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Carl Honore
O escritor e jornalista escocês Carl Honoré, expoente do movimento "Slow"

Ter menos compromisso e mais tempo para não fazer nada. Esse é um dos princípios que norteiam o Slow, movimento cultural surgido nos Estados Unidos que começa a ganhar o mundo contra a prática que entope a agenda das crianças com diversas atividades em busca do currículo perfeito. Seus porta-vozes defendem que saborear as horas, em vez de correr contra elas, pode resultar em conexões mais profundas com pessoas, ideias e tarefas.


Autor dos livros Devagar – Como um movimento mundial está desafiando o culto da velocidade e Sob Pressão – Criança nenhuma merece superpais (ambos publicados pela Record) e do recém-lançado The Slow Fix, ainda sem tradução no Brasil, Carl Honoré é um dos defensores da ideia de desacelerar as crianças.

Em entrevista por e-mail, o jornalista e escritor escocês radicado em Londres fala à Carta Educação sobre essa filosofia de vida que perpassa trabalho, alimentação, criação e educação dos filhos. Para quem pensa que a ideia é utópica, Honoré avisa: você não precisa deixar seu emprego, mudar-se para o campo e plantar cenouras orgânicas para ter uma vida mais devagar: “Os pais ‘lentos’ compreendem que a criação dos filhos não é um projeto, mas uma trajetória”.

Carta Educação: Dentro do contexto Slow, o senhor definiu o termo Slow Parenting. O que é isso e por que é tão importante que os pais desacelerem na criação dos filhos?

Carl Honoré: O Slow Parenting (pais sem pressa) tem a ver com trazer equilíbrio para o lar. As crianças precisam progredir, mas isso não significa que a infância deva ser uma corrida. Os “pais sem pressa” dão a seus filhos bastante tempo e espaço para explorar o mundo em seus próprios termos. Isso significa permitir-lhes descobrir quem eles são, em vez do que nós queremos que eles sejam. Significa aceitar que os tipos de aprendizado e experiência mais ricos muitas vezes não podem ser mensurados ou embalados em um currículo. Os pais sem pressa compreendem que a criação dos filhos não deve ser o desenvolvimento de um produto. Não é um projeto, é uma trajetória.

CE: Qual foi o ponto de partida que o fez repensar o modo como os pais estão criando seus filhos?

CH: Tudo começou em uma reunião de pais e professores. A avaliação do meu filho de 7 anos foi boa, mas a professora de Arte realmente atingiu o ponto. “Ele se destaca na classe”, afirmou. “Seu filho é um jovem artista muito dotado.” Naquela noite, eu percorri o Google procurando cursos de arte para incentivar o dom de meu filho. Visões de criar o próximo Picasso inundavam minha mente – até a manhã seguinte. “Eu não quero um professor, apenas quero desenhar”, declarou meu filho à mesa do café. “Por que os adultos sempre têm de tomar conta de tudo?” Meu filho adorava desenhar, mas de alguma forma isso não me bastava. Parte de mim queria controlar essa felicidade, cultivar e polir seu talento, transformar sua arte em uma conquista. E foi nesse momento que eu soube que tinha perdido o rumo como pai e que precisava mudar.

CE: O senhor acha que os pais estão mais preocupados em criar seus filhos para o mercado de trabalho do que para a vida?

CH: Definitivamente. Nós tratamos as crianças como projetos. E somos obcecados por construir o currículo perfeito. A terrível ironia é que, ao microadministrá-los, na verdade os tornamos menos capazes de prosperar no mercado de trabalho global. Como um país que luta para avançar economicamente, o Brasil talvez seja especialmente vulnerável a essa pressão. As pessoas não querem ficar para trás e por isso supõem que a única maneira de seus filhos prosperarem é ir cada vez mais depressa e fazer cada vez mais, cada vez mais o jovem. Nas famílias ricas brasileiras, isso se traduz em muita hipercriação.

CE: E quais são os prejuízos trazidos pela hipercriação?

CH: As crianças que são pressionadas a ser perfeitas podem acabar menos criativas. Elas não têm tempo ou espaço para explorar o mundo, assumir riscos e cometer erros. Elas não aprendem a pensar por si mesmas, apenas fazem o que lhes dizem. Não aprendem a olhar para dentro de si para decidir quem elas são, porque estão ocupadas demais, tentando ser o que nós queremos que elas sejam. E não aprendem a usar o tempo ou a preencher esse tempo por si sós – então se entediam com facilidade. As crianças que têm todos os momentos da vida microadministrados, organizados, supervisionados e agendados por adultos mais tarde acharão difícil caminhar com as próprias pernas.

CE:Como os pais podem evitar o excesso de cuidado com os filhos? Quais são os sinais de que o engajamento está passando dos limites?

CH: Deixe seus filhos lhe contarem como foi a escola hoje, em vez de pedir o relatório no momento em que eles entram pela porta. Um filho não é um projeto, um produto ou um troféu, ou um pedaço de argila que você pode moldar em uma obra de arte. Uma criança é uma pessoa que vai prosperar se lhe permitirem ser o protagonista de sua própria vida. Se seu filho é apaixonado por uma atividade, incentive-o a desenvolver esse talento. E para medir essa paixão você precisa observar seus filhos, escutá-los, ler os sinais que eles nos enviam com seu comportamento. Se um filho ou filha nunca fala sobre uma atividade que pratica, então talvez seja um sinal de que ele ou ela não está totalmente envolvido nela. Se uma criança dorme no carro a caminho das atividades, provavelmente está superagendada. Se você tiver de lutar e discutir para fazer a criança participar de uma atividade toda vez que ela vai, então talvez esteja na hora de parar.

