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Tecnologia assistiva

A tecnologia já está na sala de aula, mas precisa chegar a mais escolas e ir mais fundo nas possibilidades pedagógicas. Não se trata apenas de disponibilizar tablets, salas de informática ou livros digitais, mas de explorar como eles enriquecem o processo de ensino e aprendizagem para alunos e professores com deficiências motoras, auditivas, visuais e intelectuais.


A chamada tecnologia assistiva existe há cerca de 20 anos no Brasil, segundo o professor José Antônio Borges, do Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos principais centros nacionais de desenvolvimento de programas para promover acessibilidade em diversas áreas, incluindo a educação.

Um empecilho é que, como ocorre com outras inovações, novos programas demoram a chegar ao professor e ao aluno, seus destinatários finais. Acrescente-se a isso o desconhecimento de boa parte dos educadores sobre o que é a tecnologia assistiva e a inexistência, hoje, de um programa sistemático em larga escala para treinamento e introdução no Ensino Básico. O que existe, por ora, são promessas de uma iniciativa dessa natureza para os próximos anos, explica Borges.

Os cursos que são hoje oferecidos para capacitação dos docentes são de curta duração, a distância e com enfoque funcional, esclarece Mônica Pereira dos Santos, professora da UFRJ. Ou seja, não integram uma reeducação mais ampla da rede de ensino que ambicione eliminar a segregação. “Não basta o treinamento técnico, pragmático, que muitas vezes se dá por repetição. A inclusão não é questão puramente técnica, mas moral, ética e de direitos humanos”, ela alerta.

Outra agravante é que a rede pública não libera os professores para fazer cursos em horário normal, diz Eliane Cunha, da Fundação Dorina Nowill, que traduz para o braile o material pedagógico no estado de São Paulo. Assim, a educação continuada acaba representando horas de trabalho não pagas à noite ou em fins de semana. Talvez por isso, a oferta ainda é menor do que a demanda.

Mônica Santos ministra um desses cursos  a distância, ligado ao Observatório Nacional de Educação Especial. Segundo ela, os problemas começam na dificuldade de acesso dos professores a uma conexão de internet. “Acabo resolvendo muita coisa por telefone”, diz.  Além disso, não são muitas as escolas que investem na inclusão de profissionais com necessidades especiais, demanda que perde espaço diante de reivindicações não menos importantes.

O que há disponível  Um dos softwares mais antigos e populares para educação inclusiva é o Dosvox, desenvolvido por Borges no início da década de 1990 para alunos cegos ou com baixa visão da UFRJ que, na época, não tinham nenhum facilitador para interagir com colegas e professores.

Hoje, o Dosvox funciona como sistema integrado de leitura, edição de texto, acesso à internet e jogos online, simples e gratuito. Segundo Borges, o sistema foi pensado para ser acessível ao maior número de pessoas possível. Tafarel Roberto Brígido, que atua na EEF São Cristóvão, em Santa Catarina, concorda: “Qualquer um pode usar, mas poderia ter mais recursos”.

Para portadores de deficiência visual, outra ferramenta são os chamados leitores de tela, diz José Antônio Borges. Ele cita o Virtual Vision, desenvolvido no estado de São Paulo, cuja vantagem é o acesso a atividades mais amplas em programas como o Word e o Excel. Há também o Jaws, leitor de tela que ajuda em atividades profissionais sofisticadas, e o Braile Fácil, criado para dar suporte à impressão em braile.

Eliane Cunha, entretanto, ressalta que apesar de a inclusão digital de deficientes visuais e o uso de dispositivos nos Ensinos Fundamental II e Médio serem de extrema importância, a alfabetização precisa ser em braile para que o aluno cego tenha bom desenvolvimento cognitivo e psicomotor. “A informatização vem depois”, diz.

Teclado

Já para deficientes auditivos há poucas opções, diz Borges. No caso, o foco são dispositivos móveis, como tablets e smartphones, que têm possibilidades pedagógicas muito amplas e cuja exploração é política federal. Porém, as opções que dão conta da linguagem de libras estão em desenvolvimento.

O que há nas escolas são dicionários de libras, digitais ou em papel, como o Novo Deit-Libras: Dicionário Enciclopédico Ilustrado Trilíngue da Língua de Sinais Brasileira (Libras) Baseado em Linguística e Neurociências Cognitivas, do professor Fernando Capovilla, da Universidade de São Paulo.

Já para portadores de dificuldade motora grave, uma opção é o Motrix, que existe há sete anos e funciona a partir de comandos soletrados de fala. Por enquanto, porém, não existem programas de ditado a preços acessíveis ou gratuitos. Além disso, o sistema no Motrix ainda funciona só na língua inglesa, o que limita seu uso em sala de aula. Borges conta que está sendo feita nova versão em português utilizando tecnologia desenvolvida na Universidade Federal do Pará.

Há também sistemas de reconhecimento de fala para dispositivos móveis, ainda em fase de implantação, além do microFênix, criado também por Borges na UFRJ, que permite que pessoas com dificuldades de fala possam acessar menus por ruídos ou murmúrios.

Vale citar o Imago AnaVox e o Comunique, desenvolvido por Myriam Pelosi, terapeuta ocupacional, que pode ser baixado de graça. Os programas facilitam a comunicação de pessoas com deficiência motora grave ou com dificuldades cognitivas, porque funcionam a partir de símbolos simples. Como operam em prancha, são úteis na sala de aula e como material de apoio.

A professora Roseli Rainho, da Escola Municipal Dr. Cícero Pena, no Rio de Janeiro, descreve uma experiência com alunos autistas na escola, em Copacabana. Após identificar  “habilidades incríveis” daquelas crianças no manuseio do computador, ela resolveu usar a vantagem para acelerar o processo de alfabetização desses alunos

*Publicado originalmente em Carta Fundamental