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Robôs da LEGO no ensino

No Colégio Nossa Senhora de Fátima-Sacramentinas, localizado em Vitória da Conquista (BA), os robôs vêm ajudando no ensino de Ciências, Matemática, História e Geografia, e isso nada tem a ver com um cenário de ficção científica.


Desde 2007, aulas de Robótica Educacional integram o currículo dos alunos do 6º e 7º ano do Ensino Fundamental, além de serem optativas a partir do 8º ano. Mais do que aproximar os jovens dos conceitos básicos de mecatrônica e informática, o objetivo é estimular o raciocínio lógico, a criatividade e a investigação científica.

Os protótipos são criados a partir de kits que simplificam a montagem e a programação dos robôs, como o Lego Minds-
torms NXT, linha da fabricante de brinquedos que traz peças padronizadas e possibilita a montagem de estruturas variadas. “Primeiramente, familiarizamos os alunos com peças, motores, sensores e softwares. Depois, ao longo do semestre e conforme eles vão dominando a técnica, criamos projetos interdisciplinares envolvendo a Robótica”, explica Andrique Figueiredo Amorim, coordenador do Núcleo de Informática da escola.

Os dispositivos ganharam espaço até nas disciplinas mais improváveis, como História. “Quando os alunos aprendem Idade Média, construímos robôs que simulam as pontes levadiças dos castelos e artefatos utilizados nas guerras da época, como a catapulta e o arco e flecha”, conta Amorim. Além de auxiliarem na visualização dos conceitos históricos, os robôs incitam o desenvolvimento de outras aptidões. “Para lançar um projétil com a catapulta, eles precisam colocar em prática, por exemplo, conhecimento de Geometria para saber em qual ângulo a estrutura precisa estar posicionada.”

Alunos do sacramentinas
Alunos do Colégio Sacramentinas, na Bahia: robôs premiados

Para Flavio Tonidandel, coordenador da Olimpíada Brasileira de Robótica, o grande benefício trazido pelos robôs para as escolas é esse engajamento dos alunos com a aprendizagem. “A ideia não é só ensinar cálculo e mecânica, mas fazer o aluno assimilar os conceitos aprendidos em sala de aula de maneira mais lúdica”, explica. Tonidandel destaca um trabalho apresentado na Mostra Nacional de Robótica, no qual uma escola montou o sistema solar com planetas-robôs programados para realizar a órbita ao redor do Sol na mesma proporção em que o fazem os astros no universo. “Ficou muito legal. Uma coisa é o aluno ouvir o professor falar sobre o sistema solar e outra é ver na sua frente uma réplica em funcionamento”, diz.

Para Dante Barone, coordenador do Roboteka, projeto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul que, entre 2010 e 2012, implementou um programa piloto de Robótica Educacional em dez escolas da rede estadual de Goiás, já não é de hoje que se critica o papel passivo dos estudantes no ensino, baseado em aulas expositivas, memorização e repetição de exercícios. “É preciso que o aluno use seu conhecimento, aplique-o e crie novas relações sobre o que estudou”, defende. Para ele, a disciplina também desenvolve habilidades de trabalho em grupo e noções de algoritmos, além de iniciar uma alfabetização tecnológica cada vez mais necessária.

Com essa proposta, desde 2007 a rede municipal de Porto Alegre oferece oficinas optativas de Robótica no contraturno. Hoje, são 22 escolas de Ensino Fundamental do município que disponibilizam a disciplina, atendendo cerca de 2,5 mil alunos com idades a partir dos 7 anos. “Geralmente, as escolas da nossa rede se localizam nas regiões periféricas da cidade. As oficinas são oportunidade de aproximar essas crianças do universo da tecnologia, até para elas poderem experimentar e ver se esse é um caminho que desejam seguir profissionalmente”, explica Daniela Bortolon, coordenadora de Inclusão Digital e Assessoria de Informática da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre.

Outro ponto importante, segundo Daniela, é o estímulo à pesquisa e ao protagonismo. “Temos alunos que são tímidos nas aulas tradicionais e, quando chegam nas aulas de Robótica, se transformam e mostram iniciativa, ideias, liderança.” Para ela, isso se deve ao lado prático da disciplina. “É uma aprendizagem que envolve reflexão, tentativa e erro. O aluno tem de planejar o robô. Se depois da montagem nada dá certo, tem de desmontar e construir de novo. Se não puser a mão na massa, o robô não toma forma.”

Neste ano, a rede pretende investir na robótica livre, na qual os alunos poderão montar robôs com sucata e outros materiais de baixo custo. “Os kits estruturados são muito bacanas, mas têm suas limitações. Ao deixá-los de lado, queremos trabalhar mais a questão da criatividade”, conta Daniela.

Já popularizada entre as escolas particulares (mesmo que como curso extracurricular), a montagem de robôs tem conquistado espaço nas redes públicas. Neste ano, 3,36 mil alunos do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental da rede municipal de Manaus passaram a ter aulas de Robótica após uma parceria da prefeitura com a Fundação Nokia. No Recife, a prefeitura investiu 30 milhões de reais no lançamento do Programa Robótica na Escola junto à Lego Education, que iniciará mais de 80 mil alunos, da Educação Infantil até o Ensino Fundamental, na tecnologia.

“Hoje, existem empresas especializadas que montam a estrutura para um clubinho de Robótica ou até mesmo ministram as aulas”, diz Tonidandel. Entretanto, as escolas que não possuem verba para terceirizar o trabalho podem encontrar barreiras na capacitação dos professores. “Muitas vezes, os governos ou as escolas compram kits de Robótica que acabam parados. É parecido com o que aconteceu na época do boom da computação. As escolas montavam salas de informática que ninguém usava porque os professores não sabiam mexer nos computadores.”

Para Barone, o ambiente escolar é ainda limitado quando se trata de incorporar novas tecnologias. “Temos professores sobrecarregados e um currículo que exige muito tempo dos alunos. A Robótica Educativa pode cair de paraquedas e não encontrar espaço”, diz. Outro empecilho é o custo do projeto. “Pode-se trabalhar com sucata e outros materiais, mas, infelizmente, os kits que existem são muito caros e de difícil aquisição. A compra pode demorar meses”, diz.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental