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A busca por uma escola de Ensino Fundamental para sua filha Janaína levou Rosiana Alves às lágrimas. Saída de uma reunião na pré-escola onde a menina então estudava, a empresária percebeu que, naquele modelo de ensino, ela jamais teria voz. Na ocasião, amigos lhe sugeriram uma escola municipal na zona oeste de São Paulo, mas a sugestão quase foi descartada.


“As escolas públicas que eu via no meu bairro, em Pinheiros, me pareciam péssimas, cheias de problemas. E as particulares vinham sempre com pacotes prontos, preestabelecidos, de produtos e ações, sobre os quais eu não poderia opinar”, conta. Meses depois, Rosi resolveu visitar a tal escola, a Emef Desembargador Amorim Lima, para assistir a uma apresentação musical de alunos: no mesmo dia, fez a inscrição de Janaína no local em que, hoje, também estuda sua outra filha, Beatriz.

Situação semelhante viveu a jornalista Márcia Carini, que não via em escolas particulares ou públicas algo que queria para o filho Loretto. Foi também uma mãe de aluno que lhe indicou a Amorim Lima. Da visita nasceu uma oficina de jornalismo oferecida aos estudantes, antes mesmo de Loretto ter idade para estudar lá, e que deu a ela a certeza de ter encontrado o que buscava. “Fiquei muito surpresa de encontrar alunos com senso crítico muito formado, capazes de discutir. Eram crianças mais maduras para as discussões, algo bem diferente da postura que eu encontrava em filhos de amigos ou parentes da mesma idade.”

Para as duas, o clima de comunidade unida, participante, foi um grande diferencial. Mas, mais que isso, ambas se sentiram atraídas pelo Projeto Pedagógico que encontraram, inspirado na experiência da célebre portuguesa Escola da Ponte, divulgada no Brasil por Rubem Alves no livro A Escola com Que Sempre Sonhei. Ao longo do ano letivo, as crianças recebem uma apostila com roteiros de pesquisa que contêm perto de 18 questões ou tarefas a ser realizadas, tudo com base em livros didáticos. Para dar conta de cada roteiro, é preciso pesquisar em vários livros, de diferentes disciplinas, num trabalho de investigação.

Em grandes salões, os alunos se agrupam para cumprir seus roteiros em grupo e os professores circulam entre as mesas ajudando e explicando conceitos que ali aparecem. No fim do processo, o estudante produz um portfólio, reunindo o que aprendeu, e entrega a seu educador-tutor, que avalia o material e a evolução do aluno. Cada tutor é responsável por mais ou menos 20 alunos por período e, uma vez por semana, ele tem um encontro marcado com seus orientandos.

“Aqui não tem a classe da professora X ou do professor Y. Os alunos estudam em grupos e eles têm uma referência, o tutor ou a tutora. Os tutores acompanham o ­mesmo grupo de alunos ao longo dos anos e o ­aluno tem aquela referência. Cada tutor conhece todos os alunos e todas as famílias, e ­conhece mesmo”, esclarece a mãe e cientista social Clarissa Magalhães.

Chegar a esse ponto, porém, não foi um processo simples, e começou lá em 1996, com a chegada da diretora Ana Elisa Siqueira a uma escola muito diferente da que vemos hoje. Quando cruzou os portões, ela encontrou uma escola cinza e toda gradeada. No recreio, as crianças não podiam circular pela escola, ficavam ali presas. “Eu não quis receber as crianças naquele ambiente tão escuro naquele novo ano. A explicação é que era difícil conservar uma escola branca, limpa, e o cinza escondia a sujeira”, conta. A mudança se ensaiou já naquele momento, com a mistura das tintas de Therezinha, uma funcionária que criou um tom de laranja que foi para as portas.

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Com a chegada das crianças, Ana Elisa tomou outro choque ao ver o recreio: o grande pátio, na época, era envolto por grades nas quais os alunos se penduravam e se balançavam. “Era muito ruim de olhar. Um dia tomei uma atitude por conta própria e mandei retirar. Uma coisa impressionante aconteceu. No dia seguinte, uma criança disse: ‘Diretora, ainda bem que a senhora fez isso, a gente não é louco nem bandido para ficar preso’. Ou seja, eles percebem sim essas mudanças.”

Onde hoje se vê um jardim havia apenas entulho e objetos quebrados. A iniciativa para mudar veio de Adelina Carneiro, que, na época, inventou um bazar em que a comunidade doava coisas que não queria ou não usaria mais e eram vendidas a centavos – para as crianças poderem participar. No fim de tudo, aquele monte de moedinhas virou verba para comprar plantas e materiais. Até hoje os bazares acontecem e são um bom exemplo de como a comunidade ativamente investe tempo e energia para melhorar a escola.

Estava delineada a partir daí a ­possibilidade de uma escola diferente, que só se tornaria possível graças a algo marcante: a comunidade. Foi assim que um grupo de mães, incomodado com problemas que aconteciam no recreio, resolveu frequentar o pátio todos os dias para supervisionar os alunos pequenos. Uma vez lá dentro, a preocupação com os próprios filhos virou um olhar diferenciado para todas as crianças. Assim, começaram a incentivar jogos e brincadeiras e foi criado um horário de aula específico em que essas atividades eram desenvolvidas. “Essas mulheres deixaram de só enxergar suas casas e passaram a pensar no coletivo”, conta Ana Elisa.

