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Representatividade brinquedos
Na linha 'Barbie Fashionista', bonecas altas, baixinhas e curvilíneas

Cerca de 50 quilos perfeitamente distribuídos por 1,72 metros de altura. Uma silhueta escultural: 91 centímetros de busto, 45 de cintura e 83 de quadril. Se a Barbie fosse uma mulher de carne e osso, estas seriam suas medidas, o que resultaria em um Índice de Massa Corporal (IMC) no valor de 16,24, agrupando-a entre as pessoas com suspeita de anorexia.


É preciso ainda acrescentar: segundo o último IBGE, a altura e peso médio da mulher brasileira, com idade entre 20 e 24 anos, são respectivamente 1,61 m e 57,8 kg. Não é surpreendente, pois, que a boneca e o padrão de beleza irreal que ela dissemina sejam há décadas alvo de uma avalanche de críticas.

A fabricante do brinquedo Mattel, no entanto, parece tê-las finalmente ouvido. No mês passado, começou a chegar às lojas brasileiras uma nova linha batizada de Barbie Fashionista, que traz as bonecas em diferentes biótipos. Os modelos variam entre Tall (alta), Curvy (curvilínea) e Petite (pequena) e trazem maior diversidade de tons de pele, formatos de rosto, cor dos olhos e cortes, cores e tamanhos de cabelo. Ponto para a Barbie!

Antes desse feito, em 2014, uma boneca chamava a atenção do mundo ao ganhar o rótulo de “Barbie normal”. Morena, sem maquiagem, de estatura mediana, cintura, braços e pernas mais grossas, Lammily foi desenhada pelo americano Nickolay Lamm usando como referência as características de uma típica americana de 19 anos. Mais: dava a possibilidade de colar adesivos de espinhas, cicatrizes, tatuagens e marcas de estrias e celulite. Não demorou muito para cair nas graças do público.

A história de Lammily começou quando Lamm estava à procura de uma boneca para presentear sua sobrinha e constatou que todas elas tinham exatamente o mesmo corpo. “Eu sabia dos problemas de imagem corporal relacionados à Barbie e não conseguia pensar numa razão lógica para não existir uma boneca com proporções realistas”, conta.

Lamm decidiu então iniciar uma campanha de financiamento coletivo para colocar o projeto de pé. “Foi assim que a Lammily nasceu. Acho que ela se tornou realmente popular porque supre uma necessidade que estava aí. Além disso, em termos de design, não só fazemos bonecas com proporções realistas, mas tudo o que podemos para que elas sejam o mais identificáveis e amigáveis possíveis”, explica.

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De proporções mais realistas, a boneca Lammily também permite colar adesivos com espinhas, estrias e cicatrizes

Sobre o rótulo de “Barbie normal”, o designer faz ressalvas: “é um jeito fácil de descrevê-la, mas ao mesmo tempo não acho que poderá haver nunca uma “boneca normal” porque no mundo real nós temos diferentes formatos, tamanhos, etc. Não há padrão”.

Mas, afinal, qual a importância de a criança reconhecer a si mesma ou as pessoas de seu entorno em um brinquedo? Primeiro é preciso dizer que, para elas, as bonecas são uma representação de si mesmas. Ao mesmo tempo em que as crianças se projetam em suas bonecas, elas dão a elas diferentes papéis, o que é muito positivo para o desenvolvimento das competências socioemocionais, explica Marilena Flores Martins, presidente da IPA Brasil (Associação Brasileira pelo Direto de Brincar). Por meio da imaginação, elas simulam emoções, situações, comportamentos.

“Falo aqui de meninas e meninos, pois não vejo nenhum problema em que os meninos também brinquem com as bonecas. Afinal eles irão relacionar-se com pessoas do gênero feminino por toda a sua vida e é importante até que se coloquem no lugar delas, para desenvolver a empatia e o respeito”, acrescenta.

Podemos afirmar ainda que a possibilidade de brincar com bonecas que representam a diversidade favorece atitudes mais inclusivas e a aceitação das diferenças desde a primeira infância. “Quando a criança sente que aquela boneca obedece um padrão estético que ela não atende pode sentir-se desvalorizada, o que não contribui em nada para a sua autoestima e para a aceitação das diferenças”.

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A boneca Lammily busca representar diferentes etnias

Para Maria Angela Carneiro, professora da Faculdade de Educação da PUC-SP e conselheira da Associação Brasileira de Brinquedotecas, a falta de bonecas étnicas no mercado, por exemplo, demonstra a exclusão de determinadas etnias, classes sociais, portadores de deficiências, entre outros grupos na sociedade.

“O fato de as crianças terem bonecas de diversas etnias ou biótipos contribuem para o processo de representação simbólica em que há uma maior identificação do sujeito com o objeto, favorecendo sua inserção na sociedade e na cultura”, diz.

Outro aspecto que merece destaque dentro da discussão da diversidade dentro do universo dos brinquedos é a segmentação por gênero que geralmente faz-se entre brinquedos ou brincadeiras. É comum, por exemplo, encontrarmos cozinhas em miniatura apenas em cor-de-rosa e jogos de engenharia e mecânica destinados apenas ao público masculino.

Marilena lembra que as crianças não fazem distinção entre brinquedos para meninas ou meninos. Quando isso acontece, estão muito provavelmente repetindo os preconceitos dos adultos.

Maria Angela concorda. Para ela, tal segmentação evidencia a morosidade do mercado de brinquedos de assimilar as transformações sociais. “A sociedade se transformou e, com ela, os papéis sociais. No entanto, ainda se insiste em manter cores de brinquedos relacionadas ao gênero das crianças. Isso mostra a necessidade de refletirmos sobre a segmentação na fabricação dos brinquedos e, até mesmo, na realização das brincadeiras”.

Apesar dos visíveis avanços do mercado de brinquedos rumo a uma maior diversidade, ainda são muitas as limitações. Para Marilena, no Brasil, os modelos tradicionais de bonecos obedecem muito aos padrões europeus ou norte-americanos, sem refletir a realidade da população brasileira. “Temos, por exemplo, um grande número de orientais, principalmente em São Paulo, e você não vê no mercado bonecas com essas características. O mesmo acontece com os indígenas e afrodescendentes, além das bonecas com deficiência”.

Os efeitos da globalização sobre os brinquedos também é alvo de ressalvas de Maria Angela. Isso é, se por um lado o fato de hoje encontrarmos o que se vende nos Estados Unidos e na Europa no Brasil trouxe modelos mais sofisticados, por outro perdemos um pouco em diversidade. “Brinquedos regionais quase inexistem”, aponta.

Para Lamm, estamos caminhando rumo a uma maior diversidade nos brinquedos, mas ao mesmo tempo há aqueles que veem essa tendência apenas como mais uma oportunidade de mercado a ser explorada. “Há empresas por aí que usam a diversidade como uma campanha de marketing em vez de construir verdadeiramente seu negócio sobre esse pilar”, critica.