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Camila Lanes
A presidente da Ubes, Camila Lanes

Eleita presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes) há duas semanas, Camila Lanes, 19 anos, presenciou a violência policial em dois estados diferentes, ambos governados pelo PSDB, em 2015.


No primeiro, no Paraná, sentiu a repressão contra a greve dos professores da rede estadual. No dia em questão, 29 de abril, ao menos 200 docentes ficaram feridos durante ação da polícia no episódio conhecido como “Batalha do Centro Cívico”. Camila também foi ferida na perna por um estilhaço.

Em São Paulo, acompanhou protestos contra a reorganização escolar e foi detida na terça-feira (01), justamente durante uma manifestação contra a violência policial na Escola Estadual Maria José, na região central da capital. Ao menos 200 escolas continuam ocupadas em todo o estado. Camila já concluiu o Ensino Médio, mas é aluna do Ensino Técnico e pretende transferir o curso para São Paulo no próximo ano.

Da ocupação de outra escola estadual, a Moacyr Campos, na zona leste de São Paulo, a paranaense conversou com Carta Educação por telefone sobre o movimento de ocupações nas escolas e a atuação da Polícia Militar.

Carta Educação: Você é estudante da rede estadual?

Camila Lanes: Eu não sou de São Paulo, sou do Paraná, mas pretendo me transferir para a rede estadual no começo do ano que vem. Eu já concluí o Ensino Médio e agora curso o Ensino Técnico.

CE: Você pode relatar como foi a repressão ontem?

CL: Foram dois momentos muito loucos. O primeiro foi na avenida 9 de julho, onde estavam estudantes da Fernão Dias. A outra galera estava no Mazé (Escola Estadual Maria José) fazendo um ato justamente contra a truculência da Polícia Militar, porque na manhã de ontem a PM entrou na escola, bateu nos estudantes, jogou gás de pimenta, todas as coisas protocolares da PM de SP.   No ato da 9 de julho, uma estudante chamada Camila Rodrigues foi presa. Até teve uma notícia dizendo que eu tinha sido presa, mas na verdade eu fui detida. A estudante Camila da Fernão Dias é quem foi presa. Eu queria deixar isso claro. Eu estava no ato de Mazé e fui abordada pela PM e fiquei um tanto ali de molho com eles até que o ato fosse esvaziado. Era isso que eles estavam fazendo, nos encaminhando para o DP ou só enrolando para que o ato fosse esvaziado. Eu fui detida, mas não fui encaminhada para o DP.

CE: Como você começou a se envolver com a ocupação das escolas? Em que momento a UBES passou a acompanhar?

CL: Eu sou presidente da Ubes há duas semanas. A Ubes não conseguiu acompanhar desde o começo as ocupações, porque elas começaram exatamente na semana do Congresso da Ubes. Inclusive, a Fernão Dias e o Colégio Diadema foram ocupados justamente neste período. Após eu ser eleita, eu fiquei um dia em Brasília, mas no seguinte cheguei a São Paulo e já me encaminhei para as ocupações. O primeiro colégio que fui foi o Moacyr Santos, na Zona Leste. Eu fui detida no primeiro dia de ocupação. Esse foi o primeiro que acompanhei e estou aqui hoje participando das ocupações também.

CEComo você está vendo esse movimento de ocupação?

CL: É uma coisa muito digna. Não consigo resumir em um único adjetivo. É um sentimento muito convicto de cada estudante que está ocupando sua escola. Para além de ocupar a escola, eles estão cuidando e renovando o cenário estrutural da escola. E também há toda a conscientização que está acontecendo. No Congresso da UPES, por exemplo, o comportamento dos estudantes é diferente. É outro panorama. Na hora do almoço no Congresso, os estudantes almoçavam e deixavam os pratos pela mesa. Já nas ocupações, os estudantes almoçam e cada um lava o seu prato. São coisas pequenas que mudam o dia. São coisas pequenas. O estudante acordar cedo, tomar café na escola, fazer uma programação seguida à risca e a noite eles se organizarem em comissões de vigília. Isso significa um nível de conscientização maior do que imaginávamos na escola. A galera está realmente empenhada em debater a educação que queremos. E estão demonstrando isso claramente com as ocupações.

CE: Este ano o Paraná viveu uma greve de professores onde também houve repressão. Você vê ligação entre a violência contra o professor e contra o aluno?

CL: Sim. Eu acho que posso até aumentar. Não é só com o estudante ou o professor. É com a educação em geral. Nos ataques que são feitos pelos governos, o descaso não é só com os estudantes. A guerra declarada não é só contra os estudantes. A guerra é contra a educação. Em 29 de abril, que foi o maior exemplo de truculência que eu vi no meu estado, é uma demonstração clara da falta e diálogo e da falta de interesse e cuja única possibilidade de resposta é a PM. (No dia 29 de abril, mais de 200 professores ficaram feridos após atuação da PM durante a greve docente no Paraná)

CE: A estratégia de ir as ruas será mantida ou o foco será proteger as escolas que já estão ocupadas e impedir essa reorganização?

CL: É difícil falar pelos meninos das ocupações, porque não conseguimos ainda unir as 200 no mesmo espaço. Estamos justamente nesse sentido, unificar todas as ocupações e conseguir constituir uma assembleia ou um comando único para achar uma solução para tudo isso. De antemão, posso antecipar que o grito de guerra é o mesmo para todas as escolas: ocupar e resistir e não sair até que o governo retroceda. Ele tem uma única proposta para os estudantes, que é fechar escolas e a reorganização escolar. A nossa única proposta para ele é ocupar e resistir. É assim. Nós estamos trabalhando com o mesmo nível de diálogo do governo. E ele nos acusa de não dialogar, mas quem começou toda essa guerra foram eles. E não adianta, as únicas pessoas que conseguirão parar são eles também. Quando o Geraldo Alckimin e o Herman Voorwald acordarem e decidirem e declararem que não vão fechar escolas e reorganizar. Caso o contrário, desculpe, não tem diálogo.

CE: Você gostaria de falar de outro ponto que eu não tenha perguntado?

CL: Sim, eu gostaria de falar a truculência da PM. Hoje existe, infelizmente, uma falta de sensibilidade da PM para lidar com as ocupações. Nós temos casos de reintegração de posse feitas fora do horário permitido por lei, em que alunos  foram agredidos fisicamente. Além disso, tem escola ameaçada e estudante sendo perseguido por policial. Eles não sabem dialogar com os estudantes. O nosso pedido é que haja uma sensibilidade dessa categoria. Porque, assim como nós somos prejudicados, os filhos dos policiais também serão prejudicados e os próprios policiais também. Porque quem fecha uma escola, abre uma cadeia. Sem escola, a criminalidade na sociedade aumenta. Eu espero ver, assim como eu vi no Paraná, um grupo de 30 policiais que foram presos por se negarem a ir no dia 29 de abril para rua abrir fogo contra os professores e os estudantes. Os estudantes não estão vandalizando a escola e nós não estamos querendo morar na escola . Nós estamos querendo ter a certeza de ir para casa e a escola estar aberta. Só isso. É tão simples e parece que estão buscando uma complexibilidade para achar respostas para conseguir convencer a população que fechar a escola é bom.