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Monteiro Lobato

O primeiro livro que li foi o primeiro grande livro de minha vida. Um tio-avô, grande leitor, me presenteou com Memórias da Emília, de Monteiro Lobato. Havia sido o livro da infância dele, uma primeira edição com as ilustrações de Belmonte, cheias de espírito.


Eu estava no primeiro ano do grupo escolar, em 1952, e mal acabara de dominar a leitura de modo fluente. Memórias da Emília abriu-me todas as portas para o gosto de ler, que se transformou numa gulodice devoradora, muito forte até hoje.

Memórias da Emília não envelheceu em nada. Mistura, feliz, o cinema, Shirley Temple, com a mitologia grega, com Peter Pan e o Capitão Gancho, com Popeye e com reflexões implacavelmente críticas. Tia Nastácia – personagem tão incompreendida em nossos dias de obtusa militância politicamente correta, com tesouros de sabedoria (que maravilhosa iniciação às lendas brasileiras é Histórias de Tia Nastácia!), de saber intuitivo, genial cozinheira, está muito presente.

Lobato detestava nacionalismos. Na História das Invenções, creio, Dona Benta, desconsolada com os desastres da Segunda Guerra Mundial, ouve Pedrinho dizer que todos aqueles horrores se passam muito longe, na Europa. Ela tem, então, uma frase sublime, gravada em mim para sempre: “Não, meu filho, a humanidade é uma só”.

Memórias da Emília ensinou-me a inteligência estimulante e crítica, de Lobato. No final, as palavras de Emília soam como resposta premonitória às críticas atuais e descabidas sobre ele: “Dizem todos que não tenho coração. É falso.

Tenho, sim, um lindo coração – só que não é de banana. Coisinhas à toa não o impressionam; mas ele dói quando vê uma injustiça. Dói tanto, que estou convencida que o maior mal deste mundo é a injustiça.

Quando vejo certas mães baterem nos filhinhos, meu coração dói. Quando vejo trancarem na cadeia um homem inocente, meu coração dói. Quando ouvi Dona Benta contar a história de Dom Quixote, meu coração doeu várias vezes, porque aquele homem ficou louco apenas por excesso de bondade. O que ele queria era fazer o bem para os homens, castigar os maus, defender os inocentes. Resultado: pau, pau e mais pau no lombo…”

Lobato foi o Quixote do seu tempo.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental