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Assédio Moral – A violência perversa no cotidiano
81% das mulheres deixaram de fazer alguma coisa por medo de assédio.

A publicação de pesquisa realizada pelo coletivo de mulheres Think Olga sobre a percepção que o público feminino tem a respeito do assédio que experimentam no cotidiano tem motivado debate bastante acalorado.


Tendo o slogan Chega de Fiu-Fiu marcando uma espécie de protesto, o coletivo revelou, por meio da pesquisa realizada, fatos e circunstâncias que devem servir de alerta para a necessidade de transformação de um traço da cultura masculina que mascara práticas de violência: a cantada.

Leia proposta de Redação inspirada neste texto

Competências Confrontar opiniões e pontos de vista

Habilidades Relacionar, em diferentes textos, opiniões, temas e recursos linguísticos. Reconhecer no texto estratégias argumentativas para convencimento público.

Debata com seus alunos o problema do assédio nas ruas e abra espaço para ações transformadoras

1) A escola, por sua natureza formativa, é espaço privilegiado para a realização de debates sobre questões de gênero. Lembrar que já houve tempo em que meninos e meninas estudavam em espaços separados nos faz pensar que a convivência entre pessoas de sexos diferentes desde sempre foi marcada por fantasmas e medos que não foram eliminados quando as salas mistas se estabeleceram. Muitos desses medos persistem como antes, outros ganharam disfarces que tornaram a convivência menos difícil. Vale destacar, que as dificuldades não se restringem à sala de aula, invadem a sala dos professores, da coordenação e transbordam para os espaços de convivência com outros profissionais e famílias. A sequência de atividades a seguir propõe um percurso reflexivo para o tema e busca abrir espaço para ações que transformem a atual situação de sujeição a que as mulheres estão expostas.

2) Em seguida, tendo em vista o mapeamento de como os fatos problematizados na pesquisa aparecem na própria comunidade escolar, os estudantes podem replicar a pesquisa sobre assédio proposta pelo coletivo Olga com as mulheres de sua comunidade: meninas, amigas, mães, professoras, outras funcionárias da instituição. É possível que, motivados pelo debate realizado na atividade inicial, os estudantes sintam a necessidades de acrescentar perguntas à pesquisa, ampliando o universo de questões.

3) Enquanto a pesquisa avança, pode-se abrir espaço em sala para a troca de impressões sobre a tarefa em curso. Isso ainda se torna mais necessário caso se a pesquisa seja realizada tête-à-tête e não por meio de um programa, via internet. É de se imaginar que pode não ser fácil para alguns estudantes ouvir suas mães, amigas e professoras dando seu depoimento sobre essas situações. Pode até mesmo ser, que muitas, constrangidas, se recusem a falar sobre o assunto. Ao mesmo tempo, essa relação mais próxima dos entrevistadores com as vítimas dessas situações de assédio, podem abrir espaço para um olhar mais sensível sobre o tema.

4) Após a realização da pesquisa, auxiliados, quando possível, pelo professor de matemática, os estudantes devem estabelecer quadros comparativos entre o resultado da pesquisa publicado pelo coletivo Olga e o do levantamento realizada por eles, fazendo uma leitura crítica das duas: os resultados se repetem? Há divergências? Qual a natureza delas? O que esses dados sugerem como compreensão da realidade? Como síntese dessa atividade, os estudantes podem individualmente produzir um texto dissertativo organizando os principais aspectos que essa comparação colocou em evidência. O compartilhamento dessa atividade pode ser rico no sentido de se observar a forma como meninos e meninas podem atribuir significados muito diferentes aos mesmos dados.

5) Finalmente, os estudantes podem publicar os resultados dessa pesquisa e a análise que realizaram, no site ou mural da escola.

6) Como atividade alternativa de produção de texto, pode ser curiosa a produção de contos tendo a questão do assédio como tema. Para uma aproximação mais sensível do tema, podem ser interessantes narrativas em primeira pessoa, ora focalizando as mulheres, vítimas das situações de assédio, ora os homens, na situação de agentes. Esse momento pode ser uma ótima oportunidade para tematizar questões específicas do gênero: foco narrativo, ponto de vista, construção da personagem, tempo cronológico/tempo psicológico, clímax, desfecho.

A pesquisa considerou as respostas de 7.762 mulheres a questões relacionadas à forma como são abordadas por homens em espaços públicos.

Diferente do que possa parecer a muitos deles, o levantamento revelou que a maioria esmagadora das mulheres, vítimas dessas circunstâncias, vive um sentimento de constrangimento que muitas vezes evolui para uma experiência de medo.

Muitas viram abordagens que, em algumas situações, se limitavam ao plano verbal, evoluir, em outras, para a agressão física.

85% responderam já terem sido abusadas por homens lhes passando a mão – na bunda, na cintura, nos peitos, no meio das pernas;

65% já foram agarradas pelo braço; e quando repudiaram tais ações, 68% foram xingadas.

O fato é que 83% afirmaram que não acham legal esse tipo de abordagem.

Algumas consequências desse conjunto de violências verbais e físicas: vergonha, insegurança, medo.

Muitas mulheres (90%) declararam ter trocado de roupa antes de sair de casa com receio de serem assediadas; outras, 81%, deixaram de fazer alguma coisa por receio de estarem sujeitas a algum tipo de assédio.

Os dados revelam o retrato de uma sociedade marcadamente machista e insensível a esse sofrimento.

Cada uma das situações colocadas em foco pela pesquisa denuncia a violência a que a mulher está sujeita desde cedo, já que relatos apontam que muitas a experimentam desde a infância.

O Brasil viveu um episódio inédito nas últimas eleições: três mulheres concorreram ao cargo de Presidente. Uma conquista importante para as mulheres.

Pode-se imaginar, para além da experiência de identificação, o reconhecimento de valor que meninas e mulheres experimentaram ao ver essas candidatas, pela competência política que acumularam, concorrendo de igual para igual com outros homens.

Mas, nesse mesmo período, o país teve vergonhosamente que acolher a denúncia de assédio e estupro de estudantes graduandas de uma das mais importantes faculdades de Medicina do país, a da Universidade de São Paulo (USP).

A denúncia ainda trouxe, como agravante, a possibilidade de a instituição ter sido omissa na apuração desses crimes.

Esses dois fatos mostram avanços e dificuldades que nossa sociedade enfrenta no trato de questões relativas à igualdade de gênero.

Nesse sentido, os dados da pesquisa sobre o assédio apontam o longo caminho que se terá de percorrer até que todas as mulheres possam experimentar plenamente o direito de uma inserção segura no espaço público.

Quando se observa o mapa da violência contra a mulher, os dados são terríveis. Só na última década, 43 mil mulheres foram assassinadas no País.

O mais absurdo, nesse dado, é o fato de a maior parte desses crimes ter sido cometida por seus parceiros, pessoas com quem viveram a experiência mútua do desejo e a expectativa de uma vida afetiva madura.

A muitos pode parecer absurdo aproximar dados sobre o assédio às mulheres aos do assassinato delas – fala-se até em feminicídio –, no entanto, os dois sinalizam para um sentimento feminino que escapa a grande maioria dos homens: o medo. Para um número significativo de mulheres a figura masculina é signo de ameaça.

O que os dados mapeados pela pesquisa publicada em Olga, os estupros na USP e o feminicídio em curso no país deixam evidente é que as mulheres estão hoje sujeitas a uma ação progressiva de violência, na qual os homens são os principais agentes.

Logo, não será possível transformar esse quadro sem que se encontre e sistematize ações e reflexões que contribuam para a transformação do olhar masculino sobre as mulheres.

Será necessário estabelecer novas formas de convivência que tenham o respeito entre os gêneros como marca principal.

Nesse sentido, publicações como essa pesquisa do coletivo de mulheres Think Olga oferecem uma contribuição significativa para a reflexão que deve atrair a atenção de todos aqueles que estão comprometidos com o respeito à dignidade humana e a busca por uma sociedade mais justa e acolhedora das diferenças.

É hora de instituições, empresas, pessoas se abrirem para o debate e à proposição de ações que transformem esse quadro.

Chega de Fiu-Fiu, slogan que o coletivo Olga utilizou para dar visibilidade aos dados de sua pesquisa, é ao mesmo tempo expressão de protesto e de demanda por respeito.

Entretanto, é importante que fique claro que, em nenhum momento, se está condenando o flerte estabelecido por olhares cumplices.

A busca de estratégias originais que aproximem pessoas marcadas pelo desejo continua sendo uma exigência da conquista. Humor, sensibilidade, inteligência, sagacidade são ótimos ingredientes quando norteiam ações que têm o respeito mútuo como elemento principal.

O fato é que mulheres e homens têm direito, ao longo de suas vidas, a relacionamentos afetivos ricos e profundos, assim como têm o direito de escolher quando e com quem querem vivê-los.

É preciso levar a discussão sobre assédio para a sala de aula.

Sites

Olga

Rede de Enfrentamento à Violência contra a Mulher

Secretaria de Políticas Para as Mulheres

Livros

Assédio Moral – A violência perversa no cotidiano, de Marie-France Hirigoyen. Editora Bertrand Brasil – 2009

As Ligações Perigosas, de Pierre Choderlos de Laclos. Editora Relógio d’àgua – 2000

Filmes

Documentário Chega de Fiu-Fiu (em processo de montagem)