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Criança joga para alfabetização
Atividades lúdicas facilitam o domínio das relações letra-som

Em todas as culturas, a condição de ser criança está associada ao brincar. A defesa por uma educação que garanta aos pequenos o direito à ludicidade já se tornou bandeira de luta comum no País, de modo que muitos se preocupam com que, na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental, seja garantido às crianças o direito de, diariamente, brincar na escola.


Leia atividade didática para a Educação Infantil inspirada neste texto

Expectativas de aprendizagem: Reconhecer unidades fonológicas ou morfológicas como sílabas, rimas, prefixos ou desinências; Compreender o sistema de escrita alfabética grafando sílabas que contenham dígrafos e encontros consonantais

Fora dos materiais didáticos, outras brincadeiras ajudam a dominar as convenções letra-som

1) Adedonha, Stop ou Nome, lugar, animal

Tão conhecido de diferentes gerações, o jogo pode ser um bom aliado no ensino sistemático de determinada relação letra-som. Tal como no jogo original, cada participante vai escrever palavras (nomes próprios, nomes de objetos, de lugares, de animais, de frutas etc.) iniciadas com determinada letra. O primeiro a completar todas as colunas onde ficam as categorias de palavras deve gritar “parou” ou “stop”. Em nossa experiência, temos feito pequenas variações: além de organizar os participantes em dupla, o que promove a discussão e troca de conhecimentos, temos proposto desafios para que escrevam palavras que contenham dígrafos (como GU, QU, RR, SS, CH, LH, NH), ou criamos a regra de que a letra em foco precisa ter determinado som ou grafema (por exemplo, escrever palavras em que o C inicial tenha o som /k/ ou palavras que terminem com L).

2) Forca
É outro grande aliado para que as crianças pensem em diferentes estruturas silábicas que não a estrutura consoante-vogal, mais frequente nas palavras do português. Quando vemos que vários alunos têm dificuldade em escrever palavras com encontros consonantais ou em escrever as sequências silábicas vogal-consoante (põem “sepelho” em lugar de espelho ou “ragola” em lugar de argola), pode ser útil bolarmos um jogo em que cada equipe recebe fichas com palavras contendo aquelas sílabas e que foram previamente selecionadas por nós. Dividindo os alunos em dois grupos, em sua vez, cada equipe vai tentar adivinhar a palavra em foco, dizendo as letras que a compõem. Como no jogo de forca tradicional, vence quem menos vezes for “enforcado”.

3) Palavras cruzadas
Se queremos promover a aprendizagem de determinada correspondência letra-som, podemos lançar mão de cruzadinhas em que as palavras contêm determinada letra ou dígrafo. O fato de o número de casas já vir definido obriga os alunos a abrir mão de certas soluções de escrita e exercitar a forma correta (por exemplo, tendo que escrever guitarra com GUI em lugar de pôr apenas GI). Tal como nos jogos anteriores, no caso das cruzadinhas vence a dupla (ou indivíduo) que primeiro conseguir concluir a escrita de todas as palavras.

Considerando que o mesmo deve ser pensado para etapas menos iniciais da educação básica, temos buscado, já há algumas décadas, a ajuda de jogos variados, quando a tarefa docente é ensinar aos principiantes o sistema de escrita alfabética.

Desde os anos 1980, temos defendido que, ao lado dos jogos e brincadeiras que já fazem parte de nossa cultura popular, quando está em questão a alfabetização, precisamos lançar mão de jogos especiais.

Como temos lutado para abandonar os velhos métodos, que tratavam – e ainda tratam – o aprendizado da escrita alfabética como uma atividade mecânica e repetitiva, limitada à cópia e à memorização, temos buscado jogos que, numa direção contrária, ajudem as crianças a refletir.

Isso é, a aprender refletindo, compreendendo como nosso alfabeto funciona e se apropriando, de modo consciente, de suas convenções letra-som.

Nessa trajetória, temos visto que os jogos na alfabetização podem ser classificados em dois grupos. Por um lado, estão aqueles que se adequam, principalmente, para ajudar quem ainda está precisando compreender as propriedades do sistema alfabético.

Certos jogos fonológicos se prestam especialmente a essa finalidade: ao propor a reflexão sobre partes das palavras orais (sílabas, rimas e outros segmentos), juntamente com sua forma escrita, ajudam os principiantes a compreender que a escrita nota (registra) a pauta sonora das palavras que pronunciamos e não outras propriedades (como a forma, o tamanho ou a finalidade) dos objetos que elas denominam.

