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O novo modelo está sacudindo o Ensino Superior desde 2012

Para muitos, a revolução digital no Ensino Superior já começou. Apenas com um computador conectado à internet (e domínio razoável do inglês) é possível participar de uma aula compartilhada por milhares alunos do mundo todo, ministrada por professores de universidades de ponta, como Stanford, Harvard ou Yale. Chamados de MOOCs ou “cursos online abertos para massas”, em tradução literal, essa nova forma de ensino é desenhada para atender milhares de estudantes simultaneamente, usando em parte estratégias emprestadas de redes sociais.


O novo modelo está sacudindo o Ensino Superior desde 2012, quando os MOOCs se popularizaram nos EUA e rapidamente se espalharam para o resto do mundo. Agora, universidades brasileiras apostam no formato, ao mesmo tempo que surgem dúvidas sobre a capacidade dos cursos online de reter, avaliar e motivar seus alunos.

A Universidade Estadual de San José suspendeu, apenas seis meses após o lançamento, os MOOCs desenvolvidos em parceria com a plataforma Udacity. Por uma pequena taxa, a universidade norte-americana ofereceria cinco cursos abertos com certificação por meio da plataforma. O motivo alegado para a suspensão da iniciativa foi a alta taxa de reprovação dos estudantes: de 56% a 76% em cursos de Estatística, Álgebra, Matemática, Introdução à programação e introdução à Psicologia.

Os motivos para as reprovações (acima da média dos alunos dos cursos presenciais) ainda não são claros, mas podem estar relacionados com a falta de experiência universitária ou de tempo disponível para os alunos se dedicarem às aulas. No entanto, o fundador da Udacity, Sebastian Thrun, declarou que 83% dos estudantes matriculados permaneceram nos cursos até o fim, ante os 15%, em geral, observados em cursos online gratuitos.

Apesar de reconhecer que os MOOCs são uma forma interessante de acesso à Educação Superior, o pesquisador de tecnologias educacionais da Universidade Harvard, Chris Dede, acredita que o interesse por cursos online continuará crescendo apenas se eles forem substituídos por um sistema de ensino mais sofisticado, capaz de oferecer mais interação e personalização. “Os MOOCs são um modelo de primeira geração com muitas fraquezas. Ainda vai levar alguns anos para entender como aumentar a retenção e o sucesso em experiências massivas de educação em que há um número pequeno de especialistas”, contou, por e-mail.

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A ascensão das MOOCs foi meteórica. Criada em abril de 2011 por uma dupla de professores da Universidade de Stanford, a primeira plataforma do tipo passou a operar formalmente em abril de 2012. Em julho deste ano, o Coursera ultrapassou a marca de 4,3 milhões de alunos, oriundos de 220 diferentes países. Ao lado do edX e da Udacity, o Coursera faz parte do primeiro escalão de plataformas de cursos abertos online capazes de atingir grande número de estudantes. Apesar de a maioria dos cursos exigirem proficiência em língua inglesa, os países emergentes correspondem a 40% da audiência dos MOOCs. O Brasil já corresponde a 5% dos usuários do Coursera, atrás apenas dos EUA (27%) e da Índia (9%).

No caso do Coursera, o convênio com 84 universidades renomadas de 17 países ajuda a explicar o entusiasmo dos estudantes. Fazem parte do escopo do Coursera instituições como Stanford, Yale e Princeton, além de universidades localizadas em outros países, como a Universidade de Tel-Aviv (Israel), Copenhague (Dinamarca) e de Tóquio (Japão).

Em 2013, a empresa passou a adotar um modelo híbrido: as aulas livres e abertas a todos continuam, mas há a opção de cursos com certificação, batizados de Signature Tracks. No novo modelo, interessados pagam por um sistema monitorado digitalmente, capaz de comprovar a identidade e as atividades feitas pelo aluno. Até o fim de junho, a empresa já havia arrecadado 600 mil dólares com o novo sistema.

O pagamento e a certificação também ajudaram a aumentar a taxa de retenção dos cursos: cerca de 90% dos estudantes que optam pelos Signature Tracks concluem os cursos. Além da certificação, os próximos passos do Coursera envolvem o aperfeiçoamento da parte pedagógica e a expansão das opções de plataforma para celulares e tablets, o que pode atrair ainda mais alunos de países emergentes, que nem sempre dispõem de  acesso à internet.

Recentemente, universidades brasileiras começaram a disponibilizar cursos online no formato. Primeira plataforma do gênero no Brasil, o Veduca oferece três cursos com certificação: Física Básica e Probabilidade Estatística, da USP, e Bioenergética, da UnB. Os cursos continuam gratuitos e é possível não apenas assistir às aulas, mas também resolver testes e participar de uma prova final (presencial), a fim de obter certificação emitida pelo professor da disciplina.

Os cursos não têm data final para acabar – cada aluno pode fazê-lo em seu próprio ritmo – mas há uma expectativa de conclusão entre três e seis meses. Até o momento, os cursos já receberam 22 mil matrículas. Para o criador do Veduca, Carlos Souza, a maior personalização do ensino online é a estratégia para reduzir a evasão e estimular o engajamento dos estudantes nos MOOCs. “Em toda revolução existe uma fase de aprendizado, para testar novos modelos e aprender. Estamos nessa fase.”

Veterana em cursos online – a instituição oferece educação a distância há oito anos – a Unesp inaugurou em junho um curso piloto sobre o software educativo Moodle, inicialmente apenas para professores e alunos da universidade. Com atividades, avaliação por tutores e certificação, as 500 vagas disponíveis foram preenchidas em poucos dias. Coordenador do Núcleo de Educação a Distância da Unesp, o professor  Klaus Schlünzen Junior vê nos MOOCs um cenário otimista. “Estamos vivendo uma fase em que o papel da instituição  é, além de oferecer o conhecimento, ofertá-lo de forma aberta para todos. Isso muda o papel da universidade”, afirma.