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Menina em laboratório
As meninas tendem a escolher profissões já tradicionalmente consideradas femininas

A próxima geração de astronautas da Nasa, a agência espacial americana, será a mais inclusiva para as mulheres: metade da equipe será feminina. Christina Hammock, Nicole Mann, Anne McClain e Jessica Meir, duas pilotas da Força Aérea e duas cientistas, foram selecionadas em junho entre 6 mil candidatos e candidatas para participar do programa espacial.


A promoção da igualdade de gênero é um dos oito grandes objetivos do milênio estabelecidos pelas Nações Unidas. Na Nasa, os esforços para uma maior equidade de gênero também passa por programas específicos, cujo objetivo é atrair mais meninas para carreiras nas áreas de ciência e tecnologia.

Relatório da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos (OCDE) publicado no ano passado sobre as ambições educacionais de estudantes de 15 anos revela que metade das meninas desta faixa etária no Brasil gostaria de seguir carreiras científicas.

Apesar dos avanços, porém, as meninas ainda são minoria nessas carreiras e tendem a escolher profissões já tradicionalmente consideradas femininas, em geral ligadas à saúde, cuidados e serviços, deixando áreas como engenharia e computação como territórios majoritariamente masculinos. Nos cursos de engenharia da Escola Politécnica da USP, por exemplo, os homens correspondem a 71% dos inscritos no vestibular de 2013. Carreiras como física e matemática também concentram mais inscrições masculinas, 72% do total.

A divisão continua mesmo dentro do campo das ciências. Segundo o último levantamento do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o número de cientistas mulheres já é praticamente igual ao de homens no Brasil. Em 2010, dos 128 mil pesquisadores cadastrados na base de dados utilizada, 49,6% eram mulheres.

As cientistas predominam, porém, em áreas das ciências humanas (59%) e sociais (55%), enquanto as ciências exatas são dominadas pelos homens (64%), principalmente, as engenharias e a computação (66%).

Aluna em laboratório

“Isso não é um fenômeno brasileiro, é mundial. As meninas escolhem carreiras que conhecem, e a socialização delas não é feita nesse sentido”, explica Hildete Pereira de Melo, economista e coordenadora do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Gênero da Universidade Federal Fluminense (UFF). Citando dados colhidos na Olímpiada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), Hildete explica que, até certa idade, o desempenho em Matemática das meninas participantes é igual ou até mesmo superior aos meninos.

A virada no desempenho nas áreas de Exatas acontece por volta da puberdade, quando há perda de interesse por essas disciplinas. “As meninas vão bem no Ensino Fundamental, mas somem do quadro de medalhas quando avançam pelo Ensino Médio”, conta ela, que também é assessora na Secretaria de Políticas para Mulheres da Presidência da República.

Parte da explicação para o fenômeno está na própria educação e nas expectativas da sociedade com relação ao papel da mulher. “Um dos impedimentos é a educação não igualitária de meninos e meninas. O fato de as meninas receberem bonecas e os meninos jogos já cria expectativas futuras”, analisa Nanci Stancki da Luz, matemática e coordenadora do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Relações de Gênero e Tecnologia na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UFTPR).

Principalmente pela atuação da escola e da família, as meninas tendem a se considerar como mais aptas a desempenhar determinadas atividades, como, por exemplo, a leitura em detrimento ao cálculo, e a partir daí traçam estratégias de vida mais compatíveis com o que consideram (ou são levadas a considerar) como mais adequadas para elas. Outro problema é a aparente invisibilidade das mulheres cientistas: poucos nomes são conhecidos do grande público e, em geral, a presença feminina na história da ciência acaba em segundo plano.

Diante do quadro, algumas ações afirmativas tentam atrair mais mulheres para as carreiras científicas. Parte do programa Women in Nasa (Mulheres na Nasa), o site Aspire 2 Inspire pretende apresentar para meninas em idade escolar algumas das oportunidades de carreira existentes nos campos de Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática, por meio de depoimentos sobre a vida e a carreira de jovens pesquisadoras da agência espacial americana. Além de assistir aos vídeos com depoimentos, o projeto encoraja as meninas a interagirem com as pesquisadoras por meio do próprio site e do Twitter.

No Brasil, o projeto da UFTPR Emílias – Armações em Bits também busca divulgar a área de computação para alunas de escolas públicas de Curitiba e atrair mais mulheres para os cursos de graduação na área. “Há dois lados positivos: para as meninas, descobrir um mundo a ser explorado dentro das ciências exatas. Já para a computação, a entrada de minorias representa um ganho enorme, pois a ciência deixa de trabalhar com questões majoritariamente masculinas”, conta Marília Amaral, professora do curso de Sistemas de Informação da UTFPR envolvida com o projeto.

Em março, a Embaixada dos Estados Unidos selecionou 90 meninas da rede pública de todo o Brasil, cujo desempenho em disciplinas de Exatas tenha se destacado, para participar do programa Science Camp For Girls. Durante uma semana, as alunas do Ensino Médio participaram de palestras e oficinas em Brasília e em Manaus e conheceram o cotidiano de pesquisadoras do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).

Boa aluna na área de Exatas, Juliana de Carvalho, 17 anos, foi uma das selecionadas para o evento, que terminou no Dia Internacional da Mulher. “Percebi que as mulheres estão crescendo muito nessas áreas, não só os homens. Isso despertou a curiosidade em todas as meninas”, conta a aluna do terceiro ano do Ensino Médio da Escola Estadual Alberto Conte, em São Paulo.

No campo da política pública, está em estudo um projeto da Secretaria de Políticas para Mulheres que pretende oferecer bolsas de estudos para que estudantes do sexo feminino desenvolvam projetos de pesquisa nas áreas de exatas ao longo do Ensino Médio. A ideia é, outra vez, oferecer um estímulo para que as meninas participem cada vez mais do mundo das ciências.

*Publicado originalmente em Carta na Escola