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Em 'The Triple Package', os mexicanos, por exemplo, são incapazes de ser bem-sucedidos

The Triple Package, livro de Amy Chua, propõe uma explicação cultural para o êxito socioeconômico de certos imigrantes nos EUA. O sucesso desses grupos resultaria de três fatores: o complexo de superioridade, a insegurança e o controle dos impulsos. O primeiro define-se como a autopercepção de um indivíduo que se crê excepcional. A insegurança se traduz na insatisfação perene com as próprias realizações, a qual impediria o comodismo. E o controle dos impulsos tem a ver com a autodisciplina e o investimento no longo prazo.


Chua escreveu The Triple Package em parceria com seu marido, o judeo-americano Jed Rubenfeld. Professora da Yale University e descendente de chineses, Chua retornou ao tema principal do seu livro anterior, O Grito de Guerra da Mãe-Tigre, publicado no Brasil pela editora Intrínseca. De acordo com essa obra polêmica, diferenças culturais entre Oriente e Ocidente provariam por que as crianças criadas nos EUA segundo os valores chineses exibem um desempenho escolar superior ao das crianças submetidas à suposta indulgência do modo de vida norte-americano.

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The Triple Package, da Penguin Press, entrou na lista dos livros mais vendidos do New York Times na semana seguinte ao seu lançamento. A proposta de que elementos culturais promovem a ascensão socioeconômica foi interpretada como preconceito. Suketu Mehta, professor da New York University, fez uma das críticas mais contundentes a essa tese em um artigo da revista Time. “Tornou-se normal nos últimos dez anos comentar a suposta superioridade cultural de várias ‘minorias exemplares’. Eu chamo isso de novo racismo e levo para o lado pessoal”, escreveu Mehta, autor de Bombaim: Cidade máxima (Cia das Letras).

Nascido na Índia e radicado em Nova York, Mehta refere-se a Chua e Rubenfeld como “novos racialistas”. Atualmente, os adeptos de teorias discriminatórias são, argumenta o jornalista indiano, “muito espertos para difamar culturas particulares. Eles fazem um caminho contrário. Louvam certas culturas e as enaltecem como modelares. A implicação, por vezes explícita, por vezes sutil, é que outras culturas são inferiores e  incapazes de serem bem-sucedidas”.

Fundadora do blog Jezebel, a jornalista Anna Holmes definiu The Triple Package como “o velho lixo de sempre”. Ela relativizou o entendimento de Mehta ao afirmar que a perspectiva de Chua e Rubenfeld não representa uma novidade. Segundo Holmes, “o velho racismo” estaria apenas usando novas roupas. “Vamos não só reconhecer, mas explorar de alto a baixo a necessidade antiga, teimosa e ilusória desta nação de acreditar que o sucesso se apoia tão somente – ou sobretudo – no mérito, em vez de basear-se em um caldo complexo e desordenado de oportunidades, visibilidade, classe, privilégio corporal, capital social, resistência psicológica e, sim, raça, gênero e orientação sexual”, escreveu Holmes no website da Time.

A fim de provar sua tese, Chua e Rubenfeld selecionaram oito grupos: chineses, indianos, cubanos, judeus, nigerianos, mórmons, iranianos e libaneses. O casal apresentou estatísticas para comprovar a eficácia dos três fatores culturais. O complexo de superioridade seria a causa do sucesso dos nigerianos, porque são orgulhosos da “história próspera” dos seus ancestrais iorubas e ibos. Em 2013, embora representassem 1% da população negra dos EUA, os nigerianos eram de 20% a 25% dos estudantes negros da prestigiosa Harvard.

Quanto à insegurança, os alunos universitários de ascendência asiática sofrem com baixa autoestima, embora as suas notas sejam as mais altas. O amor próprio insuficiente vem da insatisfação dos pais com seu desempenho acadêmico. Além do conservadorismo sexual, os mórmons consideram a autodisciplina um dos pilares da sua religião. O comedimento impede que, sendo homens de negócios, eles consumam bebidas alcoólicas em festas e até almoços. A sobriedade os teria alçado aos cargos mais importantes de empresas como American Express, Black & Decker e Deloitte.

“É difícil generalizar. Talvez os autores de The Triple Package estejam abordando os efeitos e não as causas”, diz Laird Bergad, diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos do The Graduate Center. “Apesar de não ser marxista, posso afirmar que a classe social é mais importante para definir o sucesso dos imigrantes na América.” A renda familiar tem um peso considerável no êxito socioeconômico.

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Bergad alerta para o perigo de tratar um grupo étnico ou nacional como homogêneo. “Nem todos os judeus são ricos ou têm um nível alto de escolaridade. Nem todos os brasileiros que vêm para a América são trabalhadores braçais”, afirma. Embora Chua e Rubenfeld não tratem de imigrantes da América Latina, a não ser os mexicanos (exemplos de fracasso, segundo a teoria do The Triple Package), Bergad menciona estudos que mostram os brasileiros como o grupo mais rico, se comparada a renda familiar dos latino-americanos radicados nos EUA.

Mehta menciona o trabalho de Nancy Foner, socióloga especializada em imigração, que considera o “capital humano” dos pais o principal fator para prever conquistas dos filhos. O fato de terem uma comunidade estabelecida nos EUA, assim como pertencerem à elite do país de origem, garante um lugar privilegiado na nova pátria.

Pesquisadora do Migration Policy Institute (MPI), Madeleine Sumption afirma que, de fato, os indianos e os chineses são os imigrantes mais bem-sucedidos. “Ou porque eles são trabalhadores que dominam a língua inglesa e cuja permanência legal nos EUA é patrocinada pela empresa onde trabalham, ou porque são estudantes de famílias que podem pagar as suas inscrições, livros, cursos”, diz Sumption.

Os imigrantes de baixa escolaridade ou renda logo encontram ocupações com os menores salários, pois o mercado de trabalho nos EUA tem uma regulamentação mais flexível. “Mas, ao mesmo tempo, eles enfrentam sérias barreiras para ascender na sociedade norte-americana.” 
O status socioeconômico dita quem vai ter mais oportunidades.