Aqui entra outra personagem essencial para a construção da Amorim Lima, a Conceição Acioli, que viera do Recife anos antes para fazer mestrado na Universidade de São Paulo, localizada ali perto, e matriculara lá os filhos. Com a chegada da nova diretora, a pesquisadora encontrou uma forma de colaborar, ajudando a incluir a cultura brasileira no dia a dia. Seu papel ali foi tão importante que, hoje falecida, ela dá nome a uma das salas. No começo deste ano, sua filha Mariana voltou à Amorim para matricular a neta de Conceição, Helena, e tornou-se presidente do conselho. “A educação sempre foi um tema muito forte na minha vida e, com certeza, a Amorim influenciou na minha escolha de, hoje, estudar Pedagogia, também na USP. Fui muito bem acolhida ao retornar e ouvir as histórias de lá tem me feito redescobrir minha mãe”, relata.

Na mesma época em que Conceição e as demais mães começavam a mudar a escola, os pais passaram a se incomodar com o modo como esta funcionava. Essas discussões tiveram início em 2003. Um desses pais é Gilberto Frachetta, ex-presidente do conselho que, mesmo após a saída da filha, continua ativo na escola até hoje. “O primeiro problema que atacamos foram as faltas dos professores. Resolvemos fazer um levantamento para ter uma visão mais realista do problema. Depois, foi a vez de olhar para o projeto pedagógico, que ninguém nunca tinha contestado. Como somos pais, e não temos conhecimento aprofundado sobre o assunto, fomos ­procurar, com Ana Elisa, quem pudesse nos orientar.” Foi assim que o grupo chegou ao nome da psicopedagoga Rosely Sayão, que lhes indicou a Escola da Ponte e um novo modelo de projeto, implementado com o apoio da então secretária de Educação, Aparecida Peres.

“Antes de eu me envolver com a Amorim Lima, a Ana Elisa já tinha derrubado as grades, começado a criar uma escola única que acabou com as divisões internas. A escola já tinha muitas atividades de cultura, o clube de mães. Já possuía uma característica participativa, já havia o embrião de uma gestão democrática. Quando entrei lá, peguei tudo isso em andamento, o que nos possibilitou discutir o projeto pedagógico e implantá-lo. Hoje, a escola se caracteriza por isso, ela tem uma gestão democrática e um projeto político pedagógico inovador”, afirma Frachetta.

Nem todos os professores, porém, aceitaram as mudanças: sete educadores pediram remoção só naquele ano. O estranhamento é justificável: o projeto exige maior dedicação e outra relação com o conhecimento, nas palavras da professora Cleide Portis. “Na época, eu já tinha uma experiência de 20 anos trabalhando em sala de aula. Tive de parar e pensar: isso ainda me serve?”, conta.

“Deixar de dar aulas expositivas foi uma ruptura muito grande, você deixa de ser o centro do conhecimento para se tornar um mediador do processo de ensino-aprendizagem. Foi preciso passar por um processo de renovação, assumir outra posição enquanto educadora para, aí sim, efetivamente ajudar o aluno a construir o seu saber. Não me arrependo de ter feito isso.” Mesmo em outras escolas, Cleide buscava, por conta própria, formas de mudar suas aulas e sair do lugar-comum. Hoje encontra na comunidade apoio para realizar atividades diferentes, como uma palestra com um viajante que cruzou a América Latina de bicicleta ou um almoço com um indígena. “O aprendizado é muito maior do que  o que cabe num livro didático”, diz.

Tanto envolvimento da comunidade ajuda a impulsionar mudanças e a colocar pequenas revoluções cotidianas em andamento. Parte da explicação é a relação quase familiar que muitos alunos têm com a escola onde estudaram seus pais, tios e, em alguns casos, até avós, conta Ana Elisa. Além disso, a ­proximidade com a USP ajuda a formar um grupo mais heterogêneo. São muitos os casos de pais que estudam ou trabalham na USP, cujos filhos convivem com crianças da ­comunidade do entorno.

“A convivência com a diversidade é muito forte aqui. A localização da comunidade permite o acesso de uma classe com uma condição social melhor, a proximidade com a universidade também ajuda e é complementada pelas famílias dos bairros do entorno, que nem sempre têm uma condição social semelhante. São famílias com situação econômica, social e de escolaridade diferente que aqui se completam. E há também muitos estudantes de inclusão que trabalham nos mesmos grupos que os demais”, explica Cleide.

Os diferentes saberes e habilidades de cada  família são sempre aproveitados, diz. “Cada um colabora com o que pode fazer. Há pais que ajudam a organizar passeios e mães que colaboram com bolo para alguma festinha. É interessante ver com o que a pessoa pode contribuir e, assim, formar um todo. A escola tem muito a crescer com isso.”

Para os pais, o resultado são filhos mais autônomos, seguros de seus conhecimentos. “Meu filho não se adaptaria em uma escola tradicional, com a pedagogia da minha geração ou da anterior. Ele é dessa geração que já nasce pensando”, diz Rossana Gomes Milford.

“Logo que chegamos, tinha aflição de não ter a matéria na lousa. Aí entendi que eles tinham, sim, a matéria, mas de outra forma. É um aprendizado que vem fácil, não sob tortura, como era na escola que eu frequentei. Querer que o filho seja autônomo, mas mantê-lo numa escola presa ao passado não faz o menor sentido”, conclui Rosi.

*Publicado originalmente em Carta Fundamental