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Créditos: EBC

Com informações Memorial Chico Mendes e Catraca Livre


Na esteira de polêmicas que cercam o governo Bolsonaro e seus representantes, na última semana, ganhou destaque na imprensa e nas redes sociais a declaração do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em entrevista ao programa Roda Viva, da Tv Cultura.

Ele declarou não conhecer Chico Mendes, após pergunta feita pelo jornalista e apresentador Ricardo Lessa, e ainda o chamou de “irrelevante. “Que diferença faz quem é o Chico Mendes nesse momento?”, devolveu aos jornalistas.

 

A declaração foi amplamente criticada por ambientalistas e oposicionistas e até mesmo por membros do governo, caso vice-presidente, Hamilton Mourão.

O Chico Mendes faz parte da história do Brasil na defesa do meio ambiente. É história. Assim como outros vultos passaram na nossa história — declarou o vice-presidente.

Chico Mendes

Chico Mendes nasceu no dia 15 de dezembro de 1944 no seringal Porto Rico, próximo à fronteira do Acre com a Bolívia, em Xapuri, estado do Acre. Filho de seringueiro passou sua infância e juventude ao lado do pai cortando seringa.

A vida no seringal moldou no jovem seringueiro um sentimento de revolta contra a injustiça. A atividade econômica de extração da borracha, na Amazônia, foi sempre pautada por relações de grande exploração. O aviamento, sistema de troca de mercadorias industriais pelo produto extrativo, criou uma sociedade em permanente miséria e endividamento. Rebeliões eram sufocadas pela violência de forças policiais. E um rígido regulamento de subordinação aos seringalistas, os donos dos seringais, punia com castigos físicos aqueles que ousavam desrespeitar.

Diferentemente dos outros seringueiros, porém, com 16 anos Chico aprendeu a ler, escrever e pensar com Euclides Fernandes Távora, refugiado político que morava próximo da colocação da sua família. Esse fato teve uma grande influência na sua vida. Quando começaram a ser formados os sindicatos no Acre, ele tinha consciência de que havia chegado a hora de mudar a realidade dos seringais. Em 1975 fez parte da diretoria do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia, o primeiro criado no Acre, presidido pelo combativo líder Wilson Pinheiro.

A situação do Acre era crítica na década de 1970. A política para a Amazônia implantada pelo regime militar gerou grandes conflitos fundiários. A substituição da borracha pela pecuária levou à especulação fundiária e ao desmatamento de grandes extensões de terras impedindo a permanência dos seringueiros na floresta.

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Em 1976, sob a liderança de Wilson Pinheiro, os seringueiros inventaram os “empates às derrubadas”: eles reuniam suas famílias, iam para as áreas ameaçadas de desmatamento, desmontavam os acampamentos dos peões e paravam os motosserras. Em decorrência desse movimento de resistência, em 1980, Wilson Pinheiro foi assassinado dentro da sede do Sindicato, em Brasiléia.

Em 1983, Chico foi eleito presidente do STR de Xapuri e intensificou sua luta pelos direitos dos seringueiros, pela defesa da floresta e pela luta política contra a ditadura e pelos direitos dos trabalhadores.

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A convivência de Chico com a floresta e o conhecimento que adquiriu sobre como obter da natureza os meios de vida instigaram sua curiosidade e deram origem a uma teoria que seria, mais tarde, comprovada: a de que os benefícios derivados da manutenção da floresta são maiores do que o valor que se obtém com a sua derrubada.

Foi essa matriz ideológica formada pelo sindicalismo, pela defesa dos direitos humanos, pelo respeito à floresta que marcou a identidade de Chico Mendes como líder político e que transcendeu sua localidade e conquistou o respeito internacional.

Em 1985 Chico liderou a organização do primeiro Encontro Nacional dos Seringueiros. Mais de 100 seringueiros criaram o Conselho Nacional dos Seringueiros como entidade representativa e elaboraram uma proposta original de reforma agrária: as Reservas Extrativistas.

Depois do Encontro Nacional, a luta dos seringueiros começou a ficar conhecida. Sua projeção internacional foi resultado do documentário produzido por Adrian Cowell, cinegrafista inglês que filmou o Encontro Nacional e decidiu acompanhar o dia a dia do trabalho do Chico. Em 1987 ele lançou internacionalmente o documentário “Eu Quero Viver” onde mostrou a luta de Chico para proteger a floresta e os direitos dos trabalhadores.

Entre 1987 e 1988 Chico Mendes ganhou o Global 500, prêmio da ONU, na Inglaterra, e a Medalha de Meio Ambiente da Better World Society, nos Estados Unidos e deu entrevistas aos principais jornais do mundo. Jornalistas e pesquisadores o visitaram nos seringais e difundiram suas ideias pelo planeta.

Mas, ao mesmo tempo em que Chico conquistava o respeito internacional, era mais ameaçado em Xapuri. Os empates terminavam em prisão. As promessas de regularização dos conflitos fundiários não se concretizavam. A ideia de criação de reservas extrativistas se arrastava na burocracia federal.

Em 22 de dezembro de 1988, em uma emboscada nos fundos de sua casa, ele foi assinado a mando de Darly Alves, grileiro de terras com história de violência em vários lugares do Brasil.

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A repercussão foi imediata no mundo inteiro. A indignação foi forte e se refletiu em seguida no Brasil. A imprensa brasileira, que até então ignorara a luta dos seringueiros e nunca abrira espaço para Chico Mendes, procurou recuperar o tempo perdido. A forte reação e pressão da opinião pública levaram à condenação dos criminosos em 1990, fato inédito na justiça rural no Brasil.

As primeiras Reservas Extrativistas foram criadas em março de 1990 eliminando conflitos, concretizando o sonho de Chico Mendes de ver a floresta valorizada e assegurando uma perspectiva de futuro aos filhos dos seringueiros e extrativistas.

O principal legado de Chico Mendes são as Reservas Extrativistas, que representam a primeira iniciativa de conciliação entre proteção do meio ambiente e justiça social, antecipando o conceito de desenvolvimento sustentável que surgiu com a Rio 92.

Ricardo Salles

Ricardo Salles, por sua vez, não é ambientalista, é advogado. Natural de São Paulo, em 2018, ele disputou, sem sucesso, uma vaga para deputado federal pelo Partido Novo.

Salles preside o Movimento Endireita Brasil, que defende uma nova direita no cenário político brasileiro.

O ministro foi condenado em primeira instância pela Justiça por favorecimento de empresas de mineração, adulterando mapas de zoneamento do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental (APA) do Rio Tietê, enquanto foi secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo.

Salles é investigado pelo Ministério Público Estadual por intermediar processos administrativos e outras atividades supostamente ilícitas na Junta Comercial de São Paulo.

O nome de Ricardo Salles foi indicado à pasta do Meio Ambiente por várias entidades ligadas ao setor produtivo, como o agronegócio, construção civil, comércio e indústria. Ele recebe apoio da Sociedade Rural Brasileira e a União da Agroindústria Canavieira (Unica) e também de setores da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

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O ministro defende o Projeto de Lei dos Agrotóxicos, sendo a favor da agilização da aprovação do uso dos defensivos agrícolas, a maioria deles proibidos na Europa e Estados Unidos.