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Chamamos de lixo aquilo que não nos tem mais serventia, e, portanto, pode ser descartado. A diversidade do que é descartado diariamente é imensa, desde plásticos variados, pneus, sofás (parece que todo mundo troca de sofá diariamente…), revistas e papéis diversos, embalagens de vidro, plástico, metal e restos de alimentos até equipamentos eletrônicos considerados obsoletos. Mas será que o que é descartado não tem mais serventia mesmo?


Entre as diversas soluções possíveis para a questão do lixo está a sua utilização para a geração de energia. O lixo pode ser um ótimo combustível para criar energia, que pode ser empregada para produzir eletricidade, impulsionar máquinas industriais e até mesmo em automóveis. Alguns países, como Alemanha, Holanda e Noruega, já utilizam a queima do lixo na geração de energia para aquecimento das casas e até para iluminação. Nesse tipo de usina, também conhecida como Usina de Recuperação Energética (URE), os resíduos que não podem ser reciclados, por não haver tecnologia disponível ou por demandarem custos muito altos para isso, são incinerados em altíssimas temperaturas – mais de 800 graus.

Neles são instalados filtros para que não sejam liberados gases tóxicos. O calor gerado com a queima, por meio de vapor, gira turbinas que vão produzir energia elétrica ou aquecer a água que é distribuída pelas casas. São basicamente duas as rotas tecnológicas empregadas para alcançar esse objetivo: a queima direta dos resíduos ou a queima do biogás produzido a partir da decomposição da matéria orgânica do lixo.

Existem hoje no mundo aproximadamente 1,5 mil usinas térmicas que queimam o lixo para gerar energia ou calor. O Japão, alguns países da Europa, a China e os EUA lideram o ranking. No Brasil, não há térmicas com esse perfil em operação, embora alguns municípios estejam bastante interessados no assunto. Uma das vantagens é a redução do lixo queimado a aproximadamente 12% de seu tamanho original em cinzas que podem ser usadas como base de asfalto ou como matéria-prima para a construção civil.

O Brasil produz perto de 198 mil toneladas por dia de resíduos, mas estima-se que apenas 41% têm destinação inadequada. Se o País usasse o lixo para produzir energia, poderíamos gerar eletricidade para 1,5 milhão de brasileiros.

lixao

De acordo com as características, o lixo pode ter alto potencial para gerar calor, como plásticos e papelões, e, assim, ser queimado nas URE e gerar eletricidade. O resíduo composto de mais matéria orgânica, como restos de alimentos e plantas, naturalmente se decompõe e, durante esse processo, libera gases que, uma vez queimados, também podem gerar energia elétrica. No Brasil, a composição do lixo é em sua maior parte de matéria orgânica, o que o torna mais úmido, mas já existe tecnologia que permite que o lixo orgânico também seja utilizado no abastecimento de URE.

Outra forma de aproveitar os gases provenientes da decomposição da matéria orgânica é transformá-los em metano puro, usado para abastecer carros. Na Noruega, por exemplo, o lixo já é usado para produzir combustível para os ônibus de transporte público. Isso poderia diminuir em 15%, o uso de diesel, e em 25%, o de gasolina no Brasil. Esse tipo de energia é chamado de biogás.

O biogás é resultado da fermentação anaeróbica (em ausência de oxigênio ou de ar) da biomassa por bactérias. Isso significa que a matéria orgânica (resíduos agrícolas, madeira, bagaço de cana-de-açúcar, esterco, cascas de frutas e restos animais e vegetais) sofre degradação por bactérias, produzindo o biogás. Existem algumas vantagens da produção e utilização do biogás para geração de energia. Primeiro, o biogás é renovável, pois é proveniente de uma forma de reutilização da matéria orgânica, uma fonte de fácil obtenção e gerado constantemente. Além disso, contribui de maneira importante para a redução das emissões de gases de efeito estufa, já que esses estão sendo queimados para produzir energia em vez de serem liberados para a atmosfera.

Finalmente, tem vantagens econômicas, já que permite a obtenção de energia térmica e elétrica a baixo custo. O Aterro Bandeirantes, na região metropolitana de São Paulo, tem um sistema de geração de energia a partir da coleta do biogás oriundo da decomposição da matéria orgânica.

As soluções para a questão do lixo só serão implantadas com sucesso se houver o envolvimento da população. Há atitudes que devem começar dentro de casa, no trabalho e na escola: cobrar das prefeituras a destinação correta, separar o lixo em locais adequados para enviá-lo às usinas de reciclagem e evitar o consumo e a compra de produtos que geram embalagens além do necessário, entre outras.

Ainda é fundamental, porém, reduzirmos a quantidade de lixo produzido. O consumo e a produção de lixo são altíssimos. São Paulo, por exemplo, a maior cidade brasileira, com aproximadamente 10 milhões de habitantes, gera em média 18 mil toneladas de lixo diariamente (residencial, de saúde, restos de feiras, podas de árvores, entulho etc.). Só de resíduos domiciliares são coletados quase 10 mil toneladas por dia, segundo a prefeitura de São Paulo.

Não podemos esquecer que muitos materiais demoram centenas de anos para se decompor. Soluções mais elaboradas, como a produção de energia, são muito importantes, mas não devem ser consideradas isoladamente. Por um lado, são maneiras de dar um novo valor ao que foi descartado e gerar alternativas para reduzir o aquecimento global utilizando menos combustíveis fósseis.

Contudo, é importante que a possibilidade de transformação em energia não seja um motivo para incentivar a maior produção de resíduos. A participação da população é fundamental para a implantação das mudanças necessárias para que se aproveite ao máximo todo o valor do lixo.

Como funciona uma usina 
de incineração

A. 
O lixo segue para centros de reciclagem, onde dá origem a novos produtos feitos dos mesmos materiais. O restante poderá ser incinerado.

B. 
O lixo possui bastante água e elementos combustíveis, como carbono e oxigênio. Graças a essa composição, consegue gerar muito calor se submetido a altas temperaturas. Para que isso aconteça, a sujeira vai para um incinerador.

C. 
Dentro do incinerador, o lixo é aquecido a mais de 800 graus. As altíssimas temperaturas matam bactérias da sujeira e fazem o lixo entrar em combustão, liberando ainda mais calor. O fogaréu da queima vai aquecer as chamadas serpentinas, tubulações cheias de água que ficam em volta do incinerador.

D. 
Na serpentina, a água aquecida se transforma em vapor d’água, que segue para um compartimento onde está uma turbina. Por ocupar mais espaço que a água líquida e por estar submetido a grande pressão, o vapor faz as pás da turbina girarem rapidamente.

E. 
Além do calor que aquece a água, a queima do lixo gera fuligem e gases tóxicos que podem causar problemas de saúde. Por isso, antes de ser liberada para a atmosfera, essa mistura perigosa atravessa filtros e depuradores, que retêm as substâncias nocivas ao ambiente.

F. 
Depois de passar por um conversor, a energia do movimento da turbina é transformada em eletricidade e distribuída pela rede elétrica. Nos EUA, uma usina que processa 1,5 mil toneladas de lixo por dia — 10% do total produzido na cidade de São Paulo — gera 55 megawatts de energia, o suficiente para abastecer até 40 mil casas.

G. 
O final da queima ainda apresenta um último resíduo: cerca de 10% do lixo incinerado permanece em estado sólido, na forma de cinzas. Se o material tiver substâncias tóxicas, ele precisa ser descartado em aterros que impeçam a contaminação do ambiente. Porém, se ele não for perigoso, as cinzas podem ser usadas como substituto da terra na compactação do piso de ruas e estradas que vão receber asfalto.