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Criado por Mary Shelley, Frankenstein é fruto da relação da ciência moderna com a literatura
Criado por Mary Shelley, Frankenstein é fruto da relação da ciência moderna com a literatura

Máquinas simulam uma consciência do trânsito e organizam a rota das pessoas; outras numa atitude quase amiga, lembram de um compromisso que não se pode esquecer. Remédios promovem a sensação constante de euforia e entusiasmo, mesmo que faltem motivos para isso. Programas geram o tráfego de trens e de informações das cidades. Robôs controlam cadeias inteiras de produção. A sensação de que vamos, pouco a pouco, nos projetando num enredo de ficção científica parece cada vez mais cotidiana.


Leia atividade didática inspirada neste texto
Competência: entender o impacto das tecnologias da comunicação e da informação na vida pessoal e social.
Habilidade: relacionar as tecnologias de comunicação e informação ao desenvolvimento das sociedades e ao conhecimento que elas produzem.

A sequência de atividades, a seguir, tem como objetivo permitir que os estudantes percebam como podem relacionar de forma criativa dois campos do conhecimento – ciência e literatura – articulando conceitos e procedimentos próprios de cada um, assim como fazê-los aprimorar a competência de produzir textos narrativos originais.

1) Inicialmente, é importante contextualizar a relação entre ciência e arte. Para isso, vale a pena apresentar as obras marcantes da história da literatura de ficção científica e o quanto dialogam com o universo das ciências de sua época ou antecipam problemas com os quais a ciência posteriormente se preocupou. Também podem compor esse momento de contextualização, uma coletânea de filmes do mesmo gênero ou experiências realizadas em outros campos das artes, como nas artes plásticas. Em qualquer dessas situações destaque o modo como o discurso científico é elemento estruturante do argumento da narrativa.

2) Em seguida, com um olhar atento para as diferentes áreas da pesquisa científica e as inquietações que suscitam, os estudantes devem fazer uma pequena coletânea de textos de divulgação científica, dividindo-a em pelo menos três categorias: desenvolvimento tecnológico, transformações ambientais e engenharia genética. Essas áreas têm sido responsáveis por parte das reflexões sobre os rumos da civilização e a própria noção de identidade humana. Frequentemente, esses textos trazem preocupações de caráter ético e moral, podendo contribuir para a construção de um discurso narrativo que articule conscientemente questões a respeito da relação do homem com o conhecimento que ele produz.

3) Algumas das descobertas ou invenções que esses textos anunciam, certamente oferecerão temas para uma sequência de pequenos seminários tematizando o impacto delas em nosso cotidiano. Momento oportuno para dar ênfase às conquistas que representam, aos riscos que oferecem e a cuidados que demandarão. Esses seminários certamente favorecerão a troca de impressões sobre o que os textos sugerem, ampliando o olhar crítico dos estudantes.

4) Por fim, apoiado em um viés preferencial (desenvolvimento tecnológico, transformações ambientais ou engenharia genética), os estudantes podem iniciar a produção de um conto de ficção científica de caráter distópico, elegendo um tema para problematizar moral ou eticamente e para mediar a estruturação do conflito e seu consequente desfecho.

5) Como opção de debate sobre a estrutura do texto, vale a pena convidar os estudantes a refletirem sobre alternativas diferentes para a construção do enredo: começar sua história pelo fim; recontar a história mais de uma vez, apresentando diferentes pontos de vista; optar conscientemente por um narrador em primeira ou terceira pessoa; adotar um narrador que converse com o leitor.

Desde que a ciência moderna se estabeleceu, no século XVII, sua relação com a arte, especialmente a literatura, revelou-se produtiva e inquietante: Mary Shelley, de Frankenstein, ou o Moderno Prometeu, não suspeitaria a que ponto chegaríamos quando dominássemos os transplantes de órgãos e membros; Robert Stevenson, de O Médico e o Monstro, ficaria surpreso com o poder que a indústria farmacêutica ganhou administrando humores e a saúde de milhões de pessoas ao redor do mundo; Júlio Verne, de Vinte Mil Léguas Submarinas olharia encantado o que o espírito atento do homem, observando a natureza, foi capaz de criar: de máquinas que voam no céu às que vasculham o corpo humano, passeando-o por dentro.

Talvez não seja demais afirmar que, no passado, um conjunto de pesquisas no campo da ciência tenha se estabelecido a partir das inquietações fantasiosas de muitos escritores, assim como as possibilidades que a ciência em curso anuncia consolidar, em breve, oferecem um caldo bastante apetitoso para a fome de fantasias de muitos artistas em vários campos da arte.

O futuro é algo que nos seduz com sua infinita gama de possibilidades. No entanto, dependo do olhar que vê, o futuro é negro, dependendo, é alegremente colorido. Distopia e utopia compõem os dois lados dessa experiência visionária. No cinema e na literatura, o planeta, o homem e tudo o que ele criou – às vezes, à sua imagem e semelhança – já foram recriados e destruídos uma porção de vezes. Em cada uma delas, aprendemos um pouco mais sobre a nossa natureza e a capacidade que temos de ajustar alternativas para cada acerto e erro que cometemos. O fato é que o futuro se desenha por meio de escolhas. E o que melhor pode nos guiar nelas é a combinação de muita consciência com outro tanto de intuição. Ciência e arte, dessa forma, nos alimentam com conhecimentos que, dialogando entre si, potencializam nossa visão, ao mesmo tempo que nos oferecem elementos para uma crítica sobre as escolhas que fazemos ou pretendemos fazer.

Nesse sentido, as narrativas distópicas tendem a se constituir como experiências criadoras mais complexas, já que, em seu desenvolvimento, incorporam elementos que expõem o ser humano em suas contradições. Há pouco mais de 150 anos, um romance de ficção científica utópico que tematizasse a criação das máquinas voadoras, terminaria com pessoas viajando pelo mundo, observando extasiadas o planeta em que vivem, desconcertadas pelas maravilhas que o espírito humano é capaz de realizar. Num romance distópico, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) com sua destruição aérea promovida pela inclusão dos aviões aos arsenais de guerras seria apenas o começo de um drama, que poderia ter como imagem-símbolo, o suicídio de Santos Dumont.

Tendo em vista a ampliação do conhecimento e nosso processo evolutivo, é importante que sejamos capazes de vislumbrar essa complexidade que nos marca de modo a tirar o melhor proveito dela. As fantasias distópicas, pelo viés crítico que carregam, revelam-se ricas pelo potencial de reflexão que impõem sobre a natureza do homem enquanto ser produtor de conhecimento. Por mais que reflexões como as que encontramos no artigo “A era da impaciência” de Thomaz Wood Jr. apontem, em alguns momentos, para o lado mais assustador desse momento da nossa relação com a tecnologia, especialmente a digital, precisamos também enxergar nesse momento as conquistas que têm transformado de modo muito positivo nossa vida cotidiana. Apesar de o avião de Santos Dumont ter sido responsável por um número absurdo de mortes na Primeira Guerra Mundial, não podemos esquecer a enorme alegria que ele continua gerando em cada pessoa que tem, de repente, a possibilidade de se lançar ao espaço pela primeira vez e de lá observar o estranho e surpreendente mundo que vamos desenhando aqui embaixo.

* José Carlos de Souza é professor de Pós-Graduação do Curso de Formação de Escritores do Instituto Vera Cruz

Filmes
Metrópolis, de Fritz Lang (1927)
Gattaca, de Andrew Niccol (1997)
O Dia Depois de Amanhã, de Roland Emmerich (2004)

Livros
Quando o Futuro Morreu, de Rudinei Kopp, Editora Gazeta, 2011. Arte, Ciência e Poder, de Sylvio Lago, Editora Biblioteca 24 horas, 2014

Sites
Walmor Correa (Artista Plástico) 
Ficção científica de Monteiro Lobato aos contemporâneos