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Duas páginas para cada livro de história. Essa é a média de conteúdo dedicado ao estudo da África no Brasil, um país onde mais de 50% da população é negra e cuja cultura foi totalmente influenciada pela africana. “Negar a África é negar mais da metade da nossa história e focar em apenas uma versão”, critica Flora Pereira, diretora e idealizadora do projeto Afreaka, fundado com o intuito de descortinar o continente para o Brasil, fugindo dos estereótipos negativos como fome, pobreza e passividade.


O mais recente empenho nesse sentido é o lançamento das publicações Afreaka: África sem estereótipos, que serão distribuído gratuitamente em 1800 escolas públicas de 240 cidades de São Paulo. Com conteúdo apurado in loco em 15 países africanos, a coleção cria diálogos entre a cultura brasileira e as produções culturais da África contemporânea, apresentando um continente protagonista e sócio-culturalmente ativo.

Na entrevista abaixo, Flora fala sobre as principais generalizações feitas sobre o continente e seus prejuízos, as razões que levam a escola a ignorar o tema, entre outros pontos que ajudam a enxergar a África muito além dos clichês preconcebidos e empobrecidos.

Carta Educação: Quais as principais generalizações acerca da África? Podemos falar do continente como algo unitário sabendo da diversidade de povos e manifestações culturais que o povoam?

Flora Pereira:
Para começar, podemos falar dos estereótipos das grandes mídias: pobreza, fome, guerra, safaris. Mas as generalizações não param por aí. Quando iniciamos o Projeto Afreaka, em 2012, saímos pelas ruas de três cidades de São Paulo e Minas Gerais perguntando “o que é África para você?”. Perigo, batuque, batida, cores, tristeza, tradições foram algumas das respostas que recebemos. Há ainda um grande desconhecimento sobre o continente no Brasil. Além do estereótipo negativo, também há uma romantização de uma África tradicional, parada no tempo. O objetivo do Afreaka é preencher essa lacuna de informação e revelar as Áfricas inspiradoras, contemporâneas, fora dos estereótipos. E isso inclui tecnologia, sustentabilidade, inovação, arte contemporânea. E falamos ‘Áfricas’, pois é impossível falar de uma África só. Este é, inclusive, um dos grandes estereótipos sobre o continente. A generalização de uma coisa única – o que acaba por desvalorizar toda a diversidade do continente. Essa generalização, inclusive, acentua o preconceito. Quando a televisão noticia um atentado na Nigéria ou um conflito no Sudão, associa-se esses fatos a todo resto do continente, desconsiderando que são 54 países. Claro que conflitos ou pobreza existe, mas é preciso entender que são locais e situações específicas, assim como é no Brasil, na Europa e em todo o resto do mundo.

CE: Na escola, faz-se a distinção entre as chamadas África Negra e África Branca. Essa divisão é válida?

FP: É uma divisão que não se aplica na prática. Geograficamente, utiliza-se o deserto do Saara para essa separação. No entanto, é impossível colocar essa linha nítida na população e nas respectivas etnias pertencentes aos países da chamada “África Branca”. Ainda, essa denominação, para mim, é uma reprodução da nossa educação colonial e racista. Qual é, na história ensinada no ocidente, a primeira grande civilização? A egípcia. Como forma de negar a contribuição negra para o mundo, há séculos, há um embranquecimento desta população nas mídias e literatura e uma forçada insistência de separar a África nessa dicotomia, para assim, tentar ‘justificar’ a existência de uma civilização tão desenvolvida quanto a egípcia, que tanto proporcionou para os nossos saberes atuais. Os livros escolares, no entanto, pouco falam sobre a região onde surge a esta população: a região dos Grandes Lagos, nas nascentes do Rio Nilo, o coração da chamada ‘África Negra’ de acordo com essa divisão. Assim, essa distinção é contraditória, tanto se olharmos para o passado quanto para o presente. Falar de uma África árabe, por exemplo, para justificar essa divisão, também não faz sentido. A religião e cultura islâmica estão presentes em muitos países abaixo do Saara. A História Africana é milenar, com grandes migrações, é impossível traduzir a diversidade e complexidade do continente nessa divisão dicotômica.

