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Currículo Ensino Superior

Membro da diretoria da Academia Brasileira de Ciências e professor do Departamento de Física da UFRJ, Luiz Davidovich recorre à literatura para explicar a situação das universidades brasileiras.


Ele evoca uma cena do livro Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, em que a menina corre e percebe, com espanto, que todo o ambiente está correndo com ela. A Rainha Vermelha, então, explica: “Você precisa correr mais do que os outros”.

Na visão de Davidovich, o Brasil está ficando para trás em comparação com outros 
países em desenvolvimento, como a China, na corrida pela excelência de seu Ensino Superior. “Temos muito o que avançar e só isso não é suficiente: precisamos evoluir mais do que os outros”, ele diz.

A análise conecta-se a Subsídios para a Reforma do Ensino Superior, trabalho assinado por Davidovich e outros oito acadêmicos de universidades brasileiras e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), que completa dez anos.

Encomendado pelo Ministério da Educação (MEC), o documento falava sobre as reformas universitárias que aconteciam na Europa e nos Estados Unidos e apontava alguns caminhos para as instituições brasileiras.

Entre eles, a defesa de uma formação mais científica e interdisciplinar na graduação, a adoção de ciclos básicos nos primeiros anos de estudo universitário e a diversificação dos tipos de instituições de Ensino Superior. Em janeiro, o professor voltou ao assunto no seminário Excellence in Higher Education, promovido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo em parceria com a ABC.

As mudanças seriam necessárias para adequar os currículos universitários às exigências do mundo atual. “Em outros países, as reformas de instituições de educação superior são feitas em prazos mais curtos, uma vez que a sociedade se desenvolve, o conhecimento avança e as instituições devem se adaptar”, analisa Davidovich, lembrando que o modelo de Ensino Superior brasileiro foi delineado em 1968, há quase 50 anos.

Entre os entraves para mudanças por aqui, ele diz, estão o conservadorismo da comunidade acadêmica brasileira e os problemas de qualidade da Educação Básica.

Sala de Aula

Uma das maiores críticas diz respeito ao currículo das graduações oferecidas na maioria das instituições. Para especialistas, os bacharelados brasileiros são muito longos, com duração entre quatro e seis anos, e muito verticalizados.

De forma geral, o candidato escolhe o curso antes de por os pés na universidade ou faculdade, antes da prova de acesso, como acontece nos exames tradicionais, ou depois, como no caso do Enem e do Sisu. “É frequente que o aluno faça o vestibular e já decida no ingresso qual curso gostaria de fazer. Em outros países isso não acontece há muito tempo”, explica Davidovich.

Na China, por exemplo, houve a adoção de currículos mais flexíveis, que permitem ao aluno escolher disciplinas diferentes e construir, de certa forma, um percurso universitário próprio, adiando a especialização.

A mudança ocorreu após estudos demonstrarem que metade dos profissionais chineses trabalhava em posições e áreas diferentes das de suas formações. Desde 1998, o número de especializações oferecidas pelas universidades chinesas caiu de 504 para 249. A prática também acontece em instituições norte-americanas.

Na Universidade Harvard, a última reforma ocorreu em 2000, durante a gestão do reitor Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro nos EUA, e incentivou a interdisciplinaridade. No Brasil, analisa Davidovich, os currículos ainda são muito engessados e formam especialistas em diversas áreas. Para o professor, seria mais interessante formar alunos com habilidades que permitam adaptação às exigências do mundo contemporâneo do que estudantes com conhecimentos específicos.

Uma opção, em consonância com as tendências observadas no exterior, seria a adoção de um ciclo básico mais enxuto, que permitisse mais tempo para a pesquisa e incentivasse a busca por disciplinas eletivas em outras áreas do conhecimento. “Uma das vantagens é que os alunos têm um tempo maior para decidir o que realmente querem fazer”, conta Davidovich.

No Brasil, uma das entidades que adotaram essas mudanças é a Universidade Federal do ABC (UFABC), com campi localizados em São Bernardo do Campo e Santo André (SP). Criada em 2006, a universidade já nasceu incorporando as propostas da ABC.

Atualmente, a instituição conta com 7.705 alunos regulares e 1.603 ingressantes que começarão a estudar em junho. Metade das vagas é destinada a alunos oriundos de escolas públicas e todos os 512 professores efetivos são doutores e trabalham em regime de dedicação exclusiva.

Aluno da universidade desde 2010, Luís de Paula, 22 anos, já concluiu o bacharelado em Ciências e Tecnologia e atualmente estuda disciplinas do curso de Engenharia Biomédica. Na UFABC, é comum que os alunos saiam da faculdade com dois ou até três diplomas, explica ele, que mora no bairro do Tatuapé, zona leste da cidade, e se desloca até Santo André para estudar.

No começo, Luís confessa, não foi fácil acostumar-se à rotina de estudos e à liberdade dada aos estudantes. Ainda assim, a experiência foi positiva. “O estudante vem do Ensino Médio com a cabeça muito fechada em departamentos, como são ainda as universidades antigas.

Na UFABC, ele estuda Matemática, Biologia, um pouco de cada coisa”, diz. Luís acredita que o currículo mais flexível exige mais maturidade do aluno e destaca também o incentivo à pesquisa. “É um dos grandes focos da universidade”, define. Atualmente, 348 estudantes recebem bolsas de iniciação científica e a UFABC tem um programa específico para recém-chegados.

“O aluno é completamente autônomo”, define o pró-reitor de graduação da UFABC, José Fernando Queiruga Rey. “Ele pode se aventurar e fazer disciplinas do 4º ano, por exemplo. A ideia é que ele exercite a responsabilidade ao escolher e tomar decisões”, explica Rey, formado em Física pela Unicamp e professor de Engenharia de Materiais na UFABC.

Para ajudar na adaptação dos estudantes recém-saídos do Ensino Médio, a universidade oferece, há dois anos, um curso de duas semanas cujo objetivo é apresentar para o calouro a estrutura e o modelo de ensino.

Além da UFABC, outras instituições públicas de Ensino Superior, como a Universidade Federal da Bahia, 
realizaram transformações semelhantes. Davidovich reconhece o progresso, mas repete seu mote: é preciso acelerar o passo e correr ainda mais.

*Publicado originalmente em Carta na Escola