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Kindle
Ao contrário dos jornais, os livros infantojuvenis impressos ainda atraem os jovens

Qual o destino do livro físico diante de um mundo cada vez mais tecnológico? Desde a criação dos leitores de livros digitais, que começaram a desembarcar no Brasil em 2009, as apostas eram desfavoráveis ao impresso e viam como tendência o crescimento dos e-books. O volume crescente de usuários de internet móvel e o crescimento nas vendas dos tablets apontavam para um novo modelo de leitura – mais interativo, barato e com menos peso para carregar. As previsões, porém, começam a mudar.


Uma pesquisa do Instituto Nielsen sobre o setor surpreendeu no início de 2015. Segundo o levantamento, em 2014, as vendas de obras em papel cresceram 2,3% nos Estados Unidos e 5% na Austrália, em comparação com os números de 2013. No Reino Unido, a queda de apenas 1,3% foi considerada uma recuperação diante do encolhimento do mercado nos últimos anos. Dois episódios ocorridos na virada do ano ilustram como as previsões para os livros impressos acabaram tendo um destino diferente do esperado.

Primeiro: 2015 era considerado o ano em que os e-books, ou livros digitais, venderiam mais que os de papel pela maior rede de livrarias do Reino Unido, a Waterstones. A previsão havia sido feita em 2013, quando a marca começou a vender o Kindle, dispositivo leitor da gigante editorial Amazon. Os números do Natal de 2014, porém, mostraram um aumento de 5% na venda de impressos em comparação a 2013, enquanto os e-books estacionaram.

Segundo: o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, tornou pública sua resolução de ano-novo de ler dois livros por mês ao longo de 2015 – e convidou seus seguidores a fazerem o mesmo. Zuckerberg criou a página A Year of Books em sua própria rede social, com o objetivo de gerar uma discussão sobre a leitura coletiva das obras. O primeiro livro escolhido, The End of Power, de Moises Naim, esgotou nas livrarias em menos de uma semana.

A justificativa para a resolução foi vista com potencial para impactar as vendas de obras em geral: “Os livros permitem explorar profundamente um tópico e mergulhar nele de um modo que a maioria das mídias atuais não permite”, afirmou Zuckerberg na nova página, capaz de reunir 250 mil seguidores e milhares de compartilhamentos a cada postagem com apenas duas semanas de vida.

“É fantástico o poder de uma leitura social dessa escala”, comentou a diretora livreira da Câmara Brasileira do Livro (CBL), Susanna Florissi, para quem os conteúdos digitais ainda são um mercado novo demais para previsões sérias. “As apostas foram feitas colocando o dedo para fora, para ver de que lado o vento soprava. Ainda é uma novidade para todos”, diz a especialista, presente nas últimas 13 edições da Feira do Livro de Frankfurt, um dos principais fóruns de debate sobre o assunto.

Em sua opinião, os conteúdos digitais são um caminho sem volta. No entanto, ainda é cedo para dizer se os e-books substituirão parte das obras impressas, se complementarão os conteúdos do livro físico ou se tornarão um parceiro na difusão da leitura. “Pode ser que, com mais acesso à informação, mais gente se interesse por ler a ponto de crescer também a leitura impressa.”

O fenômeno verificado pelo Instituto Nielsen pode ter duas explicações, na visão de Susanna. A primeira seria nada menos do que o retorno ao livro de papel por parte daqueles que compraram os dispositivos eletrônicos, mas não se adaptaram. Neste caso, há a expectativa sobre quais serão os hábitos de leitura dos adolescentes e jovens de hoje no futuro. Ao contrário do que ocorreu com jornais e revistas impressas, que perdem público jovem para os veículos online, os livros infantojuvenis continuam sendo vendidos em papel. “Ainda não se sabe como essa geração leitora, muito mais familiarizada com as telas, vai ler literatura adulta no futuro, quando elas estiverem pagando pelos equipamentos e livros”, explica Suzanna.

Outra explicação a ser considerada é a crise mundial, bastante severa nos países do estudo. “Estive na Europa em 2014 e vi gente economizando em cafezinho, então acho bem possível que repensem a compra de um dispositivo leitor”, comenta a diretora da CBL.

A situação no Brasil, porém, é diferente. Enquanto na Europa, os números de livros digitais vendidos representam 20% do total, por aqui ainda não são significativos. Pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) para a CBL com balanço do setor em 2013 apontava que os e-books respondiam por apenas 0,18% das vendas e 0,23% do faturamento. Os pequenos porcentuais, no entanto, já eram o triplo em comparação ao ano anterior.

“Vamos começar a ver grandes transformações agora que tivemos o segundo natal em que tablets e smartphones foram os presentes mais solicitados”, explica Suzanna. “Por enquanto, são equipamentos para redes sociais e fotos, mas trata-se de um dispositivo que abre portas para a leitura digital.”

Michael Cairns, presidente da Publishing Technology, maior provedor para editoras do mundo, comentou o “fim da briga entre impresso e digital”. Ele publicou um artigo em que lista quatro tendências para o setor em 2015: crescimento de editoras híbridas, que vendem e distribuem conteúdo para campanhas publicitárias e circulam em diferentes meios; leitura por celular; venda do digital e do impresso diretamente das editoras para o consumidor; e programas de assinaturas em que o consumidor recebe um pacote de livros por ano.

Essa última, embora tenha sido iniciada pelas vendedoras de e-books, ganhou versões para impressos em todo o mundo, como os pacotes do Leiturinha e A Taba, no Brasil. “Leitores e editores pararam de se preocupar com a revolução digital e agora estão olhando para a melhor forma de maximizar o meio”, escreveu Cairns.