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Casa de Viviane

Apesar do alívio proporcionado pelo divórcio, ocorrido há quatro anos, Laura (nome fictício) ainda não havia dividido com ninguém o peso dos 37 dolorosos anos de casamento. Desde antes da separação, ela frequenta a Casa de Viviane, ONG que apoia mulheres vítimas de violência doméstica na zona leste de São Paulo. Lá mesmo, respondeu várias vezes às perguntas de profissionais sobre seu passado, mas nunca havia organizado sua história, escolhido os episódios ou a linguagem que quisesse, até que foi convidada a escrever sobre si mesma. “Foi como renascer”, diz a senhora de regata rosa, saia florida, brincos pendentes e sorriso tímido.


A sexagenária é a mais velha das 14 autoras do livro Contos de Viviane, que será lançado em 2015 como fruto de uma oficina sobre literatura realizada com as atendidas gratuitamente pela entidade. O grupo de mulheres é heterogêneo: algumas têm nível superior, outras nem sequer completaram o Ensino Fundamental. Umas resgataram o gosto pela escrita, outras o experimentaram pela primeira vez. Em comum, o texto carregado de sentimentos.

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“Elas se abriram em coisas difíceis de falar como, ‘aos 11 anos fui estuprada’ ou ‘aos 15 engravidei pela primeira vez’”, conta a assistente social da Casa de Viviane, Roseane Arévalo, gestora do projeto. Segundo ela, a maioria não vai assinar com o verdadeiro nome para não se expor. Outras escreveram contos apenas inspirados em suas próprias histórias. Muitas linhas foram acompanhadas de lágrimas e narram episódios desconhecidos até por amigos e familiares.

A ideia surgiu no início de 2014, como forma de comemorar o décimo aniversário da instituição, que funciona no bairro de Lajeado. O nome da casa é uma homenagem à Viviane dos Santos, moradora da zona leste da capital paulistana morta aos 19 anos, após ser mantida em cativeiro e abusada pelo namorado. “Infelizmente, histórias assim ainda são comuns e queríamos ao mesmo tempo evidenciar isso e melhorar a autoestima das mulheres que atendemos”, diz Roseane.

O projeto foi inscrito no programa municipal de valorização deiniciativas culturais (VAI) e recebeu 10 mil reais para custeio. Para atender à necessidade de ineditismo do edital, a reportagem de Carta na Escola não pode publicar trechos da obra. A professora de Língua Portuguesa, Camila Freitas, que já participava de eventos da entidade, foi a monitora responsável pelos encontros semanais. “O que mais me impressionou foi o envolvimento delas desde o início. Elas não faltavam nunca e agora não querem que acabe”, comenta a educadora.

Nas aulas, as mulheres fizeram exercícios de dança, customizaram seus próprios cadernos, praticaram a escuta e contaram as histórias umas das outras. A cada semana, também entravam em contato com a chamada poesia e literatura periféricas, mais próximas de suas vidas.

A principal obra usada foi Quarto de Despejo: diário de uma favelada, em que a escritora Maria Carolina de Jesus (1914-1977) retrata o seu cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo. “A história de libertação pela escrita de uma mulher negra e sem estudo em plena década de 1960 (ano de publicação do livro) foi motivo de empoderamento. Elas ficavam admiradas e instigadas a fazer o mesmo”, afirma Roseane.

O grupo também recebeu a visita da escritora Elizandra Souza, autora periférica cujo foco são as histórias de mulheres negras, e frequentaram saraus literários da região. “Foi outra surpresa, tínhamos apenas indicado eventos, mas elas foram a dois e até declamaram. Tudo isso mexeu muito com elas. Sentiram que podiam fazer arte.”

Laura conta que encontrar e estudar autores foi inspirador, mas acha que o fundamental foi conhecer a história, os sonhos, as frustrações e a luta das colegas próximas. “Foi a coisa que mais me transformou nos cinco anos que frequento esta casa. Conheci de verdade gente que eu ‘conhecia’ só de convivência”, afirma ela, que começou a frequentar a instituição em uma “fase de desespero”. Meses depois, teve coragem para tomar uma decisão adiada há décadas. Fizeram diferença para dar o primeiro passo o apoio jurídico e psicológico e as oficinas de trabalhos manuais e atividades em grupo que a fizeram “sair do fundo do poço”. Agora, batom nos lábios, namorado novo, ela anda de bom humor. “Nem eu lembrava de mim antes, do meu tempo de menina, de como foi que a vida foi acontecendo. A gente passa a se valorizar.”

Falando de si
A professora de Linguagem e Psicologia da Educação da Universidade de São Paulo, Sivia Gasparian Colello, destaca dois benefícios que ajudam a explicar o sucesso de atividades com autoescrita, aquela em que o autor fala de si mesmo. O primeiro é a organização psicológica de fatos conturbados ou traumáticos.

Segundo ela, apesar de estarmos muito acostumados com a função da linguagem como forma de comunicação com o outro, o ato de colocar tudo no papel, mesmo que seja apenas para si ou em publicações anônimas, conduz a reflexões. Se o autor sabe que outros serão leitores, mais detalhes são descritos e trabalhados. “É um exercício de traduzir as ideias. Uma coisa é viver e sentir, outra é relatar, o ponto de vista diferente amplia a percepção da pessoa sobre o fato.”

Outro motivo para adotar a prática está no grande potencial de envolvimento, como ocorreu em Lajeado. “Quando um professor pede para o educando escrever sobre si, a escrita ganha um propósito para além do estudo ou do desenvolvimento de habilidades. O sujeito entende que sua vida é digna de atenção. Isso é algo muito importante para a nossa sociedade e que deve ser explorado por projetos educacionais”, diz Silvia.

Ela conta que registrou um caso de alunos que, já na adolescência, ainda não eram alfabetizados efetivamente. Os meninos mostravam desinteresse pela escola até o dia em que um professor propôs que falassem de si. No começo fizeram listas, mas para expressar melhor episódios como os jogos de futebol com os amigos no fim de semana ou os casos de violência que presenciavam, finalmente passaram a escrever. “É um poderoso instrumento para dar significado a escrita”, resume a especialista.

Para a professora Camila, que administrou as oficinas, este seria o motivo do bom resultado após apenas um ano de atividades. As histórias impressionam pela violência vivida, pelos sonhos escondidos no dia-a-dia como “dançar e brilhar” ou “reescrever o passado”, mas também pela capacidade de ilustrar os episódios com comparações e rimas. “Não acho que seja algo que aprenderam, apenas ficaram à vontade para dizer e falaram na mesma linguagem poética com que tiveram contato”, afirma a monitora.

As obras impressas serão distribuídas entre outras casas de apoio a vítimas de violência, espaços de convivência na periferia e bibliotecas. A jornalista Aline Rodrigues, integrante do projeto Periferia em Movimento, organização que busca cobrir o lado oculto da periferia na mídia, elogiou a iniciativa. “Os movimentos sociais são parte da cultura de resistência e sobrevivência da população pobre. Ações bem-sucedidas que extrapolam e alcançam outros núcleos fortalecem estas organizações”, diz.

A assistente social Roseane acha que a repercussão também deve partir de cada uma das autoras. “Sempre nos preocupamos em construir a autonomia delas em todos os aspectos. Desta vez não foi diferente, muitas já preparam novos textos e querem compartilhar suas histórias com outras vítimas”, afirma, esperançosa de que mais vozes significarão menos novas vítimas da violência doméstica no Brasil.

*Publicada originalmente em Carta na Escola