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Tradição do sineiro em Minas Gerais

Em São João del Rei, cidade setecentista de Minas Gerais, os sinos parecem falar. Além de marcar o tempo, são seus toques e dobrados, emitidos do alto das torres das igrejas, que informam aos moradores sobre os acontecimentos de interesse coletivo: uma procissão, um falecimento, uma festa, um parto, um incêndio.


A tradição, também presente nas cidades mineiras de Ouro Preto, Congonhas, Mariana, Diamantina, Sabará, Serro, Catas Altas e Tiradentes, é uma referência importante para a rotina citadina e identidade local. Em 2009, foi declarada patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Memória e criatividade estão no cerne do ofício dos sineiros. Eles conhecem de cor o repertório de toques e são responsáveis pela transmissão da habilidade para os mais jovens. Os mais experientes costumam incorporar novas técnicas ao trabalho, aumentando seu legado. Mas, apesar de emblemática, a tradição corre o risco de desaparecer em face da praticidade oferecida pelos meios de comunicação mais modernos. Logo, registrar essa linguagem em diferentes mídias mostra-se uma estratégia importante para sua perpetuação.

Nesse escopo, surgiu o projeto Som dos Sinos, lançado em maio de 2015, que congrega recursos multimídia que possibilitam ao internauta escutar áudios de badaladas, visualizar fotografias e pequenos filmes sobre o ofício. Com a proposta de difundir e valorizar a linguagem deste instrumento entre as novas gerações, a plataforma reúne mais de 40 toques de sinos, que identificam ritos e horários sacros das nove cidades mineiras e permite um maior diálogo e aproximação cultural entre as localidades mapeadas.

O projeto, que conta com o patrocínio da Eletrobras e Furnas por meio da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, também propõe mudar a forma com que moradores e visitantes se relacionam com o toque dos sinos e o ofício do sineiro.

“O nosso interesse é pensar em produtos que possam gerar a valorização desse patrimônio e maior acesso a esses bens, tanto pelos moradores quanto pelos turistas. Acreditamos que a combinação entre memória e novas mídias, a partir de um projeto interativo, possibilita um rico diálogo entre as tradições culturais e as novas gerações”, explica a documentarista Marcia Mansur, codiretora do projeto ao lado da também documentarista Marina Thomé.

Uma das seções da plataforma é a chamada “Sons”, que reúne em uma onda animada mais de cem faixas de áudio com toques de sinos que podem ser baixados sobre licença creative commons (livre e gratuita), além de depoimentos da comunidade. Outra seção de destaque é a VideoCartas, totalmente interativa. Nela, o internauta pode escolher uma sequência de vídeos e uma trilha sonora para serem processadas conjuntamente e, desta maneira, contar uma história. “Ao fim, o site gera um vídeo de 30 segundos que pode ser compartilhado pelo internauta”, conta Marcia.

Além do site, a iniciativa abrange um aplicativo para celular, um documentário interativo com foco no público jovem e intervenções públicas com projeções de áudios nas cidades mapeadas pela plataforma. O app, disponível para download gratuito para os sistemas iOS e Android, funciona como um áudio guia a céu aberto por meio do qual o usuário pode escutar diversos toques de sinos com GPS de localização para igrejas.

Já no documentário, com duração de 60 minutos, é apresentada uma abordagem plástica dos sinos e dos toques em fachadas de igrejas e espaços culturais. Desta maneira, mesclam-se as fronteiras entre o patrimônio cultural edificado, o patrimônio imaterial e as noções de preservação. “Por sua natureza dinâmica e viva, a representação audiovisual do Toque dos Sinos, impressa nas fachadas, transforma-se em uma experiência que promove o diálogo entre gerações e desperta memórias coletivas”, explica Marcia.

Agregando todas estas funcionalidades, os dispositivos oferecem um potencial imenso para o trabalho em sala de aula. “Disciplinas que enfocam os estudos culturais podem se beneficiar deste conteúdo online gratuito sobre o patrimônio imaterial brasileiro. Abre-se um universo para o imaginário da cultura brasileira ao mesmo tempo que são trabalhadas ferramentas interativas de produção de conteúdo por parte dos próprios alunos por meio da seção VideoCartas”, exemplifica Marcia.

Em outras palavras, o conteúdo é um convite para trabalhar questões relacionadas à memória, tradição, identidade, diversidade e patrimônio.

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Som dos Sinos