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As vizinhas a tratam por “ilha”. Cravejada de prédios de luxo e sem problemas sociais aparentes, São Caetano do Sul, no ABC Paulista, mantém-se há décadas imune às mazelas que assolam as regiões metropolitanas. O município, que em julho completou 65 anos, tem apenas 15 km2 – o que inibiu seu crescimento – e, desde sua emancipação, conta com fartos impostos pagos pela GM (General Motors), instalada numa de suas principais vias desde 1930.


Rica e pequena de berço, a cidade apareceu em 1º lugar no Brasil na terceira edição do Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM), com dados referentes a 2010. O resultado repete o das duas ocasiões anteriores, de 1991 e 2000, e, a despeito dos bons resultados em subíndices como renda e longevidade, credita-se à educação. Um salto que se explica pela inclusão de pessoas de todas as idades no ensino formal e pela municipalização de escolas de Ensino Fundamental. Das 20 hoje em atividade, 12 eram do estado.

Os frutos são colhidos tanto por moradores mais abastados quanto por famílias como a da vendedora Evelin Franco de Souza. Ela, o marido e a filha Nicole, de 7 anos, moram num imóvel de dois cômodos no bairro Santa Maria. Pagam aluguel de 550 reais, considerado por ela “exorbitante” – em cidades vizinhas, pagaria metade por residência semelhante. “Vivemos com dinheiro contado, mas daqui a gente não se muda tão cedo”, ela diz. Evelin justifica a insistência pela qualidade das escolas públicas locais: “Se Deus ajudar, ficaremos aqui até a Nicole se formar na faculdade”.

Essa convicção é comum em São Caetano do Sul. Nicole estuda na Emef (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Eda Montoanelli. Entra às 7h30 e sai às 16h45. Além das aulas tradicionais no turno da manhã, almoça na unidade e, à tarde, participa de oficinais de robótica, música, dança, informática, idiomas, iniciação esportiva e orientação de estudos. “Em casa, não tenho nada para fazer. Na escola, aprendo e me divirto”, conta Nicole, que tem acesso a computadores portáteis e lousas digitais no período letivo.

Outras 20 mil crianças e jovens compõem a rede municipal, da creche ao Ensino Médio, incluindo o Técnico – ainda que, pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases), a única atribuição exclusiva das cidades seja a Educação Infantil. O Executivo investe também no Ensino Superior, concedendo bolsas de estudo para graduação (leia na pág. 57).

Viver no sufoco não é regra entre as famílias que têm filhos em uma das 61 unidades municipais de ensino regular. A renda mensal per capita na cidade é de 2.043,74 reais, mais de 2,5 vezes que a média nacional, e apenas 0,52% dos moradores é considerado pobre. “Temos desde o aluno que passa dificuldades em casa até o que viaja ao Exterior com frequência. Na mesma classe, com acesso aos mesmos recursos”, avalia a diretora da Emef Eda Montoanelli, Adriana Putini Assi.

“São Caetano do Sul tem investido mais que os outros em Educação, por vários motivos. Um deles é ter mais recursos. Não possuir graves problemas sociais também ajuda. Mas há outro aspecto, inegável: o governo mudou de mãos, mas a educação seguiu como prioridade”, avalia a presidente da Undime (União Nacional dos Dirigentes Municipais de Ensino), Cleuza Repulho, que também é secretária de Educação de São Bernardo do Campo.

Os altos investimentos, no entanto, ainda não alcançaram o magistério. O salário médio dos professores é semelhante ao dos municípios da Grande São Paulo. Educadores recebem cerca de oito reais por hora-aula. A prefeitura contratou empresa especializada para elaborar um plano de carreira, criar critérios para promoção e ampliar a remuneração. A expectativa é que chegue próximo dos 25 reais por hora-aula praticados por escolas particulares.

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O orçamento de 2014 é de 1,02 bilhão e cerca de 25% deve ser investido no setor. Quanto mais verba, melhor a educação ofertada e maior a qualificação da população para ocupar bons cargos. “É um círculo virtuoso que ainda não encontrou seu ápice”, opina o pró-reitor de Graduação da USCS, Marcos Antonio Biffi.

De acordo com dados preliminares do Censo Escolar 2013, metade das matrí-culas na cidade é na rede municipal. Em todos os ciclos, as unidades próprias -acumulam mais estudantes que as particulares. “Para o Ensino Médio, todos os anos abrimos cerca de 500 vagas, preenchidas por meio de vestibulinho. No ano passado, tivemos 1,2 mil inscrições”, explica a -secretária de Educação em exercício, -Ivone Braido Voltarelli.

No último Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), de 2011, São Caetano do Sul atingiu nota 6,4 para os anos iniciais do Fundamental e 5,2 para o 9º ano. Os resultados estão acima das médias nacionais, de 5,0 e 4,1, respectivamente, mas os gestores não comemoram. “No ciclo 2 do Fundamental, existem pelo menos 340 cidades brasileiras que entregam educação pública de melhor qualidade. Se temos o melhor IDH, é importante que busquemos, obsessivamente, a melhor educação”, defende o subsecretário de Educação, André Duarte Stabile. “Trata-se de um ensino que rivaliza com a rede privada, mas temos muito o que melhorar. Queremos chegar ao topo”, ressalta a secretária em exercício Ivone.

Para estar entre as 40 cidades brasileiras com os melhores Idebs até 2015, a prefeitura elaborou estratégia polêmica. A primeira medida foi ampliar o volume de lição de casa a partir do 2º ano do Fundamental. Os estudantes receberam livros com centenas de exercícios de Português e Matemática – os chamados tarefários – e devem cumpri-los no ritmo estipulado pelos professores. As atividades extraclasse, que antes consumiam menos de meia hora, agora exigem ao menos duas horas.

Em sala, o professor cronometra o tempo de resposta dos exercícios. O nível de exigência das provas é cada vez maior e simulados periódicos preparam os alunos para o Ideb. A prefeitura ainda criou a Prova São Caetano, realizada duas vezes por ano. “Isso nos permite sugerir a cada classe de cada escola reforços e atividades extras onde os alunos não foram bem”, explica Stabile.

Outra ação notória foi a parceria com a Fundação Lemann, que disponibilizou videoaulas e exercícios online para reforço em Matemática para alunos do 3º ao 5º ano em sete escolas. As famílias também passaram a ser exigidas no projeto Escola de Pais, que visa a engajá-las na vida -escolar dos filhos.

No primeiro semestre, quando as medidas entraram em vigor, houve protestos. Muitos questionaram, inclusive em redes sociais, a eficácia de métodos tão rígidos. Na Emef Alcina Dantas Feijão, no bairro Mauá, uma das mais populares da cidade, com cerca de 2 mil alunos dos ensinos Médio e Técnico, choveram lamentações na mesa da diretora, Alessandra de Siqueira, 40 anos. Aluna da mesma escola na década de 1980, ela defende o rigor: “Formas de avaliação que valorizam outras competências foram mantidas, o que também é positivo”. Ela se refere aos Outros Instrumentos de Avaliação, que valem quatro pontos na nota final – a prova, seis – e incluem dedicação às atividades em classe, pesquisas em casa e participação nas oficinas extracurriculares.

O relacionamento com colegas e funcionários também é medido no chamado “ponto de ética”.

E os alunos que não conseguirem acompanhar? Stabile garante que ninguém ficará para trás. “A maioria pensa que só as escolas particulares devem estimular o alto desempenho. Mas a escola pública deve, sim, buscar esse caminho. A educação não pode ser vista como serviço de assistência social. A própria sociedade deve pressionar para que haja qualificação desse serviço público, e não migrar para a rede privada ao menor sinal de melhora no padrão de renda”, sustenta o subsecretário.

A presença da família na escola é vista também como forma de humanizar o ambiente. A Emef Alcina Dantas Feijão, por exemplo, foi considerada a melhor do estado para alunos do 6º ao 9º em 2009 e obteve a melhor pontuação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em 2010 entre escolas públicas não técnicas. A excelência, contudo, não evitou uma tragédia pela qual ficou conhecida internacionalmente. Em setembro de 2011, o estudante do 4º ano David Mota Nogueira, 10 anos, feriu à bala a professora Rosileide Queiros de Oliveira e em seguida atirou contra a própria cabeça. Colegas disseram que o garoto era vítima de bullying e já havia manifestado ódio pela educadora.

Foi necessária a intervenção de uma equipe de psicólogos para mediar os conflitos e o pânico. Alessandra conta que, passados dois anos, os estudantes não falam mais no assunto, mas uma simples briga entre adolescentes ainda alarma os pais. “Sempre fazem referência ao caso, como se pudesse se repetir”, afirma. Para ela, é preciso enxergar os alunos por trás dos números: “Não lidamos com máquinas. Somos humanos”. Demasiadamente humanos.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental