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Dia Mundial do Meio Ambiente
Na maioria dos casos, o assunto fica a cargo dos docentes de Ciências pela compatibilidade com o tema.

A escassez de água em São Paulo, a enchente histórica no Acre, o desmatamento da Amazônia e da Mata Atlântica, a extinção de espécies. Basta um rápido olhar pelo noticiário para constatar a magnitude dos problemas ambientais que o mundo e o Brasil, mais especificamente, enfrentam como consequência do uso ilimitado e irresponsável dos recursos naturais.


Se hoje a necessidade de preservar o meio ambiente é pauta da agenda internacional e discussão unânime dentro da sociedade, trata-se do fruto de um movimento de conscientização e de implementações de políticas públicas relativamente recente. Foi somente a partir de 1972, ano da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, Suécia, que os países começaram a criar órgãos ambientais e leis para regulamentar a intervenção humana sobre a natureza.

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O tema ainda demoraria mais algumas décadas para chegar às salas de aula. No Brasil, a instituição da Política Nacional de Educação Ambiental data de 1999. Com a lei, o meio ambiente passou a ser um tema transversal obrigatório dos currículos escolares, pensado para ser abordado de forma interdisciplinar e contínua.

Entretanto, apesar de difundida, a Educação Ambiental ainda enfrenta desafios. Os principais deles referentes à qualificação dos professores que, muitas vezes, não recebem treinamento adequado para abordar o tema em suas disciplinas, além da própria ausência de um projeto pedagógico consolidado para dar conta da tarefa.

Apesar do Ministério da Educação promover cursos à distância sobre o tema, o direcionamento dado à questão fica quase sempre a critério dos interesses e do empenho das instituições e dos próprios professores. Na maioria dos casos, o assunto fica a cargo dos docentes de Ciências pela compatibilidade com o tema ou limitado a projetos esporádicos realizados ao longo do ano.

“Embora a gente tenha um conjunto grande de pesquisas sobre Educação Ambiental, pouco disso está sistematizado de forma a compor um panorama do que, de fato, se passa nas escolas”, diz Luiz Marcelo de Carvalho, professor do Instituto de Biociências da Unesp de Rio Claro e coordenador do grupo de pesquisas Temática Ambiental em Processo Educativo.

Este quadro, segundo o professor, é bastante diverso. Há desde ações mais pontuais, determinadas por alguma data comemorativa como Dia Mundial do Meio Ambiente, até escolas que arriscam uma disciplina na grade curricular. “Agora, uma perspectiva que me parece mais concreta, eficiente, é o desenvolvimento do tema por meio de projetos, o que é interessante porque permite uma multiplicidade de experiências e vivências a partir de diferentes áreas curriculares que dá uma compreensão muito mais ampla da questão”, coloca.

Para Elza Neffa, professora da Faculdade de Educação e coordenadora do Núcleo de Referência em Educação Ambiental da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, o maior problema enfrentado pelos educadores refere-se à dificuldade de entender esta interdisciplinaridade e de aplicá-la no cotidiano da sala de aula. “O campo ambiental é um objeto transdisciplinar e, como tal, apresenta temas e problemas que se expressam em distintas esferas de interação, em múltiplos níveis de realidade. Nesse sentido, entendemos que uma disciplina isolada não dá conta de explicar a complexidade da realidade socioambiental”, aponta.

Esse tratamento holístico do tema, porém, esbarra na formação docente. “A verdade é que, a maior parte dos professores, na época em que saíram da universidade, não teve essa formação de olhar para o meio ambiente de uma maneira integrada. E isso é essencial. Não adianta olhar o tema de forma segmentada, onde entra em Química, Geografia. Tem que, desde cedo com os alunos, analisar o cenário como um todo”, aponta Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP. “Mas para isso seria necessário olhar com cuidado para os currículos das licenciaturas e ver como a educação ambiental está presente”, acrescenta o professor Artaxo.

Outro agravante está na própria estrutura das escolas, acostumadas a funcionar de modo disciplinar e nem sempre favorecendo a articulação entre os professores especialistas. É o que aponta Sonia Marina Muhringer, coordenadora da área de sustentabilidade da Escola Viva, situada em São Paulo.

“Assuntos e forma de abordar a Educação Ambiental não faltam. Sequências didáticas nas diferentes disciplinas, rodas de leitura e de conversa, ciclos de filmes e discussões, diagnósticos locais, projetos de intervenção no espaço. Mas acredito que a questão principal é como criar uma maior afinidade entre os professores com o tema, especialmente entre os especialistas que não são formados em áreas afins”, coloca.

Para Genebaldo Freire Dias, doutor em Ecologia e autor dos livros Dinâmicas e Instrumentação para a Educação Ambiental e Educação Ambiental – Princípios e práticas, as oportunidades restritas de atualização também contribuem para que o tratamento do tema seja superficial. “Percebo, no contato com os professores, que as suas práticas de Educação Ambiental, de forma geral, estacionaram no lixo, na reciclagem, na coleta seletiva, na horta e na economia de energia elétrica e água. Ou seja, em apenas elementos de gestão ambiental”, conta.

Sonia aponta ainda a importância de envolver a comunidade escolar como um todo nos projetos. “A prática cotidiana da escola é uma forma eficiente de ensinar os valores implicados na Educação Ambiental e de fornecer bons modelos para os estudantes. Talvez esse seja o aspecto mais difícil da transversalidade na escola, implicar sua gestão em modelos mais compatíveis com a sustentabilidade”, finaliza a coordenadora.