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Meninas mexendo no computador

Como atrair as meninas para as carreiras tecnológicas? A aposta do projeto de pesquisa Android Smart Girls, desenvolvido pelo grupo Mulheres na Engenharia (Women in Engineering – WIE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), é usar uma ferramenta cada vez mais popular e familiar entre os jovens, independentemente do gênero: os smartphones.


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O objetivo é apresentar a alunas do Ensino Médio a lógica de programação e algoritmos de forma prazerosa por meio do desenvolvimento de aplicativos. “A ideia é oferecer um contato inicial com a área e não criar exímias programadoras para, quem sabe, fazê-las se interessar por essas carreiras”, explica Juliana Freitag Borin, professora do Instituto de Computação (IC) da Unicamp e coordenadora do projeto.

Desde março, dez alunas do 1° ao 3° ano da Escola Estadual Hilton Federici, em Campinas (SP), participam do projeto piloto, um dos comtemplados pelo edital Petrobras – Meninas e Jovens Fazendo Ciências Exatas, Engenharias e Computação, lançado em outubro de 2013. As estudantes puderam se candidatar para o projeto após uma palestra sobre a iniciativa feita na escola. “No dia da apresentação, 40 meninas fizeram a pré-inscrição, mas como o curso é à noite e precisava da autorização dos pais, esse número acabou caindo posteriormente.”

O projeto está dividido em duas fases. A primeira, ocorrida entre março e­ junho, contou com aulas semanais de computação, com duração de duas horas e meia, ministradas por voluntários de diversas empresas de tecnologia da região como IBM, Samsung e Movile e da própria Unicamp. O curso também as ensinou a operar o MIT App Inventor, uma ferramenta para criação de aplicativos de interface simples e intuitiva. “O programa não exige nenhum conhecimento prévio de programação. Você cria o app a partir da junção de blocos, como se fosse um quebra-cabeça. Claro, não é uma ferramenta que vai ser utilizada nas empresas da indústria, mas é um primeiro contato que serve para desmitificar a dificuldade”, explica Juliana.

Na segunda fase do programa, que acontece entre julho ­e dezembro, as meninas formarão três equipes para desenvolver aplicativos de tema livre. Cada grupo terá duas mentoras – mulheres que já atuam na área de Tecnologia, na indústria ou na universidade, e que orientarão todo o processo. “No final, haverá uma competição com a escolha do melhor aplicativo. Se a gente tiver apps bem legais, a ideia é submetê-los a competições internacionais também”, diz a coordenadora.

Bianca Bosso de Medeiros, de 16 anos, é uma das meninas que participam da iniciativa. Para a estudante do 2° ano, o contato com a informática vem sendo não só interessante, como também surpreendente. “É muito diferente do que eu esperava, mas no bom sentido. Quando mexia em um aplicativo no meu celular, não imaginava como ele funcionava ou como era feito. Agora, já consigo entender a lógica que o programador usou para fazer isso ou aquilo”, conta.

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Essa conexão entre o curso e o cotidiano é a parte mais enriquecedora para Veridiana Gonzaga de Oliveira, de 17 anos, também aluna do 2° ano. “É meu primeiro contato com programação e estou achando muito legal. Sempre gostei de mexer no celular, então saber como os aplicativos que uso são feitos e ainda ter a chance de fazer igual me interessa muito. É uma coisa que eu não imaginava fazer na vida e, hoje, tornou-se uma das atividades de que mais gosto”, diz. A estudante também destaca o fato de o curso ter como base professores e alunas voluntárias como um aspecto positivo. “Tudo está funcionando de uma maneira muito boa, porque você vê que aquelas pessoas estão ali porque querem, porque escolheram trocar seu tempo de descanso pelas aulas.”

A principal empresa apoiadora do Android Smart Girls é a Samsung, que, além de professores voluntários para as aulas, contribui com a doação dos equipamentos (smartphones e tablets) e vai reformar dois espaços da escola, transformando um depósito em sala de vídeo e ampliando a sala de leitura.

Para Bruno Rondinella, supervisor de Cidadania Corporativa da empresa, a importância do projeto está no diálogo que estabelece entre as carreiras de engenharia e computação e as jovens. “Existe uma carência grande de mão de obra nessas áreas. Mas, mais do que a questão do estereótipo masculino dessas carreiras, há uma falta de conhecimento das possibilidades e oportunidades que existem dentro dessas profissões, do que elas podem fazer ali dentro”, diz.

Juliana Borin destaca ainda a importância de incluir as garotas nessa linguagem, já que a computação está presente em toda e qualquer área do conhecimento, da medicina à educação. “Se não tivermos mulheres atuando nessa área, estaremos tirando a participação de 50% da população da criação da Tecnologia. Além disso, pesquisas mostram que, quanto maior a diversidade das equipes, não só de gênero, mas também de culturas e outros aspectos, mais criativas elas são, pois exploram um número maior de ideias, de possibilidades”.

Hoje, a presença nos cursos de ciência da computação espalhados pelo Brasil é predominantemente masculina. De acordo com o Censo de Educação Superior de 2011, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), cerca de 85% das matrículas nessa graduação são feitas por homens, colocando-a como o sexto curso de Ensino Superior do País com maior participação masculina. A pesquisa ainda revela que as mulheres representam apenas 5,1% dos estudantes das áreas de engenharia e 3,7% das áreas de física e matemática.

Entre as causas do desinteresse feminino por essas áreas está a perpetuação de noções estereotipadas sobre as carreiras e vocações de cada gênero. “Na computação, imagina-se que a pessoa vai ficar sozinha o dia inteiro em frente a um computador, sem interagir com ninguém, ou que é um trabalho que não tem impacto social, características que as meninas prezam. Além disso, há esse discurso falso de que elas não são tão boas em Matemática”, explica Juliana Borin, da Unicamp. Os meninos, porém, são incentivados, desde a infância, por meio dos brinquedos, a construir coisas novas.

Também contribuem para o cenário as atividades elaboradas pelas instituições de ensino, a fim de atrair os jovens para os cursos de computação e engenharia: a criação de jogos e guerras de robôs, estratégias pouco eficazes quando se trata de conquistar o engajamento e o interesse feminino.