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O aluno Guilherme de Souza
Guilherme de Souza, 19, aluno da primeira turma da Minerva

O gaúcho Guilherme de Souza, 19 anos, e o paulista Danilo Vaz, de 20, podem orgulhar-se da aprovação em um dos processos seletivos mais difíceis do mundo. Os dois são os únicos brasileiros no seleto grupo de alunos da recém-criada Universidade Minerva, projeto surgido nos Estados Unidos e elaborado por pesquisadores de diversas áreas, com foco especial na psicologia do aprendizado no Ensino Superior.Esqueça totalmente o método tradicional em sala de aula.


As aulas acontecem dentro dos próprios dormitórios dos estudantes, por meio de uma plataforma digital desenvolvida para a universidade. Nela, os alunos e o professor conectam-se e discutem, pela manhã, um tema já lido previamente durante três horas e meia. A partir daí desenvolvem discussões, debates e atividades, o que exige total atenção por parte dos alunos, avaliados pela sua participação e desempenho nos debates, já que tudo é gravado e as provas de fim de semestre não existem.“No começo era difícil, tinha de estudar mais, responder a perguntas o tempo inteiro e estar atento 100% do tempo” relembra Guilherme sobre seu primeiro semestre. Apesar do susto inicial, ele teve um ótimo desempenho e, após terminar seu primeiro ano, foi escolhido para revisar o conteúdo de Ciências Sociais.

A nova instituição de ensino rompe radicalmente com o ensino formal universitário, a começar pelo próprio campus. Ao contrário de suas conterrâneas, como Harvard e Princeton, não existe um espaço específico para as atividades de ensino – o campus da Minerva é a própria cidade. Depois de os alunos cursarem o primeiro ano em São Francisco, sede da universidade, eles passam a estudar cada semestre em uma cidade diferente do mundo (como Buenos Aires, Berlim e Istambul). “A única coisa de concreto que a Minerva tem é o apartamento onde os estudantes dormem.

Todas as demais atividades são realizadas na própria cidade” explica Alex Aberg Cobo, diretor-executivo da Minerva na América Latina. Para ele, a inexistência de um campus físico permite a redução de custo para os alunos (o valor anual da Minerva é de 10 mil dólares, abaixo das demais universidades americanas) e também que os estudantes conheçam na prática diversas realidades mundiais e aprendam a trabalhar com elas. São realizadas parcerias com instituições e governos de cada cidade para que os alunos da Minerva possam estagiar no local e conhecê-lo.

No primeiro ano são oferecidas quatro matérias obrigatórias: Artes e Humanidades, Negócios, Ciências Sociais e Ciências Computacionais, e, a partir do segundo ano, os alunos aprofundam em cada área, sem deixar de dialogar com as demais. “Quase todas as esferas sociais se alteraram no século XXI, mas a educação, não”, problematiza Alex Cobo. “A Minerva é a universidade do século XXI, desenvolve nos alunos o pensamento crítico, a criatividade e a comunicação efetiva, além de uma visão global e interdisciplinar”, ferramentas, para ele, fundamentais para que se formem lideranças empreendedoras e criativas, com visão global. “O aluno é ativo na sua aprendizagem e provocado a pensar o tempo inteiro” conta Guilherme. “Aqui os alunos também se ensinam.”

O aluno buscado pela Minerva é, de acordo com Cobo, o “aluno bom”. Este “aluno bom” pode estar em qualquer lugar do mundo, não possuindo nacionalidade nem classe social específica – 75% dos estudantes da Minerva são de outra nacionalidade que não a norte-americana.

Apesar das trajetórias escolares distintas, os brasileiros Guilherme e Danilo compartilham o título de bons alunos. Além da dedicação aos estudos, Guilherme foi presidente do grêmio estudantil em sua escola. Danilo cursou o Ensino Fundamental na rede pública e foi premiado com a bolsa Ismart (entidade que concede bolsas para que estudantes de baixa renda entre 12 e 14 anos estudem em colégios particulares de excelência) para todo o seu Ensino Médio. Apesar das dificuldades, manteve-se entre os três melhores da classe.

A falta de integração com os professores, a passividade no processo de aprendizado e a pouca interação com o mundo real foram algumas das críticas que levaram esses dois a desistirem de seus cursos universitários (Economia na UFRGS e Engenharia mecânica na Unesp, respectivamente). No entanto, os dois encontraram a saída para suas angústias na Minerva. Guilherme já está indo para o segundo ano e Danilo iniciará seus estudos na instituição em setembro.

O processo seletivo é, talvez, o mais seletivo do mundo, com apenas 2% dos inscritos aprovados (a título de comparação, em outras universidades americanas, como Harvard e Princeton, esse número flutua entre 5% e 7%). É constituído de quatro etapas, todas virtuais e que buscam conhecer o aluno em todas as suas facetas. A primeira é um cadastro, a segunda provas de Matemática, Lógica e Inglês, a terceira um conhecimento do histórico escolar do aluno (no qual se incluem atividades extra curriculares também) e, por fim, uma entrevista individual.

Danilo ainda não iniciou os estudos na Minerva, mas ganhou experiência com o teste de ingresso. “Da primeira vez não fui selecionado, não estava preparado o suficiente. Na segunda vez, com mais bagagem e tranquilidade, consegui a vaga”, conta. Devido à condição financeira, ele acha possível que consiga uma bolsa. “Primeiro somos analisados por nossas habilidades, a condição financeira é a última parte analisada” afirma.

Para Guilherme, o teste foi mais tranquilo e, segundo ele próprio, “dedutivo”. Os dois, graças ao papel ativo do aluno e o forte diálogo entre as disciplinas, fizeram mudanças em seus projetos de vida. “Sempre fui muito interessado em Exatas, mas, depois que descobri a Minerva, passei a me interessar mais por Psicologia Comportamental”, conta Danilo. Por sua vez, Guilherme aperfeiçoou seu interesse por Economia e pelas Ciências Exatas depois de conhecer Filosofia das Ciências no curso.

O projeto, no entanto, ainda é recente. A primeira turma (da qual Guilherme fez parte) iniciou as aulas no segundo semestre de 2014. Danilo, por sua vez, está indo para a segunda turma. “Pretendemos incluir ainda mais cidades na Minerva”, afirma Cobo. “O Brasil, em poucos anos, possivelmente terá uma de suas cidades como campus”, completa.