Se a criança já alcançou uma hipótese alfabética, isto é, se já compreendeu que as letras registram os pedaços sonoros das palavras menores que as sílabas orais, é hora de ajudá-la a consolidar as correspondências letra-som de nossa língua.

Nessa nova etapa, que não pode ser negligenciada, e que, desejavelmente, já deve ocorrer, de forma sistemática, para a quase totalidade dos alunos no segundo ano do Fundamental, é hora de lançarmos mão dos jogos na alfabetização, que envolvem a leitura e a escrita de palavras. Sem deixar de trabalhar diariamente com leitura (e/ou produção de textos), o recurso a jogos em que os aprendizes leem e escrevem palavras escolhidas, porque contêm determinada relação letra-som, é fundamental para que se tornem autônomos, leitores e produtores de textos.

A Caixa Jogos de Alfabetização, que o Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco produziu e cedeu para o MEC, e que, há pouco, chegou a escolas de todo o Brasil, contém bons exemplos desses jogos. Neles, para ajudar as crianças a pensar sobre as partes sonoras e escritas das palavras, temos proposto que brinquem de:

• Identificar palavras que têm “pedaços” (sílabas, rimas, fonemas iniciais) parecidos;
• Contar a quantidade de sílabas, para descobrir entre duas palavras qual a maior;
• Identificar a presença de palavras no interior de outras palavras.

O Caça-rimas, como o nome indica, propõe que os alfabetizandos emparelhem as figuras cujos nomes terminam de forma parecida.

Organizando a turma em até quatro equipes, distribuímos para cada grupo uma cartela com seis figuras cujos nomes terminam com determinadas rimas que estão presentes em 20 “fichas” (que são, na verdade, outras figuras cujos nomes contêm aquelas rimas).

Vence o jogo o grupo que primeiro parear as seis rimas possíveis. Com o mesmo espírito, fazemos também o Bingo dos sons iniciais, desafiando os aprendizes, agora, a pensar sobre “pedaços” (sílabas) iniciais das palavras que a mestra vai “cantando” ao longo do jogo.

Já no Palavra dentro de palavra, as crianças trabalham com cartelas contendo figuras cujos nomes, escritos abaixo, contêm outra palavra (por exemplo, tucano, casa), e figuras, em outras fichas, que trazem as palavras “contidas” (por exemplo, cano e asa).

Como o objetivo é promover a consciência de que uma sequência de sons que constitui uma palavra pode estar contida em outras, os participantes (2, 3 ou 4 jogadores ou grupos) recebem iguais quantidades de fichas com as palavras “grandes” e vão retirando, de um monte, as palavras “contidas” emborcadas.

Vence quem primeiro formar pares com todas as cartelas que recebeu. Em algumas ocasiões, criamos o desafio de descobrir mais palavras dentro das palavras grandes (por exemplo, tu e Tuca, dentro de tucano, ou cá, dentro de casa).

Sempre que possível, flexibilizamos os desafios quando fazemos essas brincadeiras especificamente com alunos que estão em diferentes níveis de compreensão da escrita. Também criamos variações nos repertórios de fichas dos jogos para que não percam o poder motivador por ter tornado-se fáceis demais, graças à memorização. Inspirados no clássico jogo de dominó (com peças equivalentes a 0, 1, 2, 3, 4, 5 e 6), criamos um Silabó e um Rimanó, nos quais os alunos trabalham com grupos de palavras que compartilham sete segmentos iniciais ou finais idênticos.

Como assumimos a necessidade de alfabetizar letrando, defendemos que as atividades de leitura e de produção de textos tenham um lugar cativo na sala de aula, todos os dias, de segunda a sexta. Mas, sabemos hoje, nossas crianças precisam desenvolver, tão cedo quanto possível, um bom automatismo no uso das correspondências letra-som.

Sem tal domínio, como poderão compreender com autonomia os textos que leem e como virão a escrever, sozinhas, pequenos textos, possíveis de ser lidos por aqueles com quem convivem? Os jogos aqui descritos, ao lado de outras atividades e situações didáticas, são recursos valiosos e motivadores para que, de forma autônoma, nossos alunos possam exercer práticas letradas.

*Artur Gomes de Morais é professor do Centro de Estudos em Educação e Linguagem da Universidade Federal de Pernambuco