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Redação do Enem
O tema da redação do Enem em 2015 foi a persistência da violência contra a mulher

A reação ao tema escolhido para a redação do ENEM deste ano, a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira, tomou as redes assim que anunciado, no início da tarde de domingo.


O Inep, instituto que elabora a prova, já citara no dia anterior Simone de Beauvoir. O fato é que colocar em pauta um tema que muitas vezes escapa da sala de aula – mas que raramente escapa das vidas das milhões de brasileiras que sonham com o ingresso no ensino superior – foi um ato de coragem.

Aliado ao movimento #meuprimeiroassédio, lançado pelo Think Olga, para trazer à luz histórias de assédio vividas durante a infância cabe um momento de pausa para reflexão.

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O movimento foi lançado em protesto ao assédio atualmente sofrido por uma menina de 12 anos, participante do programa Master Chef. E as histórias não se limitam à história de Valentina.,Quem clica na hashtag lê histórias de embrulhar o estômago.

Meninas de oito, nove, às vezes seis anos. Meninas que se culpam até hoje por estarem usando short de lycra, não de jeans.

Meninas que acharam que seus assediadores tinham pedras nas calças, meninas que levaram anos para entender suas histórias – mulheres que tomaram coragem para contá-las.

O impacto da violência a distintos grupos de gênero (homens, mulheres, meninos e meninas) é ainda pouco explorado, particularmente em contextos como o do Brasil, caracterizado por altos índices de violência urbana.

Nestes casos, dados, como o número de homicídios são os mais utilizados. No entanto, estes podem relativizar a violência sofrida pela mulher, já que elas não são a maioria das vítimas.

O fato da maioria dos crimes contra vida no país terem como vítimas membros do sexo masculino parece deixar em segundo plano a violência sofrida pelas mulheres.

Elas podem até não ser mortas, mas vivem o terror de uma vida marcada pela contínuo reinforço violento de uma hierarquia entre os sexos, que, como a filósofa tão citada no sábado nos lembra, não tem nada de natural.

Na verdade, mesmo as mortes de homens jovens e negros – considerados vulneráveis a sofrer e perpetrar violência por conta de seu sexo, raça e idade – não deixa também de ser uma violência de gênero. Mas voltemos às mulheres.

A violência contra a mulher não é independente de outras formas de violência e normalmente se instaura em ambientes caracterizados por relações de gênero desiguais.

No Brasil, a construção dos espaços e sua arquitetura refletem divisões de gênero típicas do ocidente – a mulher na casa e o homem na rua. Com a violência letal contra mulheres não é diferente. Homens são mortos na rua, mulheres em casa.

O mesmo se verifica para casos de estupro, por exemplo, que ultrapassaram a marca dos 47 mil em 2014, ano em que contabilizamos 58 mil casos de mortes violentas. Isso equivale a 1 estupro a cada 11 minutos.

Cabe lembrar que muitos casos de estupro jamais são denunciados à polícia, por vergonha ou contínua coerção e, portanto, esse número pode ser muito maior.

Na realidade, acredita-se que somente entre 10% a 35% destes casos são notificados à polícia. Essas particularidades dos crimes de gênero, muito ligados a valores morais, impõem importantes desafios aos formuladores de políticas públicas, que precisam desenvolver indicadores sensíveis e buscar soluções adequadas às diversas formas e contextos onde esse tipo de violência ocorre, inclusive em ambientes privados. Afinal 90.2% de mulheres têm medo de sofrer violência sexual.

Mortas em casa – o número de mulheres vítimas de homicídios aumentou 111% de 1980 até 2010 – estupradas por conhecidos, assediadas em todos os lugares e esquecidas na sala de aula, mulheres vem sofrendo violência e não é de hoje. Mas temos sofrido sozinhas.

Apesar da Lei Maria da Penha, que completa uma década ano que vem, já ter gerado algumas melhoras, ainda não tivemos um debate sincero sobre o tema enquanto sociedade.

8 entre 12 Estados que já aprovaram planos de educação, retiraram dos mesmos qualquer menção a debates de gênero e violência sexual.

Há quem diga até que pioramos – ou a reação derrogatória ao #meuprimeiroassédio é apenas a demonstração acirrada de uma pequena minoria que ainda não reconheceu que perde forças. Acusam a prova de doutrinação, zombam da violência sofrida por milhões de brasileiras.

E o que é pior, estas reações vão ao encontro do que propõem os deputados que têm referendado o projeto de lei 5069, de 2013, e que violentará duplamente mulheres vítimas de estupro. Primeiro, claro, vem o estupro, depois a proibição do aborto ou remédios que alegam ter finalidade abortiva.

Mas a polarização e violência contidas nessas manifestações diminuem face a uma crítica realmente importante à escolha do tema por parte do Inep.

Aposto que várias candidatas, dentre as mais de 4 milhões de mulheres que fizeram o ENEM, ao abrir aquele caderno de perguntas, viram suas próprias histórias representadas nas palavras “persistente violência contra a mulher,” talvez pela primeira vez.

Há quem de sua experiência pessoal derive força. Para essas, o desafio terá sido ater-se às 30 linhas. Mas também há aquelas que ainda não estão prontas para falar sobre o que viveram.

Para elas, a dificuldade de ultrapassar a barreira do rascunho para obter uma boa nota, paralizadas pelo trauma, pode ter representado a perda de uma vaga na universidade no ano que vem. Mas isso não será sua culpa.

É mais um ponto a ser posto na conta da sociedade, que não consegue abrir espaço para tratar deste e de outros tantos assuntos que silenciosamente compõem nosso cotidiano.

* Renata Giannini é pesquisadora sênior do Instituto Igarapé, onde trabalha com a pauta de mulheres, paz e segurança. Ana Paula Pellegrino é pesquisadora do Instituto Igarapé, onde trabalha com a pauta de política de drogas e segurança pública.