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Obra de Monteiro Lobato

A produção de Monteiro Lobato para o público infantil é célebre e uma referência na cultura do Brasil. Nesse caso, para além das pretensões artísticas, Lobato visava ao ensino, daí o teor explicitamente pedagógico de vários de seus trabalhos. Era um homem de opinião e não pretendia ocultar seus pontos de vista desse público em formação. Era também alguém de ação e tinha muitas proposições para o País: um programa que desfilava em seus escritos, como evidencia a Geografia de Dona Benta, lançada pela Editora Globo.


Essa geografia é um híbrido, pois mobiliza o universo ficcional de Lobato a serviço de uma área do saber escolar. Obras de ficção podem se sustentar mais no tempo, no que dependem muito da qualidade do escritor. No entanto, as que trabalham com o conhecimento tendem a ser perecíveis, mesmo que o autor seja consistente. Isso decorre da própria marcha do conhecimento, marcada por evoluções e rupturas que por vezes tornam letra morta elaborações e discursos que reinavam incontestes. A Geografia de Dona Benta foi superada não apenas quanto a informações factuais. Noutros aspectos, porém, permanece vigorosa e com um valor que merece destaque.

Os livros didáticos contemporâneos são manuais utilizados na rotina escolar de aulas e outras atividades. Esse uso, porém, não justifica que eles sejam um “gênero que não se lê”. Não são lidos pelos alunos, pois são tratados apenas como usuários e operadores. Boa parte desses livros é escrita para os professores, já que propõem estratégias e dinâmicas de aula. Nesse aspecto, a Geografia de Dona Benta leva uma vantagem incrível: pressupõe um leitor. As chances de que um aluno espontaneamente, por mera curiosidade, apanhe um livro didático e o leia são quase nulas. Com o texto de Lobato, elas são muito maiores.

Embora o caráter lúdico da narrativa e o encantamento dos seus personagens contem a favor, o maior atraente é que o autor escreve para a criança e/ou o adolescente. Outro aspecto nada desprezível é a interação criativa com o leitor, a quem não subestima jamais, como muitas obras didáticas o fazem em nome de um “etapismo etário” e de um corolário de preconceitos (inclusive culturais) que insistem em se instalar. Nenhum tema é contornado em razão da incapacidade do leitor em compreender. Ao contrário, Lobato assume toda a responsabilidade de encontrar meios para esclarecer. Ele possui recursos para isso e, ao fazê-lo, deixa à luz do dia o estilo de um escritor. O modelo atual de livros didáticos inibe estilos e autores.

Sua linguagem é clara, direta e sem concessões. É a linguagem do autor que se relaciona com os leitores e não uma mimetização de uma que seria a do suposto leitor. Os ganhos linguísticos são importantes. Outro elemento a se ressaltar é o trânsito de uma sábia professora, que é Dona Benta, por várias áreas (História, Línguas, Ciências Naturais, Matemática) sempre que o tema obriga – prática ainda tímida em nossas salas de aula, ainda que o discurso pedagógico seja outro. Acrescente-se a criatividade explicativa, como no eixo em torno do qual a Terra gira, ainda que esse não exista e seja apenas uma vareta espetada na laranja.

A despeito dessas qualidades, não há como não analisar, segundo parâmetros contemporâneos, os conteúdos, as teses e as visões de mundo que Lobato veiculou. É claro que, ao entrar no mundo do conhecimento formal, o escritor se expõe mais que numa obra ficcional “pura”. Daí um perfil bem mais escancarado do que seria comum num texto ficcional.

Um dado interessante: atualmente, os livros didáticos que são oferecidos ao sistema de ensino público só podem ser adquiridos após avaliação do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Por hipótese, se Geografia de Dona Benta concorresse no edital, seria reprovado. Aliás, como todos os da época. Com exceção de algumas teses de Lobato – por vezes obsessivas –, a obra é calcada nos livros didáticos de então. Esses refletiam peculiaridades de uma disciplina com forte influência do evolucionismo biológico (que facilmente descambavam para o racismo) e do determinismo ambientalista. Uma geografia assim perdeu prestígio hoje, mas era levada a sério na época, inclusive por Lobato.

Daí a naturalidade e a boa vontade com que ele trata o colonialismo: os ingleses e seu império refletem um povo de cérebro e que leva sua civilização avançada a outras áreas do planeta. Essa visão é um “clássico” que ainda tempera nossa cultura ocidental, mas que não pode ser mais veiculada sem as devidas relativizações de pesquisas científicas que tornam desconfortáveis posições como essas.

Essa visão de civilização superior operando (ou que deve operar) o desenvolvimento está presente, como o sal num prato de comida, em toda a narrativa de Lobato: áreas desenvolvidas do Brasil (Rio Grande do Sul) e do mundo (Estados Unidos) são de climas favoráveis ao homem branco. Não por racismo, mas porque esse branco é o europeu civilizador (à exceção do português, que se adapta a qualquer clima). Jagunços de Antonio Conselheiro são fanáticos, não raciocinam, apenas têm fé (isso a despeito de terem várias vezes – e com meios precários – derrotado forças governamentais mais bem  armadas, como o próprio Lobato reconhece, afinal, era leitor do “genial Euclides da Cunha”). Tia Nastácia não consegue aprender inglês. Pobres selvagens (tantos os índios visualizados por Cabral quanto os amazônicos), mesmo em sua selvageria, são os únicos a resistir às agruras do clima e da fauna etc.

Ele se desmancha pelos EUA, maiores economia e civilização do mundo, e menciona a proporção maior de brancos em relação à de negros no país, dizendo que não se integram. É verdade que não chega ao cúmulo de Aroldo de Azevedo, catedrático que reinou vários anos na Universidade de São Paulo e que em seus livros didáticos, utilizadíssimos em nossas escolas, propugnava o branqueamento para a consecução do desenvolvimento (dizia, nos anos 1950, que já íamos bem nessa direção, pois éramos a nação do Hemisfério Sul com mais habitantes brancos).

Em modelos de desenvolvimento, Monteiro Lobato tem entendimentos também bastante marcados por seu tempo. O principal é da integração necessária entre o crescimento de um país e seu patrimônio de recursos naturais, desde solos, madeiras, agropecuária e extrativismos até e especialmente (essa é sua obsessão) as jazidas de petróleo. Nesse caso ele não era (e talvez nem pudesse ser) preocupado com a dilapidação irracional de recursos e com as consequências de seu uso.

Certo teor de determinismo geográfico percorre o texto sempre que se caracteriza um personagem humano numa região: o gaúcho existe por causa do clima, da topografia e da criação de gado, que, por sua vez, torna-o carnívoro, sanguíneo e valente. Sem o ambiente é um peixe fora d’água. Isso é um raciocínio que ele esposa completamente e advém da geografia regional da época. O gênero privilegiava escalas de observação de ampla dimensão– continentes e países inteiros e grandes regiões internas – e não detalhes ou realidades locais. Por isso, a geografia regional analisava pouco as cidades.

Em Geografia de Dona Benta, para descrever as realidades na escala continental os personagens vão até a Lua para ver o globo. E, para enxergar outras regionais e menores, observam-nas a partir dos oceanos, do veleiro Terror dos Mares. Essa visão genérica e de escala regional, alimentada por raciocínios, representações e teorias da época e temperada pelo estilo e pela ficção de Lobato, tem valor se a soubermos desconstruí-la com cuidado e critérios. Como, aliás, se deve fazer com trabalhos interessantes e instigantes, mas que tiveram qualidades problematizadas pelo tempo.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental