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Alunas protestam contra decisão do Colégio Anchieta, em Porto Alegre

No ano passado, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou seu Plano Municipal de Educação sem o termo gênero. Com isso, sinalizou claramente o desejo de que as crianças do município não sejam expostas de modo algum a qualquer debate que dialogue com o que se tem chamado de ideologia de gênero. E ela não foi única. A questão ganhou calor Brasil afora e outras câmaras municipais e assembleias legislativas trilharam o mesmo caminho.


Leia a proposta de trabalho em sala de aula baseada no tema:

Competência: – Confrontar opiniões e pontos de vista.

Habilidades: – Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas, assuntos e recursos linguísticos; Reconhecer no texto estratégias argumentativas empregadas para o convencimento do público.

Debate é um gênero oral que se estabelece por meio de ações discursivas de caráter expositivo e argumentativo. Enquanto atividade, permite que o estudante defenda posições por meio de argumentos, exercite a audição e registro dos argumentos apresentados pelos que têm uma posição diferente da sua, tendo como objetivo a estruturação de sua contra argumentação ou a transformação de seu ponto de vista.

Etapas para a realização do debate

Estudo do gênero – É importante que os estudantes sejam expostos a modelos desse gênero, podendo por meio disso compreender como ele se estrutura e como se dá seu desenvolvimento. Esse estudo prévio do gênero deve oferecer os elementos para a escolha do tipo de debate que se realizará e das regras que vão regê-lo.

Divisão dos debatedores em grupos – Esses grupos se formarão conforme a multiplicidade de pontos de vista que serão contemplados. É importante considerar a plateia como um grupo que em alguns momentos possa intervir com perguntas ou considerações.

Pesquisa temática – A pesquisa temática tem como objetivo permitir que cada grupo envolvido no debate reúna o maior número possível de informações e dados nos quais apoiará seu processo de argumentação. Ela pode ter como fontes: livros, documentários, entrevistas, blogs, etc.

Tendo em vista as questões que pautaram a reivindicação das estudantes do Colégio Anchieta em seu abaixo assinado, algumas questões iniciais poderiam guiar a pesquisa temática:

– Como historicamente se deu a objetificação e sexualização do corpo feminino? Por que esses processos constituem uma violência às mulheres?

– Como as questões de gêneros são consideradas em outras culturas?

– Por que alguns meninos/homens veem as meninas/mulheres como objeto sexual? Como esse olhar se estabelece hoje em nossa cultura?

– A roupa que usamos informa algo sobre quem somos? Do espaço que ocupamos na sociedade? Do espaço que queremos ou precisamos ocupar na interação com as pessoas ou instituições?

– Como o assédio às meninas/mulheres se manifesta em nossa sociedade? Como evitá-los?

– Como incluir os meninos/homens no debate sobre os novos papeis que a meninas/mulheres vem buscando desempenhar socialmente?

– Qual o impacto desse novo contexto feminino sobre a percepção que os meninos/homens têm de si mesmos?

– Quem faz as regras da escola e quando elas podem ser revistas? Socialização e sistematização dos dados levantados

Para estruturar a argumentação com a qual defenderá seu ponto de vista no debate, cada grupo poderá se apropriar do material de pesquisa da maneira que melhor lhe convier.

Estabelecimento das regras do debate – Considerando o modelo de debate escolhido e seu tempo de duração, as regras do debate são definidas: ajuste do papel do mediador na abertura condução e fechamento do debate, tempo de apresentação dos pontos de vista que serão contemplados, tempos de fala, réplicas, tréplicas e a forma como se dará participação da plateia.

Escolha do mediador – O mediador pode ser uma pessoa do grupo de estudantes, um professor ou qualquer outro profissional da escola que possa ter interesse no debate. Uma alternativa interessante pode ser convidar uma autoridade, especialista no assunto.

Publicação – O registro em vídeo do debate pode constituir-se em material de pesquisa de outros estudantes que venham a se debruçar futuramente sobre o tema. Ele ainda pode ser publicado na intranet do colégio com objetivo de socializar com toda a comunidade escolar as ideias que foram debatidas.

Enquanto isso, as escolas têm arcado com o desafio de se perguntar o que fazer com o comportamento de crianças e jovens que, inquietos, vêm colocando em xeque, em seu cotidiano, os modelos de masculino e feminino que a sociedade lhes apresenta. O abaixo-assinado Vai ter shortinho sim, feito por alunas do Colégio Anchieta, em Porto Alegre, talvez seja a expressão de uma das facetas do complexo universo de situações que o tema da sexualidade suscita no espaço escolar.

A instituição de ensino tem, portanto, um papel importante a desempenhar: o de criar situações adequadas de reflexão que permitam às crianças confrontarem sentimentos, percepções e comportamentos, buscando alternativas para uma convivência saudável e produtiva dentro de um espaço cada vez mais marcado pela diversidade.

Infelizmente, muitas vezes, os educadores encontram-se despreparados para lidar tanto com essas situações, quanto com o impacto que elas têm na experiência pessoal de cada estudante. Isso porque algumas dessas questões são novas para os próprios educadores. A inclusão da discussão de gênero nos Planos Municipais de Educação teria dado a oportunidade de marcar a importância de a escola estar comprometida com essa demanda contemporânea, além de garantir investimentos na produção de materiais didáticos adequados e na capacitação de educadores para melhor organizar e encaminhar esse trabalho em sala de aula.

O fato é que não há como tapar o sol com a peneira. A escola não terá como se abster de discussões como essas sem se ver exposta a manifestações ruidosas e legítimas como a das estudantes gaúchas.

Demandas como as colocadas pelo abaixo-assinado das estudantes de Porto Alegre chamam atenção para o fato de que a escola não é, nem nunca será, um espaço imparcial de transmissão de conhecimentos objetivos. Os sujeitos que dela participam estão todos implicados nas situações de ensino-aprendizagem com seus limites, desejos, temores, e esses aspetos são determinantes da qualidade de tudo aquilo que se produz e vive dentro da escola.

Os acontecimentos e experiências contemporâneos estão o tempo todo dialogando com o conhecimento historicamente acumulado pela humanidade. Aliás, é principalmente para dimensionar e enfrentar melhor os primeiros que o domínio do segundo se impõe, ganhando significado.

Apesar das questões de gênero terem sido preteridas pelo Plano Nacional de Educação e por muitos planos municipais e estaduais, quando ocorre um protesto como o protagonizado pelas estudantes do Colégio Anchieta de Porto Alegre, é desejável que a instituição escolar busque canais de diálogos que favoreçam a compreensão das demandas colocadas e o que torna possível ou não seu atendimento.

Levando em conta a complexidade que o tema pode ganhar para alguns, a resistência que pode despertar em outros e a importância de, no processo de diálogo, exercitar-se a alteridade, uma atividade enriquecedora e produtiva é a promoção de debates a respeito do tema.

 

 

*Saiba mais:

Site:
Olga

Livros:
Desigualdade de gênero, raça e etnia. Vários autores.  (Editora IBPEX, 2012)

Gênero, patriarcado e violência. Heleieth Saffioti. (Editora Expressão Popular, 2015)

Filmes:
Billy Eliot (Reino Unido, 2000)

O Sorriso de Mona Lisa (EUA, 2003)

 

*José Carlos de Souza é professor de pós-graduação do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz