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Medo de matemática
Punição por parte de pais e professores ajuda a construir um sentimento de aversão

O coração dispara, as mãos ficam trêmulas, a cabeça dói e o corpo inteiro é tomado por uma sensação de desconforto. E tudo isso por causa da Matemática.


Objeto de estudo desde o fim dos anos 50, a chamada “ansiedade matemática” se caracteriza por um conjunto de reações fisiológicas, comportamentais e cognitivas que algumas pessoas manifestam diante de situações envolvendo a disciplina, que podem ser intensificadas às vésperas ou no dia de provas e em situações em que o conhecimento é cobrado.

“Alunos com ansiedade matemática tendem a se esquivar ou fugir das aulas e de todas as tarefas que envolvam a matéria. São comuns a sensação de ‘branco’ no momento de resolução de problemas e as autoatribuições negativas, como ‘não sou bom em Matemática’, ‘é muito difícil’ ou ‘nunca conseguirei aprender por mais que me esforce’”, explica Alessandra Campanini Mendes, pedagoga e membro do grupo Análise do Comportamento e Ensino e Aprendizagem da Matemática (Aceam).

São muitos os fatores que podem levar ao desenvolvimento do quadro, a maioria deles relacionados a experiências negativas.

“Percebemos que as crianças começam a desenvolver ansiedade matemática na passagem da aritmética para a álgebra, quando passam a falhar nas provas e tirar notas baixas. Isso leva a uma diminuição na crença na autoeficácia matemática, ou seja, na capacidade de resolver esse tipo de problema”, explica Márcia Regina Ferreira de Brito, psicóloga e membro do grupo Psicologia da Educação Matemática, da Unicamp.

Além das notas baixas, a ridicularização em sala de aula e a punição por parte de pais e professores ajudam a construir um sentimento de aversão.

A influência negativa da família também pode perpetuar estereótipos equivocados. “Muitas vezes, pais ou responsáveis que tiveram em sua jornada escolar experiências negativas com a disciplina acabam transmitindo aos seus filhos as ideias de que a Matemática é difícil e que poucos conseguem aprendê-la”, diz Alessandra.

Ensino de Matemática

A especialista também lembra que a própria cultura contribui para os casos de ansiedade, pois divulga que a disciplina é somente dominada por pessoas com inteligência acima da média e que mulheres, por exemplo, têm mais dificuldades em aprender conceitos matemáticos – ou mesmo que são incapazes de fazê-lo.

Além de afetar o desempenho escolar do indivíduo, o sentimento de apreensão causado pela Matemática pode, inclusive, orientar escolhas profissionais.

“Por não gostarem da disciplina, muitas pessoas escolhem cursos que não a incluem no programa. Um dos grandes problemas do curso de Pedagogia é esse. A maioria opta por ele por não envolver números. Posteriormente, porém, verifica que terá de dar aulas de Matemática no Ensino Fundamental”, conta Márcia. Essa situação gera uma atitude ansiosa no próprio professor, que precisa ensinar uma disciplina que não domina.

Leonardo Rodrigues dos Reis, graduado em Matemática pela Universidade Católica de Brasília e autor de Rejeição à Matemática: Causas e Formas de Intervenção, concorda. Para ele, uma das causas dessa ojeriza está no despreparo dos docentes.

“Muitas vezes, o primeiro contato que a criança tem com a Matemática é através de uma professora generalista que não gosta da disciplina ou não a domina. Essa falta de preparo e interesse acaba afetando a relação do aluno com a Matemática”, diz.

Para Elon Lages Lima, pesquisador do -Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada (IMPA), a Matemática que é ensinada aos jovens de até 13 anos requer a mesma habilidade que outras -disciplinas, como Língua Portuguesa e Ciências.

“É preciso acabar com a crença de que é difícil, que requer talento ou nascer com aptidão para os números. O que a disciplina exige é atenção, trabalho e dedicação, mas qualquer um pode aprendê-la”, diz.

O problema, segundo o pesquisador, é que a matéria, ao contrário de outras áreas do conhecimento, resume um saber cumulativo. Ou seja, se o aluno não aprende bem os conceitos básicos no começo, isso trará impactos negativos ao aprendizado mais à rente. “Porém”, ele ressalva, “há sempre como correr atrás do prejuízo.”

Nesse processo, o mestre é peça central: “Ele deve sempre se colocar no lugar do aluno. O escárnio e a humilhação não podem estar na sala de aula. Sem contar que há professores que se valem da reputação de complicação para mascarar sua própria ignorância, respondendo às dúvidas dos alunos com frases como ‘isso você vai ver mais para a frente’ ou ‘isso é muito complexo para você’”, diz Lima.

A fim de evitar que a ansiedade matemática apareça ou se agrave, o docente deve mostrar que a disciplina não é um bicho de sete cabeças.

“O professor que domina o conteúdo, gosta de ensinar e adota atitudes positivas tem grande probabilidade de despertar esse tipo de interesse nos alunos. É importante que ele proponha problemas desafiadores para que todas as crianças possam resolver, e não só três alunos da sala. Isso faz com que o aluno se sinta capaz de trabalhar os conceitos”, diz Márcia.

O ambiente escolar pode contribuir com uma cultura segundo a qual a Matemática seja acessível a todos, não apenas a alguns. “A escola também pode trabalhar com monitores, ou seja, professores ou estagiários que desenvolverão estratégias de ensino voltadas às dificuldades conceituais e procedimentais de cada estudante”, diz Alessandra.

Caso as dificuldades matemáticas das crianças sejam descobertas no início da escolaridade e elas sejam auxiliadas a superá-las, em vez de punidas pela falta de compreensão, certamente haverá mais chances de apreciar a disciplina e de apresentar atitudes favoráveis a ela.

“Durante muito tempo, o impacto das emoções no processo de ensino e aprendizagem foi deixado de lado. Mas a verdade é que elas são muito importantes e precisam ganhar a atenção dos educadores”, completa Márcia.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental