chorávamos para não irmos para a escola. Hoje, choramos por não querermos sair.”