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indisciplina

Enquanto o professor dá aula, um aluno anda pela sala, outros zombam um colega e um grupo se distrai com um celular. Situações como essa têm se tornado recorrentes nas escolas e revelam pequenas agressões ou desobediências às normas estabelecidas. Sem saber como lidar com elas, os educadores sentem-se desmotivados e intimidados, agindo quase sempre de modo intuitivo e improvisado. A questão da convivência escolar tem sido debatida no meio acadêmico, mas ainda não ganhou a devida atenção das autoridades públicas no País.


Cenário bem diferente da Espanha, que desde a década de 2000 se dedica ao tema, tendo, inclusive, criado uma política nacional com leis norteadoras e programas preventivos e de intervenção. Para saber mais sobre esse trabalho, Carta Educação conversou com José Maria Avilés Martínez, doutor em psicologia pela Universidad de Valladolid e especialista no assunto com mais de 33 anos de docência nos ensinos básico e superior.

O professor participou do evento “A Convivência na Escola em Pauta”, realizado em agosto pelo Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (Gepem), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista.

Carta Educação: Que conflitos são mais comuns nas escolas espanholas?

José Maria Avilés Martínez: Os comportamentos que levam à interrupção do trabalho em sala de aula são os mais recorrentes e menos graves, porque estão relacionados com pequenas agressões, que chamamos de ruídos de convivência (no Brasil, são conhecidos como incivilidades): andar pela sala, não responder quando o professor chama, cochichar, ter conversas em paralelo, enfim, fazer coisas inadequadas para o momento. São esses aspectos de que o professor mais se queixa, porém, há outros importantes, a exemplo da desmotivação do estudante, que tem a ver com a capacidade de o professor se conectar com a turma, com o currículo e com os interesses da comunidade escolar.

Vemos jovens que seguem o currículo e outros que não se interessam pelo que a instituição propõe, pois têm percepções e interesses de âmbito diverso. Outro ponto diz respeito à indisciplina, à ruptura das normas de classe, à confrontação com a autoridade dominante – nesse caso, o professor ou a família. Há, ainda, histórias mais sérias, de violência, de abuso de poder, de maltrato e de agressão física. O bullying é um exemplo claro disso, assim como brigas no pátio entre jovens, agressões de um professor a um aluno ou de um pai a um professor. São situações comuns, principalmente na adolescência, e que podem chegar à falta de respeito total entre os envolvidos.

CE: Que políticas públicas são mais eficientes para combater os conflitos?

JMAM: Existem programas de intervenção e prevenção da convivência que fazem parte de normativas do Estado (o governo federal) e da legislação das comunidades autônomas (divisão política e administrativa semelhante aos estados brasileiros), as quais devem ser adaptadas segundo as peculiaridades de cada lugar. Para implantar essas ações, é fundamental formar educadores que atuem como multiplicadores de conhecimento na orientação das escolas sobre o assunto. A criação de observatórios é outra medida que ganhou força no país. Esses órgãos, constituídos de professores, alunos, pais, especialistas e representantes de sindicatos, têm ajudado no debate do assunto. Também foram positivas as iniciativas de concessão de prêmios para as instituições que promovem boas práticas de convivência. Contudo, com a mudança de presidente e governo no fim de 2011, vêm sendo cortados diversos recursos e medidas, o que só tenho a lamentar.

Conflitos em sala de aula

CE: Como essas políticas se traduzem na rotina de um estabelecimento?

JMAM: As equipes de mediação constituídas por professores têm papel importante, pois visam ajudar os implicados no conflito a buscar por si mesmos soluções construtivas que satisfaçam as suas necessidades. Há ainda o plano de convivência – um projeto elaborado pela comunidade escolar que faz um diagnóstico dos problemas e traça ações para combatê-los e que prevê a formação de professores tutores para acompanhar o desenvolvimento pessoal dos alunos, em especial aqueles com mais dificuldades de relacionamento. Além disso, é válido organizar o cotidiano da escola de forma a se repensar as regras e as sanções aplicadas. Em definitivo, é tarefa do professor ajudar o estudante a avançar tanto nas questões de aprendizagem dos conhecimentos em geral como nas de relações estabelecidas com seus pares e com a autoridade.

CE: A família participa do processo de resolução de conflitos?

JMAM: Sim. A comunicação com os pais é fundamental. Eles têm de tomar parte da vida escolar dos filhos, acompanhar o trabalho realizado em classe. Para tanto, o papel do professor tutor é essencial ao falar com a família sempre que preciso, dar avisos, marcar reuniões. Manter esse diálogo vai depender da importância que a família dá à educação e de como a instituição trabalha essa questão, se valoriza a participação dos pais. Isso é uma tarefa que exige esforços de ambos os lados.

CE: Embora o senhor tenha dito que as soluções dos problemas dependem de cada situação, há algo que seja útil a todos eles?

JMAM: Os conflitos são indispensáveis e existem mesmo que não os desejemos, visto que são inerentes à condição humana. O educador, portanto, tem de aproveitar essas situações para educar os alunos, tornando-os capazes de incorporar estratégias, propor soluções justas e reparar possíveis erros. Isso se constrói no dia a dia das situações conflitivas na aula, desde que haja disposição. Se as ignorarmos, não vamos aprender a resolvê-las.

CE: O que dizer a um professor que enfrenta questões sérias de violência, indisciplina ou maltrato e já tentou de tudo para resolvê-los, mas sem êxito?

JMAM: De fato, há situações difíceis de resolver. Até porque elas refletem violências praticadas fora do âmbito educacional. É interessante não agir sozinho, pro-curar ajuda e se apoiar nos colegas, na equipe gestora e na comunidade. Não é fácil nem imediato, exige disposição, crença no que se está fazendo e uma cultura de resolução pacífica de conflitos. Só não é adequado recorrer a instituições como a polícia ou o Poder Judiciário, porque, assim, seguiremos sem ensinar os estudantes a autorregularem-se. Claro que quando um professor teve experiências negativas é mais difícil e, por isso mesmo, não vai ser com mais violência que a situação terá fim.

CE: As dificuldades nas relações interpessoais são reflexo da sociedade?

JMAM: Sim, também. A convivência pode levar a conflitos, visto que as pessoas têm interesses e necessidades diferentes e estão em posições distintas. E a escola não é um microcosmo isolado, ela faz parte da sociedade, mas tem o papel de educar para a resolução dessas questões, que têm crescido nos últimos anos. Fundamentalmente, porque os modelos de relação se modificaram, a sociedade está mudando e a escola não respondeu com a mesma velocidade. Estamos no mundo digitalizado, informatizado, das imagens, e na educação ainda são usadas regras e metodologias de épocas anteriores. Isso provoca uma desconexão, um desinteresse acadêmico e muitos dos problemas dos quais os professores frequentemente se queixam.

CE: O senhor vê os conflitos como um tema contemporâneo ou algo pontual, desse ou daquele país?

JMAM: Ocorre em qualquer escola que não responda às necessidades da turma. Pode ser na Espanha, no Brasil ou em qualquer parte do mundo, a educação tem de ter um programa objetivo e concreto, que contemple os interesses dos jovens e preveja a participação deles.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental