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Portal Minha Voz
Segundo a ONU, sete em cada 10 mulheres são ou serão vítima de violência.

No início deste ano, um importante passo foi dado para combater a desigualdade de gênero.


Com a sanção da Lei do Feminicídio, passou a ser definido como crime hediondo a morte violenta de mulheres em razão de violência doméstica ou discriminação causada pela condição feminina.

Basta um olhar sobre um dos muitos dados reunidos pela Organização das Nações Unidas sobre o tema para entender a relevância do decreto.

Segundo a entidade, 7 em cada 10 mulheres são ou serão vítimas de algum tipo de violência no decorrer de suas vidas.

Nesse cenário, romper o silêncio e oferecer apoio às vítimas colocam-se como ações fundamentais.

Com a intenção de facilitar esse percurso, surgiu o projeto Minha Voz, no ar desde dezembro de 2014.

Portal Minha Vox
É possível deixar seu depoimento ou ler o relato de outras mulheres vítimas de violência

“O objetivo é ser uma plataforma que funcione como um primeiro acolhimento da mulher vítima de violência, oferecendo tanto informações para que ela reconheça a situação que está passando e saiba quais opções dispõe quanto para poder compartilhar com outras usuárias, de modo anônimo, a experiência que sofreu”, explica a psicóloga e filósofa Daniela Silveira Rozados, idealizadora da ferramenta ao lado de Salete Silva Farias, professora do Instituto Federal do Maranhão, e Rafael Reis da Silva, estudante da Poli-USP.

Segundo Daniela, a mulher nesta situação, muitas vezes, tem seu sofrimento negado, não reconhecido, silenciado. Em outras, é ainda apontada como a responsável pelo que sofreu.

“Partimos do pressuposto que não cabe a ninguém, a não ser à própria vítima, dizer o que lhe dói e de que forma. Nesse sentido, nosso site pretende pôr a perspectiva da mulher como central: é violento o que ela sente como tal”, explica.

A gênese do projeto se deu em uma maratona de programação promovida pela Câmara dos Deputados, em 2014.

A Hackathon de Gênero e Cidadania, que reuniu hackers, programadores e inventores com a finalidade de criar projetos que transformassem informações de interesse público em soluções digitais, acessíveis a todos os cidadãos.

Da competição, a plataforma Minha Voz saiu vencedora na categoria “Combate à violência contra a mulher”.

Desde então, a iniciativa ganhou corpo e peso com o apoio de importantes instituições como o Banco Mundial, o Laboratório Hacker, a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados, a ONU Mulheres e o Grupo de Estudos de Gênero da Poli-USP (Poligen).

O procedimento para envio de um depoimento é simples, seguro e garante a anonimato da mulher.

Ao visitar a plataforma, a internauta vai se deparar com a seção Depoimentos, na qual poderá escolher entre duas opções: “quero desabafar”, onde pode contar sua história, ou “desabafo de outras mulheres”, onde pode ler a história de outras.

“Não é permitido que a mulher deixe um depoimento identificando a si mesma ou ao agressor, por motivos legais”, explica. A ferramenta já apresenta uma média de 23 acessos por dia e, até o momento, quatro depoimentos foram registrados.

“Esperamos que com a divulgação do site esse número aumente bastante.”

Outra funcionalidade importante do portal é reunir dados, a partir das respostas anônimas dadas, que possam gerar material que contribua para políticas públicas e pesquisas voltadas ao combate à violência contra a mulher.

“Procuramos considerar todas as formas de violência, desde as que nos fazem ficar mal emocionalmente, até as que nos machucam fisicamente.

Depoimento Minha Voz
Outros depoimentos podem ser lidos no portal Minha Voz

Então qualquer tipo de violência, seja ela moral, psicológica ou física, pode ser registrada no depoimento ou no questionário”, explica a psicóloga.

Nesse sentido, é um espaço para a denúncia e discussão de casos de lesão corporal, abuso sexual, assédio no transporte público, assédio moral, pornografia da vingança, lesbofobia, ameaças e perseguição, entre outros.

Para os próximos meses, a expectativa é ampliar ainda mais as possibilidades de auxílio. “Queremos implementar uma nova funcionalidade, o ‘Minha Voz responde suas dúvidas’, onde pretendemos responder as dúvidas que as usuárias possam ter”, conta Daniela.

Além disso, a ferramenta vem passando por reformulações para tornar-se não só mais consistente, mas também para que possa atender da forma mais segura o acolhimento da vítima, sua privacidade e a notificação anônima dos dados a respeito da violência.

“Temos muito trabalho pela frente. Ainda é necessário reformular várias coisas, pois ele aborda um tema bastante complexo e que conjuga um grande número de informações – desde redes de atendimento à vítima de violência, passando por questões legais, médicas, psicológicas e de assistência social.”

Além da inserção de todas essas informações, outro grande desafio está na comunicação com a usuária.

“Pretendemos que o contato da mulher com o site seja o mais confortável possível e, ao mesmo tempo, que ofereça informações que possam ser cruciais para sua integridade física e mental. Temos que aliar acolhimento num momento extremamente delicado e doloroso à busca rápida e acessível das informações que ela precisa”, analisa a psicóloga.