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meninos se abraçam e observam favela
Favelas são mostradas como lugares pestilentos e assustadores

“As condições de vida ali são assustadoras: a fome, as epidemias e o desemprego fazem parte da vida cotidiana dos habitantes. Os poucos trabalhos permitem apenas a sobrevivência. Veem-se cortejos de crianças malvestidas, raramente escolarizadas, revirando montes de lixo à procura de algum alimento ou objeto para vender.” É essa a definição de favela encontrada no livro Histoire-Géographie-Initiation Économique 6e, material didático de Geografia, publicado na França em 1990. Passados 25 anos, ainda é esse mesmo retrato superficial, generalizante e pejorativo do Brasil que circula nas escolas francesas.


A constatação é do professor-doutor em Geografia Leonardo Moreira Ulhôa, que, em 2013, defendeu a tese de doutorado “Imagens e Estereótipos do Brasil nos Livros Didáticos Franceses”, pela Universidade Federal de Uberlândia. Ulhôa teve o primeiro contato com o tema em 2003, quando realizava um trabalho em escolas do país europeu com o objetivo de conhecer as metodologias de ensino utilizadas em sala de aula. “Um fato bastante peculiar passou a chamar minha atenção nos livros didáticos: as imagens e as narrativas que estilhaçavam as formas de perceber, representar e imaginar o Brasil”, conta.

Cenários de mendicância, urbanização sem controle, descaso do poder público, desmatamento ilegal e tantos outros problemas característicos de uma nação periférica e de desenvolvimento tardio salientavam-se, formando um discurso único e pejorativo sobre a realidade do País. “Nos distinguiam como uma sociedade à beira das beiras, muitas vezes tomando por base as situações extremas e exageradas do nosso cotidiano” explica.

Procurando entender mais a fundo essa construção simbólica sobre o Brasil, Ulhôa passou a pesquisar o assunto. No doutorado, analisou a maneira como o entrelaçamento das imagens fotográficas com o texto atuavam na configuração das simbologias e dos discursos sobre o Brasil. Para tanto, analisou 65 livros didáticos franceses, cujo conjunto somou 445 imagens fotográficas que faziam referência ao Brasil. Para além desse material, entrevistou autores e editores de diferentes coleções didáticas. Como recorte temporal foram definidas as publicações editadas a partir da década de 90, incluindo aquelas que ainda estão em uso.

A investigação revelou verdades fragmentadas e simplificadas de um país tão vasto e complexo, como é o Brasil, apontando para uma ideia preconcebida “As imagens do Brasil são o produto ou o resultado das diferentes maneiras como os autores e editores dos livros didáticos franceses olham e formatam a nossa realidade”, conta o pesquisador. É por isso mesmo, diz, que as principais imagens do Brasil nos livros didáticos franceses destacam, de forma generalizada, que a violência, a delinquência e o roubo atingem a maior parte dos bairros das cidades brasileiras.Em outras formas de representação, enfatizam que as favelas são lugares pestilentos, verdadeiros esgotos a céu aberto, que formam um terreno propício para a propagação de epidemias.

“Tais descrições apocalípticas difundidas em torno das metrópoles brasileiras criaram e ainda continuam a criar uma impressão de “diabolização” de nossos centros urbanos, em razão do descontrole populacional, da ausência de planejamento.” Em suma, somos usados como uma das vitrines da exclusão socioeconômica do mundo, acomodada sob a lógica de uma visão verticalizada que reproduz as múltiplas facetas da desordem, do desprezível, do sujo e, ao mesmo tempo, do não civilizado e das “cidades selvagens”. “Subentende-se, então, que permanecemos à sombra de uma barbárie”, diz.Essa interpretação equivocada de nosso espaço geográfico tem raízes mais profundas. Ulhôa ressalta, primeiramente, que o livro didático se reveste de outras funções para além das práticas pedagógicas.

Isso significa que ele é um espaço privilegiado para a difusão de ideologias, assegurando o que é possível ser visto, dito ou disseminado. “Alimentadas, então, pelos aspectos excludentes e pejorativos, as imagens do Brasil cada vez mais parecem confirmar a sistematização de um pensamento eurocêntrico, uma vez que, constituídas pelas insuficiências das formas de vida, nos tratam como uma sociedade atrasada ou periférica.”Segundo o pesquisador, as imagens estereotipadas do Brasil também são resultado de uma idolatria que as tem transformado em mito. E o mito banaliza a realidade, uma vez que veicula os fatos considerados excepcionais, espetaculares ou caricaturais como se fossem representativos de toda uma sociedade, muitas vezes, destituídas de complexidade. “Isso nos impacta na medida em que o mito sobre uma cidade ou um país pode fornecer uma imagem deformada de sua realidade, criando uma homogeneização do espaço”, explica.

Além disso, as imagens produzidas em simulacro ao mito o tornam atemporal e acabam, por isso, dificultando a compreensão do espaço geográfico brasileiro, pelo fato de se continuar a reproduzir os pretéritos modelos de tempos atrás. Nesses termos, a imagem do passado nunca será ultrapassada. “O problema de tais representações do Brasil está no fato de, muitas vezes, apontarem para uma única direção, mostrando evidências fixas e imobilizadas – digo, ainda, mumificadas – da sociedade. Isso contribui para nutrir uma ideia unilateral sobre o conhecimento de nosso país.”

Mas, afinal, qual imagem do Brasil deve ser ensinada pelos livros didáticos estrangeiros já que somos, de fato, um país profundamente marcado pela desigualdade? “Faz-se necessário o domínio de uma metodologia que coloque a realidade à prova de sua representação. Isso supõe, óbvio, romper com a prática de uma visão autocentrada do mundo, acostumada com o estudo de certos países que são o reflexo de uma iconografia rudimentar, repleta de estereótipos e de visões caricaturais de inúmeros lugares”, responde o professor.

Em outras palavras, as imagens e retratos de países mundo afora não são indubitáveis e devem ser contestados. Do contrário, podem petrificar o olhar, tornando indistinguível a realidade, o sensacionalismo, o drama a e teatralidade. “É preciso encontrar novas perspectivas para o olhar, de tal modo que a realidade possa ser redimensionada em uma visão plural.” Por isso é impossível que uma imagem seja representativa de toda a realidade de um país, principalmente no caso do Brasil, dada a sua diversidade e extensão territorial. “Afinal, no discurso iconográfico, o que se vê e o que se diz sobre uma sociedade é apenas uma das possibilidades de sua interpretação. Existe, em toda imagem, outro lado”, conclui.