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Alunos fazem atividade contra o bullying em Curitiba
Em razão de inúmeros casos de violência na escola apresentarem sinais de bullying, existe uma grande e talvez excessiva preocupação em relação ao tema

A mãe de Letícia está preocupada com a filha. Várias vezes ela foi chamada para buscá-la na escola, porque a garota apresentava queixas de dor de cabeça. Além disso, as notas da menina, que sempre foram boas, decaíram. Percebeu também que a filha já não se interessa em participar das festas de aniversário dos colegas da escola. Questionada pela mãe, Letícia não relata o que está acontecendo. No entanto, Letícia está sendo alvo de bullying.


Com sobrepeso, ela é ironizada por dois garotos de sua classe – a chamam de “baleia”. Letícia teve crises de choro na escola, após vários episódios de sátiras.

O termo bullying tem sido citado por pais, professores, profissionais de comunicação e até mesmo entre as crianças.

Mas, afinal, o que é bullying?

Segundo a precursora do tema no País, a professora Cléo Fante, o bullying é um fenômeno tão antigo quanto o surgimento da escola. Desde que existe agrupamento de crianças, existe bullying. O termo inglês é traduzido como maltrato entre pares e designa a prática de atos agressivos de um ou mais autores contra uma pessoa que será um alvo.

Atualmente, em razão de inúmeros casos de violência na escola apresentarem sinais de bullying, existe uma grande e talvez excessiva preocupação em relação ao tema. Por exemplo, a tragédia de Realengo traz indícios de que o agressor tenha sido alvo de bullying.

O fenômeno bullying pode ter favorecido a sua reação vingativa em relação à escola? Sim, pode ter favorecido, mas não determinado. O que determinou a ação do autor foi a sua personalidade desequilibrada.

Sem compreender essa situação, muitos pais e educadores entram em desespero e acreditam que tudo é bullying, confundindo o mesmo com as situações de conflitos interpessoais, fundamentais para o desenvolvimento psicológico da criança e do adolescente.

Dia desses, uma professora relata que um garoto de 7 anos chamava uma colega de classe de “gorda” e a mãe da criança, que chegava para buscá-la e ouvia o comentário, disse: “Olha! Isto é bullying! É crime”.

A preocupação da professora com o imprevisto foi com o fato de que a garota havia provocado o colega anteriormente e a agressão foi isolada, o que não se configura bullying.

Conflitos necessários

É importante salientar que a maioria das ações agressivas na escola tem relação com os conflitos, e não com o bullying.

Conflitos interpessoais são situações naturais de desacordo entre as pessoas e necessários ao desenvolvimento de crianças e adolescentes.

É por meio dos conflitos que eles têm a chance de aprender a se colocar no lugar do outro e a falar o que pensam e sentem de forma respeitosa.

Na visão construtivista, as crianças não nascem sabendo dialogar e trocar pontos de vista de forma harmônica. É natural que agridam ou permitam ser agredidas até que cheguem à conclusão de que existem formas mais evoluídas de resolver desentendimentos interpessoais.

Portanto, os alunos batem, xingam, ironizam, acusam injustamente como forma de resolver muitos conflitos. Contudo, o outro envolvido no desacordo bate, xinga, ironiza, acusa injustamente como forma de defesa. Em outros termos, envolve uma relação de igualdade.

Diferentemente do bullying que envolve uma criança que se sente com pouco poder e fica sendo alvo de outra que se sente com muito poder, envolve uma relação de desigualdade.

Apesar da maior frequência dos conflitos interpessoais na escola, quando comparados ao bullying, os danos para o segundo podem causar marcas quase irreversíveis na personalidade dos envolvidos.

Por esse fato, e por ser um fenômeno silencioso diante das figuras de autoridade, a comunidade escolar deve se mobilizar, já que o bullying não é brincadeira.

As consequências são inúmeras para os personagens. Para o alvo de bullying os problemas físicos decorrentes do estresse, o isolamento, tristeza, ansiedade e dificuldades escolares são algumas das implicações imediatas.

Futuramente, o alvo de bullying que não recebeu tratamento pode ser constantemente envolvido em situações cíclicas de maltrato. Tende a ser alvo de abuso no trabalho, nos relacionamentos amorosos e nas amizades.

Depressão, suicídio e vingança são algumas alternativas para o alvo de bullying. Para o autor de bullying, a hostilidade e as atitudes desafiadoras em relação às figuras de autoridade são bastante comuns. As atitudes de humilhação tendem a ser cíclicas em outras relações como a família e o trabalho.

Ainda que as conquências sejam preocupantes, alguns podem dizer que, em uma classe, uma criança é alvo de bullying ou às vezes nenhuma. Para que tamanho alarde? Nem todas as crianças que foram agredidas sairão metralhando criancinhas na fase adulta.

Muitos vão superar, tormando-se pais de família e trabalhadores responsáveis. Será que a preocupação é excessiva e estamos transformando as exceções em regras?

O Papel dos Alunos e da Escola

Nossa maior preocupação: a formação dos alunos. Autor, alvo e plateia de bullying mostram uma evidência que pode não estar muito explícita para as pessoas: sérios problemas na construção de valores como justiça e respeito mútuo.

