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palavras filmadas

Muita gente foi surpreendida durante a 
cerimônia de 
entrega do Oscar, no início de março 2014, quando houve a tradicional homenagem a profissionais de cinema mortos 
durante os 12 meses anteriores. Foram celebrados, como era de se esperar, atores norte-americanos como Shirley Temple e Philip Seymour 
Hoffman. Mas ganhou também espaço, nesse momento nobre da cerimônia, o brasileiro Eduardo Coutinho, falecido em circunstâncias trágicas, morto pelo próprio 
filho, aos 80 anos.


Para quem ainda duvidava de sua importância no cenário do documentário mundial, a menção pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood se encarregou de colocar as coisas em seus devidos lugares. Coutinho era reconhecido como um dos grandes nomes do documentário em todo o mundo, homenageado com retrospectivas e livros por diversos festivais internacionais. Santo de casa, como se sabe, muitas vezes não consegue fazer milagre – e, embora tivesse projeção global, era um ilustre desconhecido para a maior parte dos brasileiros, inclusive para muitos fãs de cinema que tendem a privilegiar a ficção em detrimento do documentário.

Era fácil reconhecer a sua importância, mas definir a sua obra sempre exigiu algum trabalho e provocou pequenas divergências entre especialistas. Algumas tentativas de definição, no entanto, são recorrentes. Elas apontam, com formulações ligeiramente distintas, para horizontes complementares. Seria um “cinema do encontro”, como sua obra foi apresentada no título da retrospectiva dedicada a ele em outubro de 2003 pelo Centro Cultural Banco do Brasil.

Seus curadores, Cláudia Mesquita e Leandro Saraiva, utilizam outra expressão, cinema “olho no olho”, na apresentação do catálogo. “No centro de seu método, está a fala de alguém sobre a sua própria experiência, alguém escolhido porque não se espera que se prenda ao óbvio, aos clichês relativos à sua condição social”, observa o professor e ensaísta Ismail Xavier em um dos textos reunidos nesse mesmo volume.

Criador e diretor do É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários, que em 2000 elegeu Cabra Marcado para Morrer (1984) – o longa de Coutinho lembrado na homenagem do Oscar – como o mais importante filme de não ficção realizado no Brasil, o crítico Amir Labaki prefere, em seu livro Introdução ao Documentário Brasileiro, a expressão “cinema de conversa” para identificar a “variante particular do instrumento da entrevista” usada pelo diretor.

Já a professora e jornalista Consuelo Lins, autora da obra O Documentário de Eduardo Coutinho – Televisão, Cinema e Vídeo e colaboradora do cineasta em Babilônia 2000 (2001) e Edifício Master (2002), fala em “cinema da palavra filmada”, que “aposta nas possibilidades de narração dos seus próprios personagens”. Ou, como sublinha Claudio Valentinetti no livro-entrevista O Cinema Segundo Eduardo Coutinho, obra realizada por um “extraordinário narrador de narrações”.

Eduardo coutinho
Cena de Cabra Marcado para Morrer (1984)

Encontro, conversa, olho no olho. Fala, palavra filmada, narração. Aparentadas, essas palavras-chave dão conta do que, objetivamente, tratam os filmes que fizeram do cineasta referência obrigatória para o estudo do documentário na virada do século XX para o XXI, pouco mais de cem anos depois das primeiras experiências de registro de cenas do cotidiano em imagens feitas na França e nos Estados Unidos – a aurora, portanto, do que hoje chamamos de produção documental. A experiência de assistir aos filmes de Coutinho, no entanto, vai muito além do que essas palavras-chave sugerem. A estratégia da conversa olho no olho, em encontro do cineasta e de sua equipe com seus personagens anônimos, propiciou, com seu rigor metodológico, um cinema peculiar em que – quem define agora é o próprio Coutinho – o interesse está no que resulta “precário, incompleto, parcial, que não diz tudo porque não pode dizer tudo”. Como a vida.

“É uma conversa em que o desejo de a pessoa falar e o meu de ouvir se cruzam”, resumia. Cinema do “aqui e agora”, e não do “aqui e ontem” ou do “ali e amanhã”. Cinema do instante, do presente. E da busca pelo belo que se revela na “imperfeição” humana. O diretor de um documentário se tornaria, na autoanálise de Coutinho, “responsável” pelas pessoas que coloca na frente da câmera e para as quais abre o seu microfone, equilibrando-se na “corda bamba” ética de decidir o que fazer com o que elas lhe mostram e lhe dizem.

“A maior parte dos depoimentos que Coutinho recolheu são narrativas de vida, e essas não devem ser consideradas como simples narrativas factuais, mas sobretudo, como instrumentos de reconstrução da identidade dos sujeitos”, observou o professor e documentarista Henri Arraes Gervaiseau em ensaio também publicado no catálogo da retrospectiva do CCBB, referindo-se principalmente a Cabra Marcado para Morrer. É uma espécie de princípio que orientou Coutinho até Moscou (2009) e As Canções (2011), seus dois últimos longas a serem lançados comercialmente.

*Publicado originalmente em Carta na Escola