COMPARTILHE

Nos últimos anos, a educadora negra norte-americana Bell Hooks tem norteado as minhas práticas pedagógicas. Guiada pelo seu pensamento, busco fazer da sala de aula uma “comunidade de aprendizado entusiasmada”, na qual as atividades são formuladas a partir do re-conhecimento da individualidade de cada estudante.


Confesso que o ato de escutá-los, de permitir que eles opinem, façam escolhas em relação ao andamento das aulas têm sido uma experiência muito especial pra mim. Acho que em alguns momentos para eles também.

Nesse sentido, pedi aos alunos do 6º ano que reservassem um caderno para a elaboração de um diário, no qual suas vivências cotidianas sejam registradas. Além de estimular o gosto pela escrita, esse exercício promove a criação de um elo de confiança entre os meus alunos e eu, fundamental nos processos de ensino-aprendizagem. O belíssimo Diário da Mãe da Alice, livro da escritora mineira Mariana Rosa é a nossa fonte de inspiração.

Leia Também:
Para escutar uma criança
Você faz faxina? Não, faço mestrado. Sou professora

Uma vez por semana, recolho os diários para ler e corrigir. Tem de tudo: a briga com a colega de sala, o cachorro que sumiu, a aula chata, a professora Luana que ficou aborrecida com a bagunça. Enquanto corrijo, dou boas risadas. Me encanto. Ganho força e fôlego para seguir em frente nesse desafio tão difícil chamado docência.

Pedro* ainda não começou o diário dele. Essa semana ele me contou que pediu para o irmão comprar um caderno. Estranhei o fato do pedido não ter sido feito para a mãe ou para o pai. Resolvi perguntar com quem ele mora:

– Moro com o meu irmão. Não tenho pai. Minha mãe tá presa. – Foi o que ele me disse.

Sinto um nó ao lembrar dessas palavras. Não tenho condições de resolver todos os problemas dos meus alunos. Estabeleço um limite entre o que chega até os meus ouvidos e o que posso fazer para amenizar o sofrimento experimentado por alguns. Caso contrário, seria vítima de um colapso emocional. É importante estar atenta a isso.

Não é o suficiente, mas eu posso presentear o Pedro* com um caderno para que ele se sinta motivado a fazer o diário assim como os demais colegas.

Posso escrever mensagens carinhosas e de encorajamento toda vez que eu corrigir o diário, de modo que ele perceba o quanto é capaz e importante para mim.

Posso questionar de maneira firme, porém, afetuosa, o motivo dele nem sempre estar com as atividades em dia. Nessa etapa da vida, o apoio, o acompanhamento da família são essenciais para que os alunos tenham um bom desempenho escolar, mas nem sempre é possível. Não sei por quanto tempo a mãe do Pedro* ficará ausente. Quando eu era criança, vivia pedindo para a minha mãe me ensinar os deveres de casa. Ela se limitava a dizer que não podia. Não entendia o motivo dela agir daquela maneira. Só mais tarde descobri que a minha mãe não sabia ler nem escrever.

Posso pedir a ele que me auxilie durante as aulas. É uma maneira de elevar a autoestima e fazer com que o Pedro* tenha mais confiança.

Posso ainda repudiar, desmentir cada pessoa que, tomada pela estupidez e pela ignorância, afirmar que o auxílio-reclusão “foi feito para sustentar bandidos”. O que pouca gente sabe é que esse benefício, destinado aos dependentes dos presos contribuintes do INSS, muitas vezes impede que meninos como o Pedro* sofram também com o desamparo material.

Luana Tolentino é professora e historiadora