O autor tem dificuldade de respeitar o próximo. O alvo, de colocar o seu valor ao outro. E a plateia… a maioria dos alunos que riem ou apenas assistem à humilhação e nada fazem diante do maltrato apresenta dificuldade de se indignar com o desrespeito.

Em outros termos, em uma situação que envolve um autor e um alvo, nós temos evidências de dezenas de alunos com problemas na formação moral.

O que os educadores fazem quando sabem de um caso de bullying?

Suspendem e advertem o autor e poupam o alvo. Nem se dão conta de que existe uma plateia. É preciso entender que o autor de bullying é alguém que também precisa de ajuda. Ele não é um criminoso.

Os educadores precisam limitar a sua ação com respeito. Só assim ele entenderá a necessidade desse princípio. Existem ações diretas que podemos realizar quando surge o problema e ações indiretas.

Entrevistas individuais com o autor e alvo para realizar acordos entre as partes, encorajar o autor a reparar a sua ação e as sanções por reciprocidade caso o autor rescinda a agressão são algumas estratégias diretas utilizadas quando o problema já ocorreu.

Trabalho com assembleias escolares, discussão de conflitos hipotéticos e de dilemas morais e trabalho com sentimentos são procedimentos indiretos que a escola precisa adotar sistematicamente para favorecer a formação moral dos alunos.

Esses últimos procedimentos não devem ser usados apenas para prevenir o bullying. Devem constar para que os alunos possam construir recursos cognitivos e afetivos mais evoluídos, visando resolver os conflitos que todos enfrentarão.

A escola muitas vezes fica preocupada apenas com o bullying.A preocupação deve ser maior: como formar pessoas que respeitam e se fazem respeitar, seja em situações de bullying, de conflitos ou de indisciplina e incivilidades. A preocupação, portanto, é necessária, mas não restrita ao bullying, e sim à formação moral dos alunos.

* Vanessa Fagionatto Vicentin é doutora em Psicologia escolar
e desenvolvimento humano e professora de pós-graduação da Unifran

  • Gustavo

    Mais uma lei inútil….=T

    Por que não deixar as escolas trabalharem caso a caso as medidas necessárias e cabíveis junto aos pais. Aliás, já era isso que vinha sendo feito mesmo sem lei anti bullying.

  • José Guedes

    Minha filha sofreu bullying no colégio dela, que nada fez………Se eu e minha esposa não tivéssemos chutado o pau da barraca e ameaçar com o conselho tutelar, o sofrimento seria muito maior. Toda a lei que vier para ajudar essa prática bandida e covarde será bem recebida……………….

    • Fabricio

      Muito bem, José!
      Enquanto houver safados dizendo “bullyng” é coisa de hoje, que sempre existiu e ninguém se traumatizou”, fica evidente que temos que lutar contra os adultos safados que fecham os olhos e até incentivam seus filhos deturpadinhos a serem covardes.

    • Bonafide

      O bom é que sua filha teve coragem de contar para vc e sua mulher.
      Isso é o resultado de um relacionamento permeado de amor e confiança.
      O problema é muito mais grave em famílias onde o pai é completamente ignorante e acha que bullying é “mimimi” ou frescura.
      Já imaginou? a criança ser vítima na escola e ser novamente violentada dentro do próprio seio familiar? Quando mais precisa de amor, compreensão e atendimento psicológico especializado…
      Por isso precisamos sempre divulgar, esclarecer, informar e relatar os casos reais, como o seu.
      Se o conselho não resolver, vá ao MP e procure promotores mais novos na carreira. Se um promotor não atender bem, procure outro… a ouvidoria do MP.

  • Mauro

    Uma lei que dita e pauta as relações entre crianças e adolescentes… Só na era peteba mesmo. Se sua filha é chamada de baleia na escola vc vai lá e processa o menino de 7 anos?

    • Gustavo Costa

      Mauro, isso não tem a ver com PT ou PSDB, aliás, recomendo fortemente que vc vá no google e cheque na wikiédia quantas cadeiras cada partido tem no congresso… pra perceber que o PT não é tão dominador quanto imaginamos.

      Enfim, Bullying pode gerar uma série de problemas, depressão, ansiedade, crises mentais, entre outras doenças psicológicas que são o mal desta geração. Principalmente com a questão da internet e do cyberbullying, todos os jovens e crianças vão passar por situações que podem marcar pra sempre a vida deles.

      Não vamos processar crianças de 7 anos, mas vamos tratar o assunto como responsabilidade de todos, Estado, Escola, Pais, e familiares.

  • Nara Pinheiro

    Engraçado…hj se criam um monte de leis do mimimi, onde atualmente piombam gente despreparada para lidar com situações que não lhes cabem e ironicamente, a juventude atual é mais alienada do que as gerações passadas.Antigamente, as pessoas procuravam resolver seus problemas de forma mais autônoma e nem por isso ficavam cheias de trauma.

    • Bonafide

      Ah, sim. A juventude é mais alienada…

  • Jeny

    Estranho é que eu fiz uma redação com os exatos mesmos argumentos desse texto. E eu só tenho nível médio. Parece até que roubaram minhas ideias kkk