CE: O pouco conteúdo e tempo dedicado ao continente na escola relaciona-se ao racismo?

FP: Sim, mas vai ainda além. Vivemos ainda em estruturas sociais coloniais – que têm o racismo em sua base – onde olhamos para o conquistador com admiração e com desprezo ou indiferença para às sociedades irmãs e mesmo para o próprio Brasil. Na escola, a História do país começa com a chegada dos portugueses. Respiramos uma educação, mídia e instituições culturais eurocêntricas. Mal sabemos das grandes sociedades latino-americanas pré-colombianas, de suas contribuições e conexões com o Brasil. Pouco aprendemos sobre conhecimentos indígenas, as centenas de sociedades que aqui viveram e vivem. O mesmo vale para África. Duas páginas para cada livro de história. Essa é a média em um país com mais de 50% da população negra e quase 100% influenciado pela cultura africana. Assim, consome-se cultura, mídia, produtos do norte do mundo e pouca atenção se dá para as conexões sul-sul, que possuem regiões e países muito mais parecidos, seja econômica, social ou culturalmente, com o Brasil. Precisamos refletir sobre nossas origens e nossas conexões contemporâneas para nos entendermos como latino-americanos e para, então, entendermos quem somos enquanto brasileiros, quais culturas nos formaram. Negar a África é negar mais da metade da nossa história e focar em apenas uma versão.

CE: Outro ponto criticado é que é sempre dado maior destaque aos elementos negativos, como guerras civis, choques étnicos, miséria, Aids. São elementos presentes em parte do continente, mas que devem ser contextualizados?

FP: É errado dizer que esses elementos estão presente em grande parte do continente. Não estão. Estão em alguns pontos apenas. São pequenos focos em um continente de 1 bilhão de pessoas e 54 países. Muito desses são enormes e o que acontece em uma região do país, muitas vezes, não é vivida por outra. Por exemplo, estávamos na Nigéria quando o Boko Haram iniciou uma série de ataques no país, em 2014. Só que estávamos em Lagos, que fica ao sul, e o Boko Haram estava atuando no norte. Víamos jornais brasileiros noticiando os ataques e passando a impressão de que estavam acontecendo em todo país, em todo continente. Nossas famílias e amigos nos contatavam desesperados. No entanto, a vida em Lagos continuava completamente a mesma. Essa ideia da África é uma das pós-verdades que vivemos nos dias atuais, ou seja, algo tão reproduzido e tão disseminado que damos imediatamente por verdade, mesmo conhecendo muito pouco sobre a realidade que estamos reproduzindo. A grande maioria dos países não vive nenhuma situação de guerra ou choque étnico. E na grande maioria a pobreza que existe é a mesma que existe no Brasil. Nos 15 países que viajamos, por exemplo, não vimos miséria. Vimos apenas, em alguns deles, pobreza urbana, como em muitas periferias de São Paulo e Rio de Janeiro. As realidades entre as duas entidades geográficas são muito mais parecidas do que imaginamos.

CE: Quais são algumas das principais influências africanas na cultura brasileira?

FP: As culturas africanas são as principais responsáveis pela formação dos aspectos que caracterizam hoje o povo brasileiro. Durante quase 400 anos de escravidão, cerca de seis milhões de africanos de países como Nigéria, Angola, Camarões e Gana, desembarcaram de maneira forçada do lado de cá do Atlântico trazendo com si saberes, características gastronômicas, linguísticas e físicas que marcaram o modo de ser das gerações subsequentes. Aqui, a África vive. No português falado pelo brasileiro são mais de 1500 palavras de origem africana, sendo 300 usadas diariamente em nossas cidades. Quicongo, umbundo, quimbundo e outras 200 línguas africanas que deságuam no Brasil influenciam para além do dicionário, contribuindo também na morfologia, sintaxe e pronúncia da nossa língua atual. Na gastronomia, a presença africana é marcante e está no sabor da feijoada, baião de dois, acarajé, cuscuz, angu, mas também nos temperos secretos, nas receitas particulares, nos hábitos gastronômicos e nos pequenos detalhes dos costumes cotidianos na cozinha dos cidadãos brasileiros. Ao pensar em música, sabemos que o legado de África está no samba criado na casa das tias baianas radicadas no Rio de Janeiro, nos tambores que sustentam o Carnaval, no frevo que desce as ruas de Olinda e no berimbau, estrela maior da capoeira. Mas está também além. Está na melodia da MPB, nas notas improvisadas do jazz nacional e até mesmo em nossas criações no rock.

