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Lixão
Cerca de 40% dos resíduos acabam nos lixões no Brasil

Pergunte para várias crianças: para onde vai o lixo? Uma boa parte delas responderá: o lixeiro leva!


Isso resume bem o que a maioria da população sabe sobre o destino de seus resíduos. Afinal de contas, essa resposta pode também ser bastante frequente, embora um pouco mais elaborada, também entre adultos.

O pior é que ela exprime um sentimento: a única coisa que a população quer acerca de seus próprios rejeitos é distância.

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Alguns adultos responderiam: o lixeiro coloca num caminhão e o caminhão vai para um aterro sanitário. Essa resposta, porém, pode não estar certa, pois depende de como a sua cidade trata a questão.

Leia atividade didática de Ciências e leve este tema para a sala de aula

Anos do Ciclo:
5º e 6º

Área: Ciências

Possibilidade Interdisciplinar: Geografia

Duração: 8 a 10 aulas

Objetivos de aprendizagem: Distinguir as diferenças entre os locais de destino dos resíduos urbanos, identificar os tipos de coleta de lixo e como a percebemos na cidade e apontar opções de redução ou reaproveitamento

 

Se tiver oportunidade, leve os alunos a um aterro sanitário, a um controlado ou a um lixão. Em todo o caso, faça com eles um trabalho “sujo”: peça ajuda ao pessoal da limpeza e colete resíduos gerados num dia na escola.

Com os alunos maiores, separe-os em plásticos, metais, vidros, restos de comida, lixo de jardim, lixo de banheiro e papéis. Logicamente, essa separação deve ser feita em local adequado, com todos os participantes com máscaras e luvas, bem como evitando-se cortes.

Avalie com a classe as possibilidades de reciclagem e pese os resíduos separados. Após dividir sacos e sacolas plásticas, faça atividade visando o estudo da reciclagem. Num local adequado e com a devida proteção, lave com cuidado os materiais, de preferência após retalhá-los com uma tesoura.

Depois de bem limpos, deixe esses materiais num lugar coberto e protegido do vento, para que não seja perdido nenhum pedaço. Quando estiverem bem secos, pese novamente. A diferença entre a massa antes e depois da lavagem é o quanto de sujeira foi transferido para a água.

Faça o mesmo experimento com sacos e sacolas plásticas obtidos de uma cooperativa de catadores e compare os resultados: é comum que sacos e sacolas de coleta comum apresentem até 50% do peso na forma de impurezas, índice que, na coleta seletiva, não chega a 5%.

Aproveite o contato com a cooperativa para trazer um catador à escola, por exemplo, para ajudar na separação dos resíduos e explicar o que é reciclável ou não.

Convide-o para falar com a sala: muita gente só se engaja na coleta seletiva quando conversa com os diretamente envolvidos e percebe que são pessoas humildes que só estão nos pedindo que separemos o que não queremos mais.

Segundo a versão preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, disponível na página do Ministério do Meio Ambiente, só 60% dos rejeitos do País vão para aterros sanitários. Os outros 40% são divididos, quase igualitariamente, entre lixões e aterros controlados. Qual a diferença entre eles?

Sabemos que o lixo ocupa grande espaço. Além disso, quando está se decompondo exala um cheiro terrível e acaba atraindo moscas, ratos, baratas etc. Agora, imagine o lixo da cidade inteira indo para o mesmo lugar. Logo o confinamento de todo o descarte torna-se algo extremamente difícil de ser feito.

Em linhas gerais, um aterro sanitário é um local onde pode haver esse tipo de confinamento seguro, mas isso é impossível de ocorrer em lixões e aterros controlados.

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Um aterro sanitário é uma complexa obra de engenharia, onde os resíduos são dispostos de modo a ocupar a menor área possível e não gerar problemas ambientais e/ou de saúde pública. Entre esses problemas podemos listar o vazamento de líquidos e o escape de gases, ambos provenientes da decomposição do lixo.

Um aterro sanitário bem projetado, bem construído e bem operado passa despercebido pela população, pois não vai haver poluentes infiltrando no solo e atingindo lençóis d’água subterrâneos nem mau cheiro emanado para as vizinhanças.

Inicialmente, um aterro sanitário tem de ser projetado e construído de acordo com várias especificações técnicas, visando durar no mínimo dez anos. Para evitar que líquidos poluentes se infiltrem pelo solo é muito comum que se estenda, na base do aterro, um imenso cobertor de plástico grosso.

Visando tirar os gases da massa de lixo, que pode ficar aterrada por décadas, tubulações são colocadas ao longo de todo o aterro e, no final do tubo, queima-se o gás emanado. Em alguns aterros brasileiros, esse gás, de composição química muito semelhante à do gás natural, é utilizado inclusive no abastecimento de usinas termoelétricas.

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Outro pressuposto importante num aterro sanitário é que ele seja construído e operado de modo que somente a quantidade inevitável de chuva caia sobre os resíduos. Assim, um sistema de drenos deve ser instalado, visando desviar a água da chuva que escoaria para a massa de lixo. Já para diminuir problemas causados por mau cheiro, ao final de cada dia o lixo deve ser coberto com uma camada de terra.

