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grupo quis mostrar iniciativas interessantes de escola no Brasil
Lovato (centro), ao lado dos codiretores Raul Perez e Anderson Lima

Na primeira cena do filme Quando Sinto Que já Sei, o educador Tião Rocha conta como fugiu da escola convencional em que havia matriculado a filha, quando, no primeiro dia de aula, a diretora classificou as crianças como “páginas em branco em que devemos escrever um belo livro”.


Foi um sentimento parecido que inspirou o jovem Antonio Sagrado Lovato, um dos três diretores, a fazer o documentário. Interessado em escolas de viés não conteudistas, ele frustrou-se quando viu que 80% dos visitantes da Escola da Ponte, em Portugal, eram brasileiros. “Comecei a pensar em como mostrar que havia iniciativas muito legais no Brasil também e ninguém precisava começar do zero”, conta na seguinte entrevista:

Carta Fundamental: Como surgiu o projeto?
Antonio Sagrado Lovato: Em 2010, aos 19 anos, eu era um estudante de Engenharia de Gestão vivendo frustrações com o formato da educação universitária e a própria carreira. Paralelamente, dava aula de Informática para um casal de idosos. Um dia eles me apresentaram Eurípedes Barsanulfo (1880-1918), minha principal inspiração. Ele viveu só 38 anos, mas criou modelos escolares considerados vanguardistas até hoje. Comecei a pesquisar tudo o que achava sobre ele e escolas não conteudistas. Fui para a Europa e visitei a Escola da Ponte, em Portugal. Fiquei impressionado que 80% das assinaturas no livro de visitas eram de brasileiros e comecei a pensar em como mostrar iniciativas legais aqui no Brasil. Encontrei o Raul (Perez, codiretor), meu amigo de infância, e começamos a compartilhar o sonho.

CF: O que esperam como resultado?
ASL: O filme é um diálogo, não passa nenhuma receita nem faz uma crítica direta. Esse sempre foi o principal objetivo, dialogar com o professor da rede pública. Queremos fazer uma provocação construtiva ao mostrar exemplos diferentes de Educação Básica. Esperamos inspirar os educadores a olhar para essa rede de práticas mais humanas que vem se fortalecendo.

CF: Quais foram as surpresas que vocês encontraram no percurso?
ASL: Visitamos dez escolas, cada uma trazia novidades interessantes, mas o que mais me marcou, sem dúvida, foi a simplicidade delas. Na maioria não há transformações materiais ou de recursos, a mudança é muito mais pela intenção de fazer algo que realmente transforme e amplifique o desenvolvimento do aluno.

CF: Um dos entrevistados diz que a escola não muda sozinha. Você concorda? 
ASL: Concordo que a escola não muda sozinha e está inserida na sociedade, mas acho que o sentido dessa frase também é de que as pessoas que fazem a escola precisam mudar de postura. Acredito na participação das comunidades e fiquei impressionado com o envolvimento dela nessas escolas realmente abertas aos pais.