CE: Atualmente, senegaleses, camaroneses, moçambicanos e congoleses compõem a população de São Paulo. Entretanto, tais povos muitas vezes permanecem na invisibilidade.

FP: O problema começa no próprio conceito de fronteira. Refugiados e imigrantes são termos que existem pela criação de fronteiras fictícias. A sociedade define o que está dentro de suas bordas e segrega o que é exterior. Assim refugiados e imigrantes são marginalizados já nos significados dos termos. Na vida prática, é pior. Além da invisibilidade, as condições de vida para a maioria estão abaixo do necessário. Além das estruturas básicas, faltam também programas de inserção, programas de intercâmbios culturais e promoções de atividades artísticas, sociais e econômicas. As entidades da área, que atuam em São Paulo, têm se esforçado e conseguido muitos avanços. No entanto, a demanda é muito maior do que o alcance, verba e leis permitem. Acredito que, enquanto sociedade civil ou terceiro setor, também podemos contribuir e valorizar a importância da presença dessas pessoas como um fortalecimento da sociedade brasileira. Pensar eventos e atividades que visibilizem essas populações e não apenas os incluam, mas onde o espaço de fala e de decisão sejam deles. O desenvolvimento endógeno é sempre mais efetivo. Ao invés de nós de fora dizermos o que é necessário ou não, podemos começar pelo diálogo, entendendo qual é a demanda e quais eles acreditam ser as melhores soluções. Para que, então, dessa conversam surjam projetos.

CE: Como ficou a implementação da Lei 10.639/03, que obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas, após a reforma curricular?

FP: Diferentes colegas e amigos que não são da área me perguntaram se, com a reforma, a obrigatoriedade do ensino de História da África havia sido cancelada. Não foi. Acontece que na descrição da Lei, há um risco em cima da Lei 10.639, o que confunde quem não é da área. A Lei 10.639 foi atualizada pela lei 11.645, em 2008, incluindo os estudos de culturas indígenas. No entanto, com a reforma, e os retrocessos que ela implica, o cenário para esta lei fica instável e existe um receio grande de mudanças e do fim da obrigatoriedade. No entanto, mesmo com a lei, ainda falta e muito a implementação da mesma. Por mais que os esforços se multiplicaram, sobretudo dentro dos movimentos sociais, ainda faltam materiais didáticos e, sobretudo, a formação de professores no assunto. A proposta da publicação de maneira impressa vem, em primeira medida, como uma resposta à carência de material, sobretudo de conteúdo imagético de impacto e por isso facilmente atrativo para os alunos, que não se encontra facilmente nas redes de ensino, sejam públicas ou privadas.

CE: Qual a importância de estudar o continente e estabelecer diálogos entre a cultura brasileira e as suas produções culturais contemporâneas?

FP: Trazer a produção cultural contemporânea de diferentes países da África, em toda a sua riqueza e diversidade, e colocá-la em diálogo com o que aqui no Brasil se produz é uma forma de sensibilizar o público e promover a conexão entre o país e o continente, fazendo da educação curricular e extracurricular um espaço de trocas de heranças culturais e artísticas e promovendo o resgate de nossa identidade e uma nova proposta de formação da juventude no Brasil. Ainda, trazer para o Brasil imagens das Áfricas inspiradoras, as maneiras de se viver das sociedades africanas hoje, as maneiras de criar e de lutar, é um desafio. Isso porque hoje essas imagens da África são quase absentes do universo das imagens. Nós não as vemos. A África não está inclusa quando vamos citar exemplos positivos no Brasil. Assim, a proposta é permitir trazer para mais perto as Áfricas ao Brasil, mostrando uma terra de grandes civilizações, grandes culturas e um lugar que continua a produzir

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Jornalista formada pela PUC-SP e bacharel em Letras pela USP. Já trabalhou no site da revista Crescer e escreve sobre educação desde 2013.