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Cieja Campo Limpo é exemplo de qualidade em uma modalidade historicamente esquecida

Sentadas em mesas coletivas, mulheres discutem em grupo com o professor sobre os malefícios do sal. Na sala ao lado, alunos adultos surdos trabalham em Libras com a professora. Atrás de outra porta, senhoras dão os primeiros passos no mundo das letras com a ajuda de outra educadora. No pátio, misturada com jovens de boné e fone de ouvido, Maria José, de 91 anos, conta para a diretora, Eda Luiz, que ela foi a única mulher a comparecer na aula de hoje. “Só veio homem.” “Deve ser por causa da chuva”, sugere a diretora. “Não sei por que elas não vieram, só sei de mim. Eu não falto”, replica dona Maria José, com uma risada.


Adolescentes que abandonaram o ensino regular, menores cumprindo medida socioeducativa na Fundação Casa, alunos com necessidades especiais, senhoras que estudam escondidas do marido e trabalhadores que desejam completar o Ensino Fundamental – todos são bem-vindos na ampla casa verde equipada com rampas e decorada por cartazes e plantas cuidadas pelos próprios alunos no Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (Cieja) Campo Limpo.

Marcado pelo acolhimento e pela diversidade o Cieja Campo Limpo é um exemplo bem-sucedido de qualidade em uma modalidade historicamente relegada ao segundo plano das políticas públicas educacionais.  Localizado no coração do Capão Redondo, bairro periférico de São Paulo conhecido por seus altos índices de violência e problemas sociais, a escola recebe 1,2 mil alunos, dos quais 282 são de inclusão. “Eu trabalho com os excluídos”, explica Eda Luiz, de 65 anos, que é pedagoga e especialista em Educação de Jovens e Adultos (EJA).

O esforço de Eda e seus alunos está expresso na própria existência da unidade. Em 2007, os Centros Integrados de Educação de Jovens e Adultos correram o risco de fechar as portas em São Paulo e as turmas, de serem transferidas para o horário noturno em turmas regulares. Diante da notícia, os alunos e a comunidade se mobilizaram, aproveitando a visita do então secretário de Educação ao bairro. O ato resultou na tarefa de estruturar, ao lado dos gestores das demais unidades existentes na cidade, um plano político pedagógico para as escolas. As portas ficaram abertas e hoje há 13 Ciejas em São Paulo.

Apesar do final feliz em Campo Limpo, a modalidade de EJA é ainda relegada. Resultados preliminares do Censo Escolar 2013, divulgados pelo Ministério da Educação, mostram redução de 20% nas matrículas de educação de jovens e adultos na rede pública em comparação com 2012. Atualmente, 3.102.816 estudantes jovens e adultos estão matriculados em  todo o Brasil. Desse total, 69,1% estão no Ensino Fundamental e 30,9% no Médio.  O número de alunos inscritos na modalidade caiu 37,7% desde 2007.

Além disso, dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) 2012, publicados recentemente, chamaram a atenção ao revelar que a proporção de pessoas com 15 anos ou mais que não sabem ler nem escrever passou de 8,6%, em 2011, para 8,7%, em 2012. Ainda é cedo para afirmar que o analfabetismo parou de diminuir no País, mas a flutuação estatística reacendeu o debate sobre o analfabetismo de jovens e adultos no Brasil.

Hoje, 13,2 milhões de brasileiros com mais de 15 anos são analfabetos. Mais da metade (54%) desse total está nos estados do Nordeste, um contingente de 7,1 milhões de pessoas. Ao mesmo tempo, a região foi a que apresentou a maior queda na taxa de analfabetismo nos últimos oito anos, de 5,1 pontos porcentuais (foi de 22,5%, em 2004, para 17,4%, em 2012).

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“Vamos lembrar que o analfabetismo é um produto de toda a sociedade que tem um sistema econômico injusto”, pondera Sérgio Antônio da Silva Leite, professor da Faculdade de Educação da Unicamp. “Se o fracasso escolar ainda é alto, haverá uma fonte que alimentará o índice de analfabetismo dos sujeitos adultos. É ilusório achar que basta o tempo passar e os adultos analfabetos morrerem”.

A pouca prioridade de investimento dada pelos estados e municípios para a modalidade, a falta de flexibilidade de horários, o baixo número de professores especializados e o engessamento do modelo escolar são alguns dos fatores que contribuem para a falta de atratividade da EJA. “A educação de jovens e adultos continua sem projeto próprio, sem espaço adequado e sem uma metodologia adequada”, avalia Roberto Catelli, coordenador da unidade da EJA da Ação Educativa.

“Não existem estudos empíricos, mas as hipóteses para a redução das vagas são de que os recursos são escassos e a cultura da alfabetização na idade adulta não tem sido cultivada”, opina Maria Clara di Pierro, professora da Faculdade de Educação da USP. Na análise de Maria Clara, existe uma combinação entre falta de investimento e, ao mesmo tempo, de cobrança. Justamente por se tratar das camadas mais excluídas da população, o grupo social que seria favorecido pelo aumento de vagas e investimento tem dificuldades de se expressar e colocar suas demandas na agenda das políticas públicas.

A falta de especialização dos profissionais que atuam na área também é um entrave. “No caso das campanhas de alfabetização de adultos é dramático, há uma improvisação de professores sem preparo, baseada no pressuposto de que qualquer um pode alfabetizar”, conta Maria Clara. Mesmo quando há qualificação, não há especialização para trabalhar com adultos e jovens. Não existe uma habilitação específica nos cursos de Pedagogia e a EJA ainda é marginal nos cursos de formação de professores. “Se o aluno vai para uma escola que é pouco relevante para a sua vida, é mais fácil acontecer a evasão.”

No entanto, Maria Clara di Pierro explica que é preciso valorizar os progressos feitos na última década. Para ela, a EJA saiu de uma posição de desprestígio na década de 1990 para uma posição ainda secundária, mas com medidas mais consistentes, a partir de 2002. “Ela passou a fazer parte do Fundeb e a receber livros didáticos, merenda e transporte escolar”, conta. A conquista de espaço nas políticas estruturantes da educação básica, porém, não foi incentivo suficiente para uma real expansão da oferta de vagas na modalidade. O problema seria que o governo federal é apenas um indutor das políticas públicas educacionais – executadas pelos estados e municípios muitas vezes sem recursos suficientes para incluir também a educação de jovens e adultos.

Além disso, a expansão precisaria ser feita com mais diversidade de modelos, considerando a heterogeneidade do público-alvo. “Hoje há predominantemente um modelo escolar muito rígido, uma reprodução do modelo de educação escolar utilizado com as crianças”, explica Maria Clara. “O aluno trabalha, em geral possui uma baixa-estima educacional. Para ele, retomar os estudos é um desafio complexo, que exige da escola investimento, criatividade e mobilização”, argumenta Roberto Catelli. “O importante é construir uma diversidade de ofertas, apenas um único modelo não vai resolver.”

Ao contrário da maioria das turmas de EJA, instaladas em escolas regulares apenas no período noturno, o Cieja Campo Limpo funciona das 7 às 22h30, em seis turnos e com horários flexíveis. Eda Luiz justifica que não faria sentido reproduzir o modelo de escola tradicional na Educação de Jovens e Adultos.

Assim, nas salas de aula os alunos sentam-se em grupos, e não em carteiras enfileiradas, o estudante tem liberdade para escolher o melhor entre os horários disponíveis e o diário de classe tradicional foi substituído pelo “passaporte do aluno”, no qual o professor anota as aulas em que o aluno compareceu. Além disso, as aulas são divididas em áreas do conhecimento, nas quais os estudantes se detêm durante 25 dias. Um projeto semestral de interferência na comunidade e um tema comum orientam os trabalhos de todos os alunos e dos 36 professores, funcionários da prefeitura. Este semestre, o tema é “O que é a política?”

Dentro dos muros do Campo Limpo, o maior entrave ainda é fazer com que as pessoas acreditem que é possível produzir uma educação de qualidade, à altura do público de jovens e adultos que recebe. “Cada menino aqui tem uma história de superação”, declara Eda, antes de chamar Anderson. Vestido com uma camisa social branca, brinco na orelha e aparelho nos dentes, a figura de Anderson Ailton Odorico, de 23 anos, em nada lembra a do jovem viciado em crack, pesando 38 quilos que um dia chegou à escola pedindo ajuda.

A despeito de todas as dificuldades, Anderson alfabetizou-se em dois meses, com a ajuda das professoras e incentivado por um celular dado pela diretora. “Ele queria ler as mensagens de texto”, lembra Eda. Hoje, livre da droga, Anderson trabalha na escola como ajudante-geral e cuida dos três irmãos mais novos. “É bom quando alguém acredita em você”, fala, exibindo o smartphone novo em que ele hoje lê, sozinho, as mensagens dos amigos.

*Publicado originalmente em Carta na Escola