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Mia Couto
A leitura das obras de grandes escritores africanos pode significar a reaproximação dos alunos com as culturas desse continente de modo rico e interessante

Não há relação de dependência entre os domínios da História e da Literatura. A obra literária é autônoma e não se reduz ao mero “reflexo da realidade”, apesar de ser construída a partir da tensão com o real.


Por isso, o que se aprende sobre história e cultura pela via das narrativas literárias se dá antes pela experiência pulsante da vida do que pelo aspecto temático ou histórico em si. Vale ressaltar que isso não é pouca coisa.

A experiência da vida  é possível a partir da coerência interna que o bom escritor consegue criar, e pela articulação entre os vários elementos que compõem, por exemplo, um romance.

Portanto, para que seja bem-sucedida a leitura do texto literário não se pode prescindir dos instrumentos  capazes de alcançar o âmbito do simbólico e do imaginário no trabalho com a linguagem, sem os quais a literatura não existe.

Tais instrumentos têm faltado, de modo geral, nas escolas brasileiras.  Entre eles está justamente a persistência de um ensino calcado em períodos históricos e em características de época, sem dar a devida ênfase à especificidade da construção artística do autor em cada uma de suas obras.

Durante a aula, o estudo do modo como o autor trabalha a linguagem em seu fazer literário é substituído por um olhar que homogeneíza  as obras de determinada época e local.

A partir desse ponto de vista, a inclusão de obras literárias africanas nas salas de aula dos ensinos Fundamental e Médio pode e deve se dar de modo mais fluido.

Naguib Mahfouz
O escritor egípcio Naguib Mahfouz

O método de leitura é o mesmo: priorizam-se os aspectos do trabalho com a linguagem que configuram a obra literária e, a partir daí, são percorridos os caminhos do conhecimento da história e da cultura que dão contexto à obra.

Estamos culturalmente unidos ao continente africano por razões históricas. No entanto, séculos de atraso econômico, resultado de exploração e de políticas inadequadas, forçaram uma tentativa de esquecimento e anulação dessa herança. Retomá-la é fundamental para o conhecimento de nós mesmos.

Mas não se trata de instrumentalizar o texto literário apenas como mote para o ensino das demais disciplinas, por exemplo, a História. Nesse processo de retomada do que une a África e o Brasil é importante buscar a história vertida, transformada em literatura, e não somente a representação de temas históricos pela literatura.

A Lei nº 10.639/2003, que no ano passado completou dez anos, tem por objetivo corrigir o desvio eurocêntrico que anos de colonização e branqueamento cultural causaram em nosso olhar.  O estudo da literatura feita no continente africano é um meio genuíno e importante para se alcançar este fim, inclusive porque é capaz de abarcar toda a complexidade e ambiguidade da vida.

Conhecer a multiplicidade da sociedade e da cultura africana a partir da leitura de textos literários em língua portuguesa é a grande descoberta que ocorre ao tomarmos contato com a literatura de autores como o moçambicano Mia Couto, ou os angolanos Pepetela e Ondjaki.

A África é um continente formado por culturas diversas e que permanece desconhecida entre nós, apesar das tantas semelhanças que nos unem. A leitura das obras de grandes escritores africanos pode significar a reaproximação dos alunos com as culturas desse continente de modo rico e interessante.

Dez obras fundamentais  para conhecer ou se aprofundar na literatura africana

Autor: Mia Couto (Moçambique)
Terra Sonâmbula
Narra a trajetória iniciática do menino Muidinga, auxiliado pelo mais velho Tuahir, em meio à devastação da guerra civil pós-independência em Moçambique. Duas narrativas se entrecruzam nesse romance: a peregrinação de Muidinga e Tuahir em direção ao mar; e a composição dos cadernos de Kindzu, diário encontrado nos escombros da guerra pelo menino Muidinga, cuja leitura devolve humanidade e esperança às duas personagens em meio a tantas privações. O traço cultural moçambicano e o elemento social e histórico é transposto pela linguagem poética de Mia Couto.

Estórias Abensonhadas
Os contos podem ser uma boa iniciação à literatura africana. Nesse livro, eles foram escritos depois da guerra e, conforme o autor, “surgiram entre as margens da mágoa e da esperança”. Em cada uma das 26 histórias é possível notar o traço inventivo e original da linguagem de Couto. Aspectos da tradição oral africana recebem relevo na obra desse premiado autor.

Autor: Pepetela (Angola)
Mayombe
Escrito quando Pepetela participava como guerrilheiro na guerra de libertação de Angola, o autor constrói uma estrutura narrativa complexa e trabalhada pela alternância de vozes a relatar os fatos. O leitor tem acesso, assim, a diferentes pontos de vista a respeito da organização do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) a partir do contato com os combatentes em plena guerrilha, no interior da floresta que dá nome ao romance.

A Sul. O sombreiro
Trabalho mais recente de Pepetela, é ambientado em Angola nos séculos XVI e XVII, portanto, no início da 
colo­nização portuguesa naquele país. O núcleo narrativo desdobra-se novamente. Desta feita, Pepetela dá voz a três narradores que se revesam no intuito de contar a história dos primórdios do que viria a ser a Angola atual.

Autor: Ondjaki (Angola)
A Bicicleta Que Tinha Bigodes
É um romance infantojuvenil do jovem autor. Ambientado em Luanda, o livro tem como enredo a busca de três crianças por uma boa história que seja uma forte concorrente em um concurso de redação cujo prêmio, muito desejado, é uma bicicleta. As personagens adultas, como o tio Rui, que tem bigodes mágicos, acompanham a busca das crianças e compartilham a vida cotidiana da rua no bairro simples da cidade de Luanda.

Bom Dia Camaradas
A temática da infância é novamente trabalhada em Bom Dia Camaradas, publicado em 2003. Desta feita o desafio do autor é narrar o momento histórico da independência de Angola pelo olhar da criança. Nascido em 1977, dois anos após a independência, Ondjaki maneja elementos da história e suas memórias infantis para construir o romance.

Autor: Naguib Mahfouz (Egito)
O Ladrão e os Cães
Escritor egípcio, Nobel de Literatura em 1988, Mahfouz publicou O Ladrão e os Cães em 1961. O romance mistura suspense, fábula moral e alegoria política. A história de Said, presidiário que acaba de ser libertado, é ambientada no Cairo e narrada, alternativamente, em terceira e em primeira pessoa para dar vazão aos monólogos interiores de Said.

Noites das Mil e Uma Noites
Tradição e modernidade atualizam a vida de Xerazade, grande contadora de histórias do mundo árabe. O romance começa onde termina o clássico As Mil e Uma Noites. Ao estabelecer esse diálogo, Mahfouz rompe as expectativas ocidentais em torno da descrição de uma cultura exótica e insere elementos sobre suas expectativas em relação à literatura, cultura e  história.

Autor: Nadine Gordimer (África do Sul)
A Arma da Casa
A obra publicada em 1998 traz a história de assassinato cometido por um filho da elite branca sul-africana e os desdobramentos morais e legais desse ato. Aspectos do preconceito racial e social da sociedade pátria de Nelson Mandela são trabalhados pela autora para questionar a presença da violência e da culpa na África do Sul pós-apartheid.

Beethoven era 1/16 negro
Ganhadora do Prêmio 
Nobel de Literatura em 1991, a autora utiliza como base para suas histórias o contexto histórico de uma sociedade dividida pelo apartheid e as consequências morais e psicológicas dessa divisão.

*Ludmylla Mendes Lima é professora da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia 
Afro-brasileira (Unilab)

*Publicado originalmente em Carta na Escola