CE: Na educação, temos escolas que pensam que a melhor maneira de criar bons alunos é forçá-los ao limite do aprendizado com exames e notas. Qual sua opinião sobre isso?

CH: Mais uma vez, ao aplicar nossas energias no lugar errado, acabamos prejudicando nossos filhos. Nós lhes damos um tipo de educação muito superficial, em que os professores cobram o material em vez de ensiná-lo. No novo cenário global, precisamos de pessoas inovadoras, de mentalidade ágil, capazes de pensar em várias disciplinas, mergulhar em um problema pelo mero prazer de apreciar o desafio. Fazer das notas de exames um fetiche encoraja os alunos a se ater ao currículo, a apresentar apenas respostas prontas, a marcar a caixa em vez de pensar fora dela. O verdadeiro aprendizado desafia os testes, as metas e os calendários. É fluido, imprevisível e extremamente difícil de mensurar. Boa parte do melhor aprendizado não pode ser reduzida a um número. Os professores devem usar os testes de maneira muito leve, para acompanhar o progresso dos alunos, mas não como um fim absoluto em si mesmos.

CE: Entretanto, os exames internacionais de educação como o Pisa mostram países que acreditam na pressão pelo sucesso acadêmico, como Coreia do Sul e China, no topo da lista.

CH: O Pisa não conta a história toda. Os exames são um instrumento cego. O que eles medem melhor é como você é bom em fazer exames, e qual é a utilidade disso? Os países do Oriente vêm modificando seus currículos e treinando seus alunos para que eles possam se sair melhor no Pisa. Sim, os alunos precisam trabalhar duro, mas os sistemas escolares punitivos, obcecados por resultados do Oriente não estão produzindo profissionais criativos, de pensamento livre. Pergunte a qualquer empregador da região e eles se queixarão de que esses jovens chegam com notas de exames incríveis, mas não são capazes de trabalhar em equipe, mostrar iniciativa ou ser criativos. Eles apenas querem que lhes digam o que devem fazer, o que é totalmente inútil no mundo moderno.

CE: Atualmente, que país apresenta um modelo educacional mais próximo do Slow?

CH: A Finlândia. Fora os exames finais no colégio, suas crianças não fazem exames padronizados. Certamente, os professores e as escolas usam testes para acompanhar o progresso dos alunos, mas se “matar” de estudar para os exames é tão estranho na Finlândia quanto uma onda de calor no inverno. Redações têm precedência sobre as notas até a escola secundária. A Finlândia treina bem seus professores, paga-lhes bons salários e então os deixa em paz para realizar a tarefa de ensinar.

CE: E como o senhor enxerga o Brasil dentro desse contexto?

CH: Ficou claro, em minha última visita, que os brasileiros também estão infectados pelo vírus da pressa e entrando na reação global contra ela. Em São Paulo, vi cartazes de publicidade de um banco com slogans que captam a filosofia Slow. Um deles dizia algo como “Quantas reuniões você teve esta semana? Quantas vezes você saiu com seus amigos?” Por outro lado, há muita “lentidão ruim” no Brasil. A burocracia é terrivelmente ineficiente, de modo que tarefas simples podem levar horas ou dias. Em todo o País você vê pessoas esperando em filas. A pobreza obriga milhões de brasileiros a viver na miséria da lentidão forçada.

CE: O senhor afirma que o Slow não é uma moda sobre a qual se lê no jornal de domingo e dois meses depois desaparece. Por que, na sua opinião, esse movimento veio para ficar?

CH: Acredito fortemente que alcançamos um ponto na história em que a mudança não apenas é necessária, mas inevitável. Nos últimos 150 anos, temos acelerado tudo. E durante a maior parte desse tempo a velocidade causou mais bem do que mal. Mas hoje ela está nos causando mais danos que benefícios – veja o que a pressa constante faz para nossas dietas, saúde, trabalho, relacionamentos, comunidades e o meio ambiente. A crise econômica dos últimos anos é um chamado de despertar, um lembrete de que o nosso modo de vida de avanço rápido é pernicioso e insustentável. A economia tinha tudo a ver com crescimento rápido, lucros rápidos e consumo rápido – e veja como ela quase nos levou a um apocalipse econômico. As pessoas começam a compreender que precisamos de uma mudança profunda no modo de dirigir nossas economias e sociedades, e no modo como convivemos.

CF: Como pai, que medidas o senhor adotou em sua casa para ter uma vida mais lenta?

CH: Antes eu sempre tentava fazer cada vez mais coisas em menos tempo. Agora me aproximo de cada coisa tentando fazê-la o melhor que posso, e não o mais rápido. Isso causou uma grande mudança no modo como vejo o tempo: não me sinto mais um escravo. Cortei as coisas que tentava enfiar na minha agenda para permitir mais tempo para descansar e me dedicar às coisas que são mais importantes para mim. Aprendi a dizer não para evitar ficar sobrecarregado. Assim, eu escolho os trabalhos que acho mais importantes para manter o equilíbrio na minha vida. Eu ainda quero que meus filhos sejam os melhores possíveis, mas isso não significa mais insistir na pressão. Sou um pai com um toque mais leve hoje. E meus filhos estão felizes e se saindo muito bem.