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Peirol Gomes
Peirol em uma das visitas valorizadas pelos bolsistas

Nos últimos dois anos, quase 70 mil estudantes saíram do Brasil para cursar parte do Ensino Superior no exterior. Até 2016, outros 30 mil devem arrumar as malas e passar um ano fora do País custeado pelo programa Ciência sem Fronteiras. Oficialmente, o programa federal tem por objetivo promover o intercâmbio de ideias e fomentar a internacionalização da formação superior no Brasil. Um dos egressos, porém, acredita que o potencial dessas 100 mil pessoas pode ser muito maior.


“Devemos juntar experiências para mudar o País”, defende Peirol Gomes, 25 anos, criador do site MyCSF. Recém-formado em Engenharia de Produção pela Universidade Federal do ABC (UFABC), ele pretende usar o portal para compartilhar o conhecimento adquirido pelos bolsistas com a população em geral.

A ideia surgiu na reta final da bolsa de estudos, em 2013, durante uma atividade desenvolvida no curso de Tecnologia da Universidade de Stanford. Durante o intercâmbio, o engenheiro também passou nove meses na Universidade do Alabama, visitou empresas como os gigantes de tecnologia Google e Apple e cursou dois meses iniciais de aperfeiçoamento do inglês.

Como parte da avaliação, ele e os colegas deviam projetar um aplicativo e, como era o assunto que mais lhes interessava naquele momento, resolveram construir uma plataforma para reunir os beneficiados do Ciência sem Fronteiras. “A gente via alguns bolsistas se destacando, aproveitando cursos muito bons e achava que os demais, e até mesmo quem não teve oportunidade de ganhar uma bolsa, podiam aproveitar e multiplicar isso”, diz o mineiro de Borda da Mata. Para ele, deixar de ouvir o que os estudantes aprenderam é um desperdício equivalente a uma fábrica que manda os funcionários para conhecer as empresas líderes de mercado no mundo e, na volta, não pede que se reúnam e compartilhem o que viram com os colegas.

“O governo brasileiro vem fazendo um excelente trabalho, enviando milhares de bolsistas para o exterior para que adquiram essa vivência, aprendam uma nova língua e estudem nas melhores universidades do mundo. Entretanto, ao retornar ao Brasil, os bolsistas não são aproveitados como deveriam”, afirma no manifesto de criação da plataforma.

Lançado em 2014, o portal recebeu divulgação no site da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e inscrições de 12 mil estudantes envolvidos com o programa. Destes, 6,7 mil estão neste momento no exterior, 2,5 mil aguardam bolsas e 2,8 mil já voltaram.

A intenção de Gomes é socializar as pesquisas realizadas, conteúdos e caminhos para estudar, mas, para reunir os “CSFers”, como chama os bolsistas, foram incluídos inicialmente assuntos relacionados à inscrição e como obter melhor aproveitamento da passagem por instituições estrangeiras. “Percebi que era muito difícil chamar a atenção e reunir o pessoal que já voltou. Então, resolvi atrair para o grupo quem ainda está buscando uma vaga ou está no meio do programa e tentar mantê-los para que deem retorno sobre seu trabalho depois”, conta.

Funcionou com o colega Ivan Makino, 23 anos, recém-chegado da Universidade de Nebraska. “Li tudo, aproveitei dicas para não perder tempo por lá e fiz questão de compartilhar minha experiência na volta”, diz o estudante de Engenharia de Energia que estudou Engenharia Ambiental nos Estados Unidos. “Tive chance de fazer estágios em que acompanhava meu professor em campo, mexendo em turbina, colocando a mão na massa. A questão prática lá é muito maior que no Brasil”, afirma.

No portal, há cartilhas que detalham os documentos a reunir para conseguir as bolsas e dicas de como incluir na viagem elementos enriquecedores como estágios e visitas. Nos fóruns de discussão, um dos pontos é a diferença entre as instituições estrangeiras e brasileiras e como as faculdades poderiam aproveitar práticas vistas por lá.

“No primeiro dia de aula, por exemplo, todo professor entrega uma folha com seus dados, como procurá-lo, quais serão os tópicos do seu curso, dias de avaliação. Isso seria muito útil por aqui”, comenta Peirol. “Uma matéria como Cálculo, por exemplo, que no Brasil são quatro aulas semanais, lá são duas, mas tem mais material indicado para ler, monitores para ajudar e o professor está disponível para dúvidas em sua sala”, exemplifica Ivan.

O portal traz também entrevistas e dicas de quem teve uma boa experiência durante a bolsa. Um dos casos de maior repercussão é o do pernambucano Caio Guimarães, 23 anos. O jovem estudante de Engenharia Eletrônica da Universidade de Pernambuco ganhou bolsa do Ciência sem Fronteiras para a Hofstra University, mas fechou 2014 com o prêmio de melhor pesquisa do Wellman Center, laboratório em que Harvard e MIT são parceiros no Estados Unidos.

Guimarães conta que saiu do Brasil focado em aproveitar a viagem para ter uma experiência em uma instituição de ponta. Depois de dois meses lá, enviou cerca de 2 mil e-mails a professores, com o objetivo de conseguir uma vaga. “Escrevi tanto e-mail que cheguei a quebrar o mouse do computador. Foi uma loucura. Eu usava todo o meu tempo livre para enviar e-mail para os empregadores”, descreve no site. Após muita insistência, com um nome indicado por uma colega brasileira, conseguiu um retorno. Acabou deparando-se com uma pesquisa sobre como tratar militares com infecções em ferimentos e propôs uma solução com luz que pode reduzir o uso de antibióticos.

Ganhou o prêmio e a participação na pesquisa a distância, mesmo após o retorno ao Brasil. Na história dele, contada em entrevista ao site, Peirol destaca dez dicas úteis para estudantes como “ter foco nos objetivos, mesmo antes de sair do Brasil”, “pesquisar sobre as pessoas com quem quer trabalhar” e “participar das aulas para conseguir boas cartas de recomendação entre os professores estrangeiros”. Para o criador do portal, Caio é um exemplo de quão útil pode ser a rede entre bolsistas. “Quanto mais soubermos da trajetória e dos resultados anteriores, mais longe iremos”, aposta.

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