Antes disso, pesadas máquinas devem passar em cima dos resíduos algumas vezes para compactá-los, gerando uma massa estável sobre a qual seja possível colocar mais lixo. Quando completada a altura máxima autorizada em projeto, que em alguns aterros brasileiros chega a 60 metros de resíduos, uma camada impermeabilizante – por exemplo, de argila compactada – deve ser colocada.

Já em um lixão não há absolutamente nada disso. Os resíduos são dispostos no solo, gerando todas as possibilidades de estrago. Num aterro controlado, o problema talvez seja ainda pior, pois é, de certa forma, invisível: trata-se de um lixão coberto com terra.

Essa cobertura faz com que problemas relacionados ao mau cheiro não sejam reportados. Porém, o líquido da decomposição do lixo, o chamado chorume, vai escoando pelo solo até encontrar água. E essa água pode abastecer a sua casa.

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Como dito anteriormente, 40% do lixo brasileiro vai para lixões e aterros controlados. Já foi bem pior: segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1989 aproximadamente 10% do lixo brasileiro ia para aterros sanitários, ante 75% indo para lixões e 15% para aterros controlados. Ou seja, melhorou bem, mas continua um absurdo.

Visando coibi-lo, a Política Nacional de Resíduos Sólidos, lei federal de 2010, estabeleceu que até 2014 não pode mais haver lixões no Brasil. Surgem, então, duas perguntas. A primeira: vai dar tempo de fazer isso? Ninguém sabe, mas torcemos para que as prefeituras (a quem cabe a administração do lixo de cada cidade) tenham se programado. Não deixa de ser obrigação, pois a meta já é conhecida desde 2010.

A segunda pergunta: é difícil fazer isso? Com dinheiro, não. O que muitas prefeituras estão fazendo para erradicar os lixões é mandar resíduos para aterros sanitários particulares. Geralmente, empresas privadas possuem aterros muito bem projetados e operados, de modo que o confinamento é seguro. Elas cobram bem por isso e quem paga, é claro, é a população.

O problema é que os bons aterros estão ficando cada vez mais raros, dada a dificuldade de se aprovarem áreas para o despejo de lixo. Assim, os locais existentes estão cada vez maiores e mais distantes. Isso faz com que longos trechos sejam percorridos para enterrar o lixo, o que encarece o transporte e coloca mais uma pitada de irracionalidade no sistema como um todo, que já não é muito inteligente. Afinal, são considerados irracionais gatos e cachorros, animais que jogam terra sobre seus detritos.

Talvez a cidade brasileira cujo lixo anda o maior trajeto para ser enterrado seja Porto Alegre, que tem como principal destinação autorizada um aterro a 80 quilômetros da capital gaúcha. Ainda é bem diferente de Nova York, de onde o lixo segue por mais de mil quilômetros em linhas férreas para ser aterrado no estado da Carolina do Sul.

Está nítido que existem dois caminhos a percorrer na questão do lixo. Um deles é o americano, que tem nos aterros – grandes e distantes – a principal forma de destino do lixo gerado. Mas há outro caminho, mais conceitual, o europeu.

Com várias legislações e experiências reais, o Velho Continente vem tentando implantar um sistema que considere o aterro como a última opção, baseado na meta – ainda que por enquanto mais próxima de sonho – do “aterro zero”. A maneira proposta para conseguir isso é a implantação dos tais “3Rs”.

A primeira e mais importante alternativa é a Redução, ou seja, gerar menos resíduos. Isso não é fácil na sociedade atual, onde a propaganda e a competição despertam o desejo de todos por coisas muitas vezes com utilidade discutível.

Não havendo a possibilidade de reduzir, que se pratique a Reutilização dos resíduos, algo que também vai na contramão da atual sociedade, baseada no descartável. Uma terceira opção, então, seria a Reciclagem dos resíduos, existente nos quatro cantos do mundo, e também no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos.

Os europeus tentam fazer a política do “aterro zero” a partir do óbvio: cada gerador é responsável pelo seu resíduo, tendo a obrigação de gerar menos (através da redução ou da reutilização) ou, em caso de impossibilidade, de encaminhá-lo à reciclagem. O poder público tem a obrigação de ajudar, instituindo uma coleta seletiva eficiente e abrangente.

Isso porque um resíduo separado tem mais chance de servir como material a um reciclador se estiver limpo, sem outras coisas grudadas. Uma sacola descartável, por exemplo, é facilmente reciclável. Porém, se estiver lambuzada com caldo de feijão não será conbiçada como matéria-prima, pois só para deixá-la limpa vão ser gastos muito tempo, dinheiro e água.

Entretanto, existe outro problema: há resíduos que, mesmo limpos, não são recicláveis ou não têm mercado como sucata. Nesses casos, é preciso que haja bom senso entre os fabricantes para que sejam revistos os materiais de que são feitos os produtos destinados a virar resíduos. Tudo pensando em facilitar a reciclagem.

* Sandro Donnini Mancine é professor da Unesp de Sorocaba
** Publicado originalmente em Carta Fundamental