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Zé Pequeno, João Grilo, Sertanejo Manoel, Capitão Nascimento e outros personagens icônicos do cinema brasileiro devem tornar-se mais conhecidos entre os alunos dos ensinos Fundamental e Médio. Desde junho, uma alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), tornou obrigatória a exibição de, no mínimo, duas horas mensais de conteúdo audiovisual nacional para todas as escolas de educação básica do País.


A medida foi festejada por especialistas e cineastas, otimistas com a possibilidade de crianças e jovens pensarem de forma crítica a produção e a sociedade retratada no cinema nacional. “O que me parece importante é a possibilidade de se criar o hábito de ver filmes nacionais e, em consequência, de fruir e exercitar o pensamento. Ao mesmo tempo, o jovem estará adquirindo cultura e uma compreensão do mundo no qual está inserido”, aponta Maria Dora Mourão, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP e presidente da Sociedade Amigos da Cinemateca.

Entretanto, a professora ressalta que a simples obrigatoriedade não é suficiente para que a proposta chegue ao resultado desejado. A questão fundamental é como a lei será aplicada. “Esta ação pode ser implantada de algumas maneiras, por exemplo, inserindo uma disciplina de linguagem audiovisual na estrutura curricular das escolas ou por meio do uso de filmes e programas televisivos como instrumentos de apoio ao ensino das disciplinas consideradas tradicionais” diz.

Para Daniela França, executiva responsável pelo Instituto Buriti, idealizado pelos cineastas Luiz Bolognesi e Laís Bodanzky com objetivo integrar o cinema e a educação, o audiovisual tem um poder pedagógico enorme. “Hoje, a criança cresce vendo vídeos no YouTube, na internet, no celular. Logo, ao utilizar esta linguagem como uma ferramenta adicional para passar os conteúdos curriculares, você engaja o interesse do aluno, além de trazer à tona reflexões que não são debatidas no dia a dia da escola”, comenta.

Diretor dos aclamados Amarelo Manga (2002), Baixio das Bestas (2006) e Febre do Rato (2011), o cineasta pernambucano Cláudio Assis acredita que a norma é importante na medida em que contribui para a formação de um público interessado em consumir e apreciar a cultura nacional. “Hoje, o principal desafio do cineasta brasileiro é o gargalo que existe na distribuição dos filmes e na formação de uma plateia – e isto começa na educação.” Para Assis, a medida dará maior visibilidade ao cinema brasileiro, além de aproximar os alunos dessa área. “É possível que muitos saiam dali querendo fazer cinema”, diz.

Adirley Queirós, diretor de A Cidade É uma Só? (2012) e Branco Sai Preto Fica (2014), destaca, entretanto, a importância de o educador realizar uma curadoria que abranja a variedade presente no País. “Passar um filme de um artista brasileiro consagrado é ótimo, mas é também importante trazer artistas não tão conhecidos, filmes que trabalhem com outras perspectivas culturais, com outros olhares sobre a realidade brasileira.” Para o cineasta, é essa diversidade que enriquece as discussões despertadas pelos filmes. “Criam-se perguntas interessantes, como ‘que outras possibilidades existem de fazer cinema?, de retratar uma mesma realidade?’”, diz.

Mais do que trabalhar o conteúdo, a legislação é uma oportunidade de familiarizar os alunos com a linguagem narrativa do cinema. É o que defende Patricia Durães, criadora dos projetos Escola no Cinema e Clube do Professor na rede Espaço Itaú de cinemas. “Para um trabalho produtivo, não dá para apenas trabalhar a análise de filmes, tem de trabalhar o ‘fazer cinema’. A escola pode criar oficinas para mobilizar, inspirar as crianças ou um cineclube.”

Apesar dos impactos benéficos que a norma pode trazer, ainda existem desafios quanto à sua implementação. A começar pela infraestrutura audiovisual das escolas. De acordo com o Censo Escolar 2013, uma em cada cinco escolas do País não possui aparelhos de tevê. Quando a amostra são as escolas públicas, esse número sobe para 26%. Os dados também mostram que apenas 33,2% das escolas dispõem de retroprojetores. “Há esse desafio adicional a ser superado, que é o desafio técnico. Ainda existe um número grande de escolas que não têm equipamentos adequados para passar os filmes”, afirma Daniela.
Outro entrave é a familiaridade dos professores com o tema – nem todos estão aptos a fazer a curadoria dos filmes. Patricia lembra que a exibição do filme deve estar atrelada a um projeto pedagógico. “Não dá para usar o cinema de forma utilitária, para preencher vazios nas aulas. Esse é o erro mais frequente e o pior deles.”

Para Maria Dora, o ideal é que os professores possam ser orientados por meio de cursos de formação, no melhor uso dessa ferramenta. Daniela concorda: é preciso um treinamento específico na área, a fim de ensinar os professores a transpor o cinema para a sala de aula. “É a mesma história do tablet. Você distribui uma ferramenta, mas tem de ensinar o professor a usá-la de forma pedagógica, no caso, a desenvolver atividades específicas para trabalhar o cinema.”

Dicas para levar o cinema para a sala de aula

Por Patrícia Durães

1. Ampliar 
o repertório
O professor deve ver muitos filmes, de várias nacionalidades, de diferentes estilos e poéticas. Desta maneira, vai adquirir algum entendimento da linguagem do cinema e passará a perceber todos os aspectos da experiência cinematográfica, não somente o didático.

2. Diversificar 
o conteúdo
O professor não precisa estar preso aos filmes de conteúdo didático e documentários. A ficção e a animação são importantes para estimular o imaginário e abordar conteúdos e valores de outras maneiras.

3. Conhecer 
e ter propósito
Nunca apresentar um filme aos alunos sem o conhecimento prévio da obra e sem um propósito definido. O filme não pode ser usado para preencher uma lacuna de tempo, a visão de uma obra é sempre uma experiência inovadora, um momento de aprendizado. Não dá para separar o lúdico do conhecimento, como a educação da cultura e da arte.

4. Selecionar 
com critérios
Para saber qual filme escolher, como apresentá-lo e analisá-lo, o professor deve levar em consideração as características de seu grupo: faixa etária, nível educacional e contexto social.

Publicado originalmente em Carta na Escola