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Mapa do Feminicídio

Cerca de 70% das mulheres sofrem algum tipo de violência, seja ela física, sexual, psicológica ou econômica, no decorrer da vida. É o que afirma um documento da ONU, que também aponta que uma em cada cinco mulheres se tornará vítima de estupro ou tentativa de estupro.


Foram estatísticas alarmantes como essas que motivaram Marcus Vinícius Leite, professor de História da escola internacional Fundação Torino, ligada ao Grupo Fiat, em Belo Horizonte, a desenvolver com seus alunos do Ensino Médio o Projeto Generocídio, que já completa dois anos.

“Algum tempo atrás conheci esse termo: mulheres que morrem simplesmente pelo fato de serem mulheres e de viverem em uma sociedade machista. Então comecei a discutir esse tema com meus alunos e apurar casos de crimes contra a mulher dentro do nosso contexto geográfico”, conta.

Após levantarem inúmeros casos repercutidos na mídia, o professor e seus alunos criaram um mapa virtual colaborativo, pontuando os territórios da região metropolitana de Belo Horizonte que já foram cenários de abuso, desrespeito e violência contra o gênero feminino.

Aluna
Aluna participa do projeto que mapeia violência contra a mulher

O objetivo do projeto, segundo o professor, é entender, discutir e denunciar o tema. “Com o trabalho, os alunos puderam compreender melhor a realidade e situação de opressão às mulheres. Percebemos que os casos eram bastante pulverizados e que, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não estão restritos a bairros de condições econômicas menos favoráveis.

Além do mapa, as turmas mantêm o blog Generocídio – A Violência Contra a Mulher em Belo Horizonte, onde a cada semana elaboram um pequeno texto analisando e discutindo o material encontrado na mídia sobre a condição feminina. “Faço esse trabalho relacionando-o com a História do Brasil, porque historicamente o papel da mulher no País foi sempre deixado em segundo plano. Então partimos de temas específicos para trazer à tona o papel das mulheres na sociedade”, explica Leite.

Segundo o professor, a iniciativa tem trazido resultados bastante positivos, o maior deles ligado à revisão da cultura machista. “Estamos formando uma geração mais apta a entender e discutir o problema, mais preocupada com a ­questão da inserção da mulher na sociedade.

“A pesquisa nos permitiu perceber a gravidade do assunto trabalhado, nos permitiu ver que não são apenas um ou dois casos ao mês. O projeto também mostrou como o mundo começou a se preocupar com tal violência há pouco tempo e que ainda há muito a se fazer”, relatou uma das alunas de Leite em depoimentos colhidos por meio de formulário anônimo.

O projeto ficou em primeiro lugar na Categoria Iniciativa Cidadã do Prêmio Cidadãos do Mundo 2013, promovido pelo jornal mineiro Hoje em Dia, e esteve entre os dez finalistas do Prêmio Microsoft Educadores Inovadores – Educador Especialista.

Investigar, por meio da tecnologia, o espaço em que a escola está inserida para refletir a complexidade das relações sociais ali existentes também é o eixo central do Projeto Cartografia dos Sentidos, coordenado por Regina Helena Alves da Silva, professora do Centro de Convergência de Novas Mídias da  UFMG.

Fotografias, vídeos, áudios e textos usados para convidar os alunos do Ensino Fundamental à Educação de Jovens e Adultos (EJA) a conhecer mais a fundo e a retratar a comunidade do entorno escolar para compor produções multimídia, que podem ser mapas, sites, ­blogs, maquetes e exposições.

O objetivo é discutir o local onde os estudantes habitam e estudam, além de incentivar a apropriação das novas tecnologias a fim de desenvolver competências digitais.

Hoje presente em mais de 50 escolas brasileiras e em países como Espanha e Portugal, o Cartografia dos Sentidos surgiu em 2005 como projeto de pesquisa da UFMG para aproximar a percepção dos jovens de diferentes questões urbanas como violência, patrimônio, mobilidade, moradia e meio ambiente, apresentando um caráter multidisciplinar.

Nas escolas, os alunos são primeiramente incentivados a dividir entre si ­suas impressões sobre o entorno da escola e, em um segundo momento, a caminhar em grupos pelo local fazendo seus registros utilizando diferentes ferramentas e mídias, como gravadores e câmeras. “Eles precisam pensar em linguagem tecnológica, em como criar algo juntando esses materiais”, explica Regina Helena.

Posteriormente, as percepções dos alunos são cruzadas com o material levantado no trabalho de campo, além de notícias veiculadas sobre a região, legislações e outros documentos consultados. Com a pesquisa feita, toda a classe é convidada a compartilhar suas descobertas e trocar experiências.

“Este momento é muito interessante, pois juntamos a representação da cidade existente no imaginário desses alunos e os dados apreendidos e ficam evidentes distorções sobre os locais. Em Salvador, por exemplo, tinha um grupo de alunos que achava que o Pelourinho era um lugar sujo e violento e depois viu que não era bem assim”, conta a professora.

Os trabalhos assumem formatos diversos. Entretanto, uma das ferramentas mais utilizadas para expô-los é o Meipi, site interativo para a criação de mapas, no qual os usuários podem agregar informações de acordo com o contexto, que pode ser um local ou um tema.

“A preocupação do projeto, desde o início, era desconstruir essa naturalização dos problemas da cidade. Propomos uma reflexão sobre esses elementos, pois o nosso direito à cidade é também nossa corresponsabilidade com ela”, afirma
Regina Helena.

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Projeto Generocídio
Cartografia dos Sentidos
Meipi

*Publicado originalmente em